Ribera del Duero: conheça a origem de alguns dos grandes vinhos tintos da Espanha

A Ribera del Duero é o berço de alguns dos grandes vinhos espanhóis, sobretudo quando o assunto é vinho tinto. Embora a denominação de origem com este nome tenha sido aprovada apenas em 1982, a viticultura na região é muito antiga, datando dos tempos do Império Romano. Por muitos anos a região foi conhecida pelo seu vinho mais tradicional, o Vega Sicilia. Porém, a partir da década de 1990 a quantidade de produtores de vinhos de alta qualidade e seu impacto global aumentou consideravelmente.

A região tem uma relação estreita com a variedade Tempranillo, chamada localmente de Tinto Fino ou Tinta del País, atualmente a uva tinta mais plantada na Espanha. Porém, na Ribera del Duero ela ganha um papel de protagonista absoluta, concentrando mais de 95% da área plantada. Esta variedade mostrou um enorme poder de adaptação a esta região de vinhedos de altitude, onde a amplitude térmica ajuda a explicar a qualidade de seus vinhos.

Longa história

Situada a cerca de duas horas de carro ao norte de Madri, a Ribera del Duero tem uma longa relação com a vinicultura. Descobertas arqueológicas na região, como em Baños de Valdearados e Pintia, evidenciam que a uva já eram plantadas desde a época do Império Romano. Nesta última, hoje nome de uma conhecida vinícola, foi identificado um sítio arqueológico com a presença de resíduos de vinho. Este achado confirmou que a tradição local de vinicultura tem mais de 2.500 anos.

A elaboração de vinhos desempenhou um papel importante na economia local também durante a Idade Média. Existem evidências datadas do século XIII que mostram adegas dentro de algumas vilas. Vinho e vinhedos tornaram-se parte fundamental do desenvolvimento cultural e econômico da Ribera. Com o aumento da produção, o comércio local se intensificou e cresceram também as exportações para o resto de Castilla.

Marcos históricos importantes

Um importante capítulo da vinicultura na região foi escrito em 1864, com a fundação da Vega Sicilia.  Don Eloy Lecanda Chaves, que havia recebido uma propriedade de seu pai em Valbuena del Duero, foi à região de Bordeaux comprar mudas de Cabernet Sauvignon, Carmenére, Malbec, Merlot e Pinot Noir. O objetivo? Usar estas uvas, juntamente com a Tempranillo, para elaborar grandes vinhos.

Durante muito tempo a Vega Sicilia reinou praticamente sozinha na região. Na ausência de outras vinícolas de porte, as cooperativas ganharam peso, como a Cooperativa Ribera del Duero, que lançou seus primeiros vinhos em 1927. Neste ano, eram, ao lado da Vega Sicilia, os únicos produtores a engarrafar vinhos na região. O número de cooperativas, porém, aumentou rapidamente, sobretudo durante as décadas de 1950 e 1960, chegando a 32 em 1976.

Os rumos da região mudaram a partir da década de 1980, com a aprovação da denominação de origem em 1982. Sob a liderança de produtores como Alejandro Fernández, fundador da Tinto Pesquera e Condado de Haza, a região passou por um boom. A área plantada cresceu rapidamente, as técnicas de produção evoluíram e novos players ingressaram na região. A Ribera del Duero passou a fazer parte das principais áreas produtoras de vinhos da Europa.

A denominação de origem

Com cerca de 25 mil hectares de vinhedos, a denominação de origem Ribera del Duero conta atualmente com quase 8.000 viticultores e mais de 300 vinícolas. No total, são quase 64 mil parcelas, divididas entre quatro províncias e 118 municípios. Em termos de área, a província de Burgos é predominante, com 64 municípios e 72% do total de vinhedos. A seguir, vêm Valladolid (21%), Soria (5%) e Segovia (0,7%).

A Tempranillo é a grande estrela da região, com mais de 24 mil hectares de vinhedos plantados em 2021, cerca de 96% do total. A variedade branca Albillo Real vinha em um distante segundo lugar, com 393 hectares (1,6%), seguida pela Cabernet Sauvignon (1%), Merlot (0,8%), Garnacha e Malbec (ambas com cerca de 0,2% da área plantada).

Vinhedos e regulamentação

A área de vinhedos registrou um forte crescimento nas últimas décadas, passando de cerca de 6.500 hectares em 1985 para os atuais 25 mil hectares. Por conta disso, o perfil de idade dos vinhedos mudou de forma significativa. Cerca de 31% dos vinhedos foram plantados entre 1991 e 2000, 23% na década seguinte e 19% entre 2011 e 2020. Vinhas velhas, com mais de 30 anos, atualmente correspondem aos demais 27%, com uma parcela elevada plantada entre 1941 e 1950.

Visando melhorar a qualidade dos vinhos, as regras da denominação determinam uma produção máxima de 7 toneladas por hectare para quase todas as variedades. Porém, os dados mais recentes mostram algo como 4,4 ton/ha. A exceção é a Albillo Mayor, para qual o limite é de 9.500 quilos por hectare. Uma parte significativa dos vinhedos da região, praticamente a metade, ainda é plantada em gobelet, sistema tradicionalmente usado da Espanha. Porém, o sistema de condução em espaldeira vem rapidamente ganhando participação. Cerca de 80% da colheita é manual.

Geografia, clima e solos

A Ribera del Duero, com cerca de 115 quilômetros de extensão, fica localizada no planalto central espanhol, às margens do rio Douro. Se situa entre Madri e as Montanhas Cantabrianas e os Montes de León. Com vinhedos entre 700 e 1.100 metros acima do nível do mar, é uma das regiões com vinhedos de maior altitude no Hemisfério Norte.

É uma área de clima extremo, com verões secos, invernos longos e rigorosos, baixa precipitação (400-500 mm/ano) e uma grande oscilação térmica (de -20º a 42ºC). Estas condições, combinando características mediterrâneas com continentais, são fundamentais para a qualidade das uvas ali produzidas, que se caracterizam por cascas mais grossas e maturação longa e tardia.

Em termos de solo, boa parte da região é composta por subsolos antigos, recobertos por sedimentos terciários. Seus solos se dividem em três grandes grupos: argilosos (grão fino e grande capacidade de retenção de água), calizo, uma éspecie de calcário, e pedregosos, composto por materiais aluviais e coluviais, de baixa retenção de água.

Vinhos e produção

Assim como em outras regiões tradicionais da Espanha, como a Rioja, os vinhos da Ribera do Duero também são sujeitos a um sistema de classificação que divide os vinhos dependendo do tempo em contato com madeira. Na ordem crescente de tempo em carvalho, os vinhos são classificados como Cosecha (cerca de 70% da produção), Crianza (24%), Reserva (6%) e Gran Reserva (menos de 1%).

Com mais de 100 milhões garrafas produzidas em 2021, a maioria absoluta dos vinhos da Ribera del Duero é composta por vinhos tintos. Eles devem conter um mínimo de 95% das variedades tintas autorizadas, sendo que a participação da Tempranillo não pode ser inferior a 75%. Os rosados, que correspondem a menos de 2% da produção total, devem ter um mínimo de 50% das uvas tintas autorizadas, enquanto os brancos (menos de 1%) têm que conter pelo menos 75% de Albillo Real.

Principais produtores

Embora a Ribera del Duero tenha hoje uma enorme quantidade de produtores de alta gama, o nome mais associado a vinhos de altíssima qualidade na região segue sendo a Vega Sicilia que, a partir de 1991 passou também a elaborar vinhos com outro rótulo, a Bodegas y Viñedos Alion. Até conta de seu papel no crescimento da região, também as vinícolas criadas por Alejandro Fernández (Tinto Pesquera e Condado de Haza) merecem uma menção especial.

Com pequena produção, a Dominio de Pingus, do dinamarquês Peter Sisseck, ganhou muita atenção nas últimas décadas, assim como a Hacienda Monastério, que também tem Sisseck como um dos sócios. Outros produtores que merecem destaque são, em ordem alfabética: Aalto, Bodegas Briego, Bodegas Cuevas Jimenez, Bodegas Dominio de Atauta, Bodegas Emilio Moro, Bodegas Hermanos Sastre, Bodegas Rodero, Bodegas y Viñedos Ortega Fournier, Compañia de Vinos Telmo Rodríguez, Diaz Bayo Hermanos, Pago de Carraovejas, Pago de los Capellanes, Protos e Viñedos Alondo del Yerro.       

Fontes: Consejo Regulador Ribera del Duero; The Wines of Spain, Julian Jeffs; Guia Peñin

Mapas: Consejo Regulador Ribera del Duero

Imagem: Consejo Regulador Ribera del Duero

2 Replies to “Ribera del Duero: conheça a origem de alguns dos grandes vinhos tintos da Espanha”

  1. Artigo muito bom sobre os vinhos da Ribera del Duero possibilitou ter um melhor conhecimento sobre as características dos vinhos da região; parabéns para o autor do artigo.

    1. Muito obrigado! Agradecemos o feedback e se puder nos ajudar a divulgar o site, queremos crescer para trazer mais e mais informações sobre vinho!

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