Last Updated on 14 de janeiro de 2025 by Wine Fun
Quando digitamos a palavra “vinho” no Google Assistant, encontramos os termos:
(1) Bebida alcoólica obtida a partir da fermentação do sumo de uvas frescas, inteiras ou esmagadas;
(2) Qualquer líquido açucarado que se transforma em bebida alcoólica por meio da fermentação, ou então
(3) Licor de vegetais resultante da fermentação e vários outros significados com menor ou nenhum sentido.
O termo (1) está completamente associado às leis que regem a produção e a comercialização do vinho no mundo, já (2) e (3) estão associados com um jargão técnico da fermentação química onde todo e qualquer mosto, que passa pelo processo de fermentação, é chamado de vinho. Ou seja, o resultado de toda fermentação na química é vinho.
Essas duas últimas definições estão diretamente relacionadas com as descobertas do “vinho antigo” pela arqueologia recente. Foi somente a partir do fim da década de 1980, quando pesquisadores dissociaram o termo “vinho feito somente de uva”, que passou-se a pesquisar um leque muito maior de possibilidades sobre a fermentação antiga e o início da produção de vinho pelas antigas e/ou grandes civilizações.
Muitas vezes um conceito ou uma cultura ou um saber é tão arraigado, inflexível e sustentado por tantas regras, que até mesmo a ciência se coloca um limite subjetivo e não olha o que está debaixo de seus olhos. Ao longo de mais de 200 anos a arqueologia vem descobrindo antigas cidades, vilas, pequenos sites onde fica comprovado que existiu ali atividade humana. Junto com essas descobertas territoriais, na maioria das vezes estão ali presentes as provas físicas que respondem algumas perguntas: O que faziam? O que plantavam? O que comiam? O que bebiam? E a pergunta mais emocionante de todas: como elaboravam sua bebida?
Existe uma máxima atualmente que diz: se ali existiu uma ânfora, então existiu um alimento ou bebida conservada (exceto claro as urnas ou ânforas fúnebres, mas estas sempre são facilmente identificadas pelo design!). Hoje existem aproximadamente cerca de dois milhões de ânforas em exposição nos museus pelo mundo ou aguardando em algum depósito para serem avaliadas, pesquisadas, restauradas.
O Caçador do Vinho mais Antigo
Na ânsia de se desvendar o “vinho antigo”, a ciência biomolecular vinha estudando da forma mais pura possível as evidências de ácido tartárico e succínico para comprovar a existência ali do “vinho antigo”, da uva pura fermentada e que história ele contaria dessa civilização. De fato, tivemos o maior feito do mundo do vinho através do meu professor, chamado de “Indiana Jones da fermentação alcoólica”, Patrick McGovern.
Ele conseguiu identificar o vinho mais antigo do mundo, puro, identificando em grande proporção a presença de ácido tartárico e succínico nas paredes do que seria um antecessor do qvevri, na Geórgia. Esse artefato é datado de 6.000 a 5.800 a.C, meros 8.000 anos atrás, ainda no Neolítico, quando o homem transitava de caçador-coletor para o sedentarismo na chamada Revolução Neolítica, o início da agricultura.


Protagonismo na Revolução Neolítica
Mas ao pensarmos o óbvio: que nem de longe o mundo antigo vivia de regras para pensar uma bebida, é de se imaginar que o vinho milenar produzido não era feito somente de uva! Claro! Quando a comunidade científica concordou com essa hipótese, voltaram-se para tantas ânforas restauradas, olhando para datas de 5.000 a.C Aprox. até poucos séculos atrás e à partir daí, o vinho começou a nos contar um longa história de sobrevivência, de cultura, de religião, de formação de sociedade, de tecnologia, de uma vida avançada e refinada.
Atualmente, sem que eu saiba dimensionar exatamente a quantidade, são inúmeras as descobertas do “vinho antigo”, porém contendo principalmente figos, cereais e mel na sua composição biomolecular. Num estudo de Stephen Batiuk, arqueólogo da Universidade de Toronto, mais de 5.000 anos atrás o vinho marchou do Cáucaso para o Sul e o Oeste, fazendo um trajeto oposto das migrações humanas (África para o Oriente). Esse movimento é uma diáspora icônica do mundo clássico: a expansão da Cultura Transcaucasiana Primitiva (ETC), que se irradiou do Cáucaso para o leste da Turquia, Irã, Síria e o resto do mundo levantino no terceiro milênio a.C essencialmente levando a cerâmica para a fermentação do vinho.
Onde não havia matéria-prima suficiente, cereais, mel e figo foram adicionados aos montes para promover a fermentação e realizar a mágica do vinho. Esse movimento explica que as videiras já existiam espalhadas por todo Oriente Próximo e não somente. No Extremo Oriente o vinho – utilizando o conceito 2 e 3 do início desse texto – mais antigo descoberto no mundo, também por Patrick McGovern, está na China e corresponde a 9.000 anos numa composição de uvas, arroz e mel, um coquetel Neolítico!

Em tempo: Alguns dos insumos orgânicos com presença massiva de Saccharomyces Cerevisiae são cevada, figo, viníferas e também no mel.
Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.
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Fontes: Early Neolithic wine of Georgia in the South Caucasus, Patrick McGovern; Huang,H.T. 2000. Biology and Biological Technology; Phillips, R. 2001. A Short History of Wine.
Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal
Vinho e História: que união incrível! Amei o texto. Vou seguir .
Obrigada Re!! Acompanhe mesmo o site, tem muito aprendizado por aqui vindo de todos que contribuem!
Parabéns pelo texto, Andrea!
Como sempre, nos surpreendendo com tanto conhecimento e informação!