Last Updated on 13 de dezembro de 2020 by Wine Fun
A descoberta do túmulo do faraó Tutancâmon permitiu entender melhor os hábitos e práticas do Egito Antigo, sobretudo no que diz respeito aos faraós. Além da múmia e do sarcófago do faraó, somente neste túmulo, arqueólogos encontraram mais de 5.000 objetos diferentes. Boa parte deles lá deixados para permitir uma vida após a morte mais confortável ao faraó.
Imagens religiosas, armas, carruagens, tesouros e outros objetos foram acompanhados também por alimentos e bebidas. A maior parte deles estava disposta em alguns compartimentos distintos, anexos à câmara principal, onde estava o sarcófago. Um deles, inclusive, que pode ser descrito como uma espécie de dispensa, com óleos, alimentos e bebidas. E nele, havia “apenas” 23 ânforas contendo vinho.
Vinho de qualidade
Embora não tenham sido os criadores do vinho, há diversos registros que indicam que o vinho era consumido pelos egípcios antigos, sobretudo dentre os mais abastados. E, quando se pensa no túmulo do faraó, o mais alto título do Egito Antigo, o vinho que o acompanharia pela jornada após a morte teria que ser um vinho de qualidade.
O hieroglifos nas ânforas evidenciam diferenças na safra, origem e produção dos vinhos. Em uma das ânforas está registrado: ‘Ano 5, vinho da propriedade de Tutancâmon, Governante de Tebas, no rio Ocidental, vinhateiro-chefe Khaa’. Já outra mostra um vinho diferente: ‘Ano 9, vinho da propriedade de Aten no rio Ocidental, vinhateiro-chefe Sennufe’. Ou seja, não bastava ter um vinho qualquer, mas sim vinhos diferentes e de qualidade, possivelmente para ocasiões distintas.
Mais do que alimento
Além dos vinhos presentes na câmara anexa, que funcionaria como uma dispensa, o que mais chamou a atenção dos arqueólogos foi a presença de vinhos também na câmara principal. No espaço onde estava o sarcófago do faraó, foram encontrados mais três recipientes com vinho, entre a parte externa do sarcófago e as paredes situadas a leste, oeste e sul.
E isso levantou uma série de dúvidas. Por que esses potes de vinho não foram armazenados na câmara anexa, com o resto do vinho e alimentos, mas sim colocados dentro da câmara funerária? A posição dos três potes de vinho (leste, oeste e sul) tem algum significado? Isso tudo foi objeto de um detalhado estudo, liderado pela egiptóloga Maria Rosa Guasch Jané, da Universidade de Barcelona.

Simbolismo do vinho
Através da análise dos resíduos dentro das ânforas, com o uso de técnicas como cromatografia líquida–espectrometria de massa, e testes para a presença de determinadas substâncias químicas, os cientistas descobriram que eram três tipos distintos de vinho. Os resultados mostraram que havia um vinho branco no recipiente a leste e um vinho tinto na ânfora a oeste. Já pote ao sul do sarcófago havia a inscrição shedeh, que indicaria um vinho muito mais elaborado, de valor muito maior na época do que um vinho tradicional.
E estes vinhos não estavam nesta disposição por acaso. O paper publicado por Guasch Jané traz as explicações para isso, baseadas em motivos religiosos, ligados a algumas das principais divindades do Egito (Osiris e Ra). O vinho tinto era para uso na transfiguração de Tutancâmon em Osiris-Ra à noite, enquanto o vinho branco era para sua transfiguração em Ra-Horakhty, pela manhã.
Para a parte mais difícil da trajetória de transformação pós-morte de Tutancâmon, a sua viagem noturna pelo céu sul, o vinho shedeh, o mais nobre de todos, foi selecionado. Deste modo, estes estudos mostram a importância central dos vinhos na cultura egípcia. E a lição que fica para nós é que, nos momentos mais críticos de nossa existência, ter um bom vinho por perto pode ajudar bastante.
Fontes: The meaning of wine in Egyptian tombs: the three amphorae from
Tutankhamun’s burial chamber, Guasch Jané; A História do Vinho, Hugh Johnson, The Independent; The Wine Jars Speak, Eva-Lena Wahlberg