A nova rota cartográfica da domesticação e disseminação da Vitis Vinífera Euroasiática

De acordo com toda a referência bibliográfica da arqueologia no campo da botânica – arqueobotânica, a videira (Vitis Vinifera Labrusca Subsp.Sativa) é uma das primeiras culturas domesticadas e mais cultivadas no mundo, tendo um grande impacto na economia agroalimentar das civilizações do passado até atual. Evidências, já publicadas aqui, datam a domesticação da videira de volta à era neolítica (8.500 – 4.000 a.C.), quando populações humanas começaram a coletar e propagar formas de Vitis para melhorar a produção de frutas e vinho.

Estudos mais recentes apontam que a domesticação ocorreu na região entre o Cáucaso e a Mesopotâmia (Geórgia, Irã, Turquia), também no Levante, no Extremo Oriente e no Leste Europeu, resultado que amplificou e colocou em xeque a concepção do Cáucaso como o berço da viticultura mundial. Dos locais de domesticação mais antigos, as videiras cultivadas se disseminaram para o oeste, alcançando a Bacia do Mediterrâneo, juntamente com o desenvolvimento da cultura humana.

Quem disseminou

A Península Itálica parece ter tido um papel fundamental na disseminação das práticas de videira e viticultura da Grécia para a Europa Central e Ocidental, devido à sua posição estratégica no Mar Mediterrâneo. No século VIII a.C., o estabelecimento de colônias gregas no sul da Itália foi o principal impulsionador da expansão e desenvolvimento da viticultura nessas áreas. No início, esses colonos presumidamente introduziram videiras de seus locais de origem, no entanto, eles plausivelmente também cultivaram populações locais cruzadas com suas variedades gregas.

Na Europa, um longo período de sucessos significativos para a viticultura foi testemunhado devido à seleção humana de novas e valiosas cultivares, até a idade atual. Até o momento, o Vitis International Variety Catalog e o Italian Register listam em torno de 23.000 cultivares e quase 800 variedades de videiras eurasianas, respectivamente.

Até 2023 as comunidades científica e ampelográfica assumiram que gregos e romanos foram os grandes agentes responsáveis por disseminar boa parte da matriz das Vitis Vinifera Sativas, com DNA próximos ou igual aos cultivados ainda hoje – lembrando que toda disseminação deve ter um agente. Porém não era possível ainda desenhar um mapa com maior exatidão dos caminhos, a rota cartográfica genética da Vitis

Evolução do conhecimento

As três ciências: arqueologia, botânica e tecnologia andam muito juntas e a cada evolução, temos resultados mais amplos e elucidativos. Desde outubro de 2024 já é possível confirmar resultados de estudos paralelos como: o material genético caucasiano não foi o principal na formação das populações de videiras cultivadas em todo o mundo. Também responder outras questões como: o quanto a população da Vitis antiga afetou a forma das atuais? A variabilidade genética da videira se encaixa nas rotas de migração humana ao redor da Bacia do Mediterrâneo?

Imagem do banco de dados do CREA – Centro di Ricerca per la Viticoltura ed Enologia, Conegliano, Italy. Um dos dos apoiadores desse estudo.

Para melhor entender o estudo, vamos visualizar o mapa com quatro grandes grupos de cores. Em cada grupo, foram colhidas amostras de DNA de videiras atuais e de fósseis – sementes e pólens ancestrais. Foram estudadas 384 variedades de germoplasma de autóctones italianas e mais outras 654 variedades Eurasianas (Européias) para se criar os cenários da complexidade genética do relacionamento e similaridade do DNA pela condição geográfica.

O resultado, um longo documento descrevendo um estudo completo com nove cenários do fluxo gênico por toda a Europa a partir do Cáucaso, ajudou a ajustar as rotas de migração mais confiáveis ao redor da Bacia do Mediterrâneo. Os ajustes de rota foram considerados para um match dos DNA’s similares com respostas acima de 70%.

O fluxo migratório

Revelou-se e constatou-se que o fluxo migratório e o parentesco populacional ocorreu de Leste para Oeste, confirmando a Magna Grécia o agente mais importante da disseminação e o Sul da Itália como uma das regiões chaves para o fluxo migratório dos germoplasmas. Os DNA’s das autóctones da Geórgia – Cáucaso, não alcançaram o percentual de match suficiente, o que comprova estudo paralelo anterior: as uvas da Geórgia ficaram confinadas na região e não se alastraram de forma a impactar as futuras Vitis Viniferas.

Já as uvas do Oriente Médio e Mesopotâmia alcançaram o Norte da África (vermelho), onde este serviu de ponte para a chegada das Vitis Ibéricas (vermelho). Essas por sua vez fizeram um match com as autóctones do sul da Itália (introduzidas e selecionadas pelos gregos) sugerindo uma migração vermelho-vermelho claro durante a expansão do Império Grego.

O germoplasma português mostrou uma proximidade maior com as variedades francesas do que com as espanholas, desenhando assim a principal rota do fluxo gênico da Península Ibérica para a Europa Central. O conjunto azul relacionado com o conjunto amarelo, constrói a ancestralidade de algumas variedades do Norte da Itália, a Garganega por exemplo.

Mapa geográfico com a localização dos fósseis de Vitis Vinifera Sylvestres e Vitis Vinifera Sativa, considerando um período entre 6.000 e 700 a.C. As amostras com material genético íntegro foram utilizadas nesse estudo. Fonte do mapa: Estudos do vinho Antigo por Patrick McGovern.

Essas descobertas reconciliam dados genéticos e arqueológicos para uma das culturas mais cultivadas e fascinantes do mundo.

Fontes: Arroyo-García, R., Ruiz-García, L., Bolling, L., Ocete, R., López, M., a, Arnold, C., et al. (20). Multiple origins of cultivated grapevine (Vitis vinifera L. ssp. sativa)

A íntegra do estudo

Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.

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Fontes: Early Neolithic wine of Georgia in the South Caucasus, Patrick McGovern; Huang,H.T. 2000. Biology and Biological Technology; Phillips, R. 2001. A Short History of Wine.

Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal

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