Last Updated on 31 de outubro de 2020 by Wine Fun
A coluna de Hélio Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo e denominada “A enologia é uma fraude?” conseguiu atrair a atenção das pessoas que se envolvem com vinhos no Brasil. É uma coluna com erros conceituais básicos e um viés claro, fruto da preguiça intelectual de não buscar um leque mais amplo de fontes (erros não aceitáveis em um texto publicado em um dos jornais de maior circulação do país).
Por outro lado, levanta algumas questões interessantes, que foram colocadas em segundo plano, por conta do despreparo do autor em abordar o tema. Vamos dissecar cinco pontos desta controvertida coluna.
Enológo, enófilo e sommelier
Questionar se a enologia é uma fraude, por conta do comportamento de quem bebe vinhos, é um erro crasso. É o mesmo que culpar a Volkswagen pelo acidentre causado com um carro da marca por uma pessoa sem habilitação. O desconhecimento das diferenças entre enólogo, sommelier e enófilo chega a ser patético para alguém que se propõe a escrever sobre o assunto.
Fontes e literatura
Tentando trazer “corpo” à sua coluna, o autor menciona estudos que vem desde a “década de 60”, chegando à conclusão simplista de que seres humanos são incompetentes degustando vinho. Porém, a fronteira da ciência está bem além disso, existe uma ampla literatura disponível sobre o assunto.
A conclusão de vários estudos, para simplificar, é que é possível treinar a percepção de componentes aromáticos e gustativos no vinho, mas não existe degustador perfeito. Ainda no assunto fontes, ele poderia ao menos ter lido o post do responsável pelo restaurante no Instagram (a fonte primária desta matéria), sem recorrer a materiais de terceiros que distorcem o texto original.
Desconhecimento de processos
A descrição do autor sobre os processos de degustação e a generalização dos degustadores chega a ser infantil. Em diversos pontos menciona “especialistas” e “leigos” lado a lado, sem diferenciar. Possivelmente ainda não foi apresentado ao conceito de degustação às cegas, que é reconhecida como a forma mais objetiva de avaliar vinhos.
Bebedores de rótulos
Talvez aí esteja o único ponto positivo desta matéria. O caso do restaurante em Nova York evidencia como muita gente direciona suas escolhas pelo preço ou pelo rótulo. São inúmeras as pessoas que escolhem o que bebem por conta do valor da garrafa e, quando confrontados com degustações às cegas, entram em pânico.
Mas este não é um fenômeno exclusivo dos vinhos. A mesma calça feita em uma confecção obscura no Bom Retiro é vendida por R$ 800 por uma loja de grife no Shopping Iguatemi e R$ 130, sem a mesma etiqueta, na Teodoro Sampaio. Consumismo sem fundamentos é um problema universal.
Arrogância e viés
Nos dias atuais o conhecimento no mundo é tão amplo, que as pessoas precisam se especializar em áreas distintas, não existem mais Leonardos da Vinci. Porém, algumas pessoas não notaram isso. Escrevem sobre qualquer assunto, desde vacinas, direito, economia ou enologia (sem esquecer o formato da Terra) e se reconhecem como autoridades, capazes de argumentar com especialistas no assunto.
Esta coluna é um exemplo disso. Se este texto fosse publicado nas mídias sociais do tal “jornalista” (o desrespeito aos princípios básicos do bom jornalismo são tantos que nem ouso tirar as aspas) já seria ruim. Ser publicada em um dos jornais de maior circulação do país, porém, faz a coisa pior.
A impressão que fica é que o jornal em questão, sem desrespeitar alguns excelentes profissionais que lá atuam, parece querer se transformar em uma versão hipster e descolada do finado Notícias Populares. Vender jornal por conta de seu sensacionalismo parece contar mais do que a qualidade das matérias ou colunas.
Imagem: Gerd Altmann via Pixabay