Nesse espaço para escrever sobre o vinho, busco sempre trazer e refletir textos sobre o que a história do vinho faz de melhor: conexões. A conexão entre várias áreas do conhecimento das ciências naturais que enriquecem nosso entendimento sobre a complexidade dessa bebida na experiência humana ao longo dessa história.
Porém, no texto de hoje, fugirei das ciências. Falarei daquela que, pode-se dizer, foi o embrião rudimentar e imaginativo de todas as ciências. Criada pelo homem há milênios com a finalidade de explicar todos os fenômenos da natureza, do próprio homem e as suas relações mundo x homem, falarei dos mitos da criação e da renovação, onde o vinho é o protagonista da simbologia da renovação.
Na história da humanidade existem pelo menos três mitos importantes sobre a criação e renovação. Eles deram origem e propósitos a diferentes civilizações, sendo que um deles é universalmente contato entre nós até hoje e está no livro dos Gênesis. São os mitos de Gilgamesh, de Deucalião e o estudo bíblico da história de Noé. Escritos em tempos diferentes, separados por alguns séculos, todos a.C, tem a origem motivada pela mesma força da natureza: o dilúvio que destrói tudo; após a destruição vem a criação sendo o homem sobrevivente da nossa espécie atual e por fim, a renovação da vida simbolizada pela videira e o vinho.
Mito de Gilgamesh: 2.100 a.C
O épico de Gilgamesh foi encontrado no século XIX em escavações na região de Nínive, na cidade de Uruk, Mesopotâmia, atual Iraque. Escrito em tabuletas, é uma das obras literárias mais antigas conhecidas, datando de cerca de 2100 a.C. As tabuletas são resquícios da Biblioteca de Nínive que, na visão da arqueologia, além de ser a mais antiga também foi a maior biblioteca da civilização suméria.
O épico é como um grande livro de contos (no nosso contexto: mitos) onde Gilgamesh, um rei semi-divino, é caracterizado como um herói que busca sabedoria e imortalidade. Um dos mitos contados por Gilgamesh é o “Mito de Utnapishtim” que narra o dilúvio. Os deuses da Mesopotâmia ficaram frustrados com a humanidade devido seu barulhento e intrusivo comportamento, então eles decidem enviar um dilúvio para destruir a civilização e purificar a terra. Porém, um Deus chamado Ea, amigo da humanidade e preocupado com a destruição, avisou Utnapishtim, um homem justo, sobre o plano divino. Ea instruiu Utnapishtim a construir uma arca para salvar a si mesmo, sua família e um par de cada animal. O mito segue a mesma narrativa que conhecemos da história de Noé. O detalhe interessante é que esse épico é 1.400 anos mais antigo que a do Antigo Testamento.
Quando a arca pousou sobre o Monte Nisir (região de Ararat atualmente), Utnapishtim e sua família ofereceram sacrifícios à deusa Ishtar (deusa do amor, da guerra e da fertilidade). Através do plantio da videira e tendo o vinho como oferenda, a deusa concedeu a Utnapishtim e sua esposa a imortalidade, finalizando pela grande busca de Gilgamesh.
Mito de Deucalião: raízes nas tradições orais da Antiga Grécia entre 3.000 a.C e 1.200 a.C
O mito aparece escrito pela primeira vez no poema “Teogonia” de Hesíodo (800 a.C). É uma narrativa da mitologia grega que apresenta o tema central de dilúvio, similar à História de Noé e ao mito de Utnapishtim. Este mito aborda questões de pureza, renovação e a relação entre humanos e divindades, onde o vinho desempenha um papel simbólico na história.
Deucalião era filho de Prometeu e sua história começa com a insatisfação dos deuses com a humanidade. Os deuses, percebendo que os humanos estavam se tornando corruptos e imorais, decidiram enviar um grande dilúvio para exterminá-los. Deucalião e sua esposa Pirra foram alertados por Prometeu sobre o que estava por vir e construíram um barco para se protegerem do dilúvio.
Após a tempestade, o barco ancorou no Monte Parnaso (Grécia) resultando nos únicos sobreviventes da humanidade. Ao se dedicarem a reabastecer a terra ofereceram vinho à Prometeu orando por fertilidade (na cronologia dos mitos gregos, o mito de Dionísio é posterior ao de Deucalião). Consultando o oráculo de Temis, foram instruídos a lançar pedras sobre a terra: as pedras lançadas por Deucalião transformaram-se em homens, enquanto aquelas lançadas por Pirra se tornaram mulheres, assim restaurando a população humana.
Velho Testamento: a História de Noé, datada entre 600 a 400 a.C.
Apresenta os temas de dilúvio e renovação. Noé é instruído por Deus a construir uma arca para salvar sua família e casais de animais de um grande dilúvio que destruirá a terra. Após o dilúvio, Noé plantou uma vinha, colheu as uvas, fez vinho e se embriagou, revelando a vulnerabilidade humana mesmo em um homem justo.
A relação de Noé com o vinho é significativa, pois reflete não apenas a fecundidade da terra após o dilúvio, mas também a dualidade do vinho: um símbolo de celebração e união, mas também de fraqueza e responsabilidade.
A interconexão dos mitos e o papel do vinho
Do ponto de vista da narrativa histórica, há uma perspectiva sobre a interconexão dos mitos nas civilizações antigas e o papel do vinho na formação e na perpetuação dessas narrativas. Acredita-se que muitos mitos tenham circulado e evoluído ao longo do tempo, influenciando-se mutuamente à medida que os povos interagiam, migravam e estabeleciam contatos comerciais e culturais. A era do cobre, do bronze e do ferro (um grande tempo que durou desde 4.000 a.C a 500 d.C ) foi um período de intenso intercâmbio entre civilizações e os mitos serviram como um meio de transmitir valores, ensinamentos e normas sociais.
O vinho, como um produto da terra trabalhada e como resultado da intervenção humana (cultivo da vinha), tornou-se um símbolo de civilização e da relação entre os seres humanos e o divino. No estudo dos mitos, frequentemente aparece em contextos cerimoniais, simbolizando a conexão com o sagrado e a passagem entre o profano e o divino. O consumo de vinho também revela a fragilidade da condição humana, representando tanto a celebração como a embriaguez e, consequentemente, a vulnerabilidade.
O ciclo de vida e morte, de alegria e dor, é uma narrativa comum. Ele ressoa nos mitos e pode ter sido reforçada pelo simbolismo do vinho, assim como a imortalidade apresentada nos dois mitos anteriores a narrativa de Noé, que evidencia claramente que o vinho é o “meio” para a vida eterna. Não é nosso tema de hoje mas, assim como os mitos da renovação, os egípcios também tinham no vinho o mesmo significado divino: o rio que leva a imortalidade.
O vinho emerge como um elo entre os homens e os deuses, celebrando a vida, mas também lembrando das vulnerabilidades inerentes à condição humana.
Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.
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Fontes: Beal, Timothy: Gods, Demons, and the End of the World: Studies in the Ancient Near Eastern Religion; Carus, Julian M. : Wine and the Vine: An Historical Geography of Viticulture and Wine in the Mediterranean World; The Biblical Account of the Post-Diluvian Generation (Gen. 9:20-10:32) in the Light of Greek Genealogical Literature
Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal
Qta informação interessante.
Parabéns pelo maravilhosa artigo
Parabéns à nossa colunista Andrea!