Last Updated on 26 de maio de 2020 by Wine Fun
María Vargas é uma profissional de perfil distinto do que estamos acostumados a ver hoje em dia. Desde o início de sua carreira profissional trabalha na Marqués de Murrieta, uma das principais e mais importantes vinícolas da Espanha. Começou nesta tradicional casa da Rioja ainda como estudante em 1995 e atingiu o posto de diretora técnica, além de ser eleita pelo crítico Tim Aktin como a melhor enóloga do mundo em 2017.
Nascida em Haro, no coração da Rioja, teve exposição com vinhos desde cedo, considerando que seu pai é enólogo de formação. E sua atitude em relação ao vinho é bastante simples e direta. Mesmo sendo enóloga-chefe de uma das principais vinícolas do mundo, vê um papel menos pomposo ao enólogo. Para ela, os vinhos são concebidos a partir do vinhedo e que, no fundo, o melhor que um enólogo pode fazer é nada. Um cenário onde uvas em condições ideais mostram sua expressão, por conta própria.
Wine Fun (WF): Qual é a sua filosofia na vinificação, o que você mais procura ao produzir um vinho, desde a escolha das uvas até o fim do processo de vinificação?
María Vargas (MV): Marqués de Murrieta tem uma única propriedade de 300 hectares chamada Ygay, onde todos seus vinhos têm origem. Nossa filosofia é definida por este vinhedo. Nele dividimos a área para cada um dos nossos vinhos: Capellanía, Marqués de Murrieta e Castillo de Ygay. Em cada uma delas é realizada uma viticultura específica e concreta, para obter as uvas nas melhores condições e que definem a personalidade de cada vinho. Isso torna o projeto de Marqués de Murrieta único, por sua continuidade ao longo do tempo, já que a cada ano, ao longo dos quase 170 anos, o mesmo trabalho é feito e, portanto, traz uma identidade única para cada vinho e também é muito importante, pois somos os condutores de qualquer decisão em torno de um único parâmetro, como a qualidade.
WF: Qual é o seu maior diferencial, qual seria uma técnica ou procedimento que você adota que mostra sua marca pessoal no vinho que você produz?
MV: Sem dúvida, o fator diferencial de um vinho está em sua uva e temos um propriedade de 300 hectares em que trabalhamos para alcançar essa diferenciação. Em um vinho, mais ainda em nosso estilo com longo envelhecimento em barricas, há muitos detalhes e momentos que definem sua qualidade final. Nossa filosofia é muito pouco intervencionista, mas gostamos de trabalhar muito duro no vinhedo, tentar extrair todo o seu potencial, para que mais tarde e durante seu envelhecimento em barril ou garrafa possa mostrar toda a sua expressividade e energia.
WF: Mencione uma safra histórica para você e porquê.
MV: É muito difícil escolher uma safra, porque cada uma delas é especial em alguma coisa. Se eu tivesse que escolher um vinho que marcasse um momento da minha vida, foi a degustação na qual um Castillo de Ygay branco da safra 1950 foi aberto. Sua cor era absolutamente incrível, um amarelo dourado sem evolução, totalmente limpo e brilhante, o nariz e sua expressividade eram tão complexos que intimidavam, surprendiam. Era como um único grande aroma, e quando finalmente chegou à boca foi uma explosão de sensações e de força, totalmente coordenadas e concentradas.
WF: Que variedade em especial ou corte você tem mais satisfação em produzir? Por que isso?
MV: Cada corte é absolutamente diferente, sendo impossível escolher um deles. Nossa maneira de trabalhar é tentar obter os vinhos mais variados que somos capazes e, dependendo do vinho que você quer produzir, usar um corte ou outro. Em suma, é muito importante conhecer perfeitamente as variedades e suas características.
WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na Rioja? Qual é a sua resposta para isso?
MV: Na minha opinião, o grande desafio que a Rioja tem atualmente é trabalhar a relação custo-benefício de seus vinhos. Isso implica em ter um modelo estável e claro de qualidade nos vinhedos e, em seguida, transferi-lo para o resto das etapas, entre eles o marketing. É importante notar que a maior parte do vinhedos da Rioja está nas mãos dos viticultores e às vezes os interesses são diferentes daqueles das vinícolas.
WF: Há alguma mensagem em particular que gostaria de transmitir para outras enólogas? Acha que há uma diferença de tratamento entre enólogos homens ou mulheres?
MV: A este respeito, tenho absoluta certeza que, na minha opinião, os enólogos homens são iguais às mulheres. O objetivo é ser um bom profissional e não acho que haja qualquer diferenciação desse aspecto.
WF: Mencione três de suas músicas favoritas
MV: Moonlight Shadow, de Mike Oldfield, Vivir Sin Tí, de Camilo Sesto e Imagine, de John Lennon
WF: Cite dois livros que você recomenda: um sobre vinho e outro sobre qualquer assunto.
MV: Relacionado ao vinho, qualquer livro escrito por José Hidalgo Tagores, que consegue trazer uma visão técnica do mundo da viticultura e do vinho, porém de forma fácil de ler e entender. Fora desta área, eu recomendaria Os Pilares da Terra, de Ken Follet, me parece uma história incrível.
WF: Fale sobre quaisquer aspectos adicionais de sua atividade que você gostaria de discutir
MV: Acredito muito na experiência e observação de várias áreas, não só do mundo do vinho. Analiso estas narrativas de outras áreas para tentar aplicá-las ao mundo do vinho. Acho que o mundo do vinho muitas vezes toma decisões continuístas, conservadoras e pouco ousadas, daí o interesse em olhar para novas perspectivas.