A França foi um dos países pioneiros na Europa a ter uma legislação nacional para a classificação de seus vinhos e muitos outros países seguiram. Porém, o maior impulso talvez tenha vindo por conta da legislação da União Europeia, que, de uma certa forma, criou espaço para que diversos países adotassem legislações similares.
Em um deles foi a Espanha. Se por muito tempo a classificação de vinhos na Espanha, sobretudo em algumas regiões como a Rioja, levava em conta a questão do tempo de permanência em carvalho como critério principal, o modelo de classificação evoluiu. Embora sem entrar em conflito com o sistema antigo, a legislação aprovada em 2003 passou a ser uma importante referência.
A Ley de la Viña y del Vino
Organizar as denominações em escala nacional e criar um patamar para padronização com a legislação europeia. Talvez estes tenham sido os principais objetivos da Lei 24/2003, de 10 de julho do ano em questão, chamada de Ley de la Viña y del Vino (LVV). E, com algumas alterações ao longo dos últimos anos, segue sendo a legislação vigente no terceiro maior produtor de vinhos do mundo.
O sistema de classificação por denominação de origem já existia a nível regional (Rioja foi a primeira, com a criação do seu Consejo Regulador em 1925), mas foi a LVV que criou uma estrutura padronizada em escala nacional. A classificação funciona, assim como na França ou Alemanha, como um sistema piramidal.
A pirâmide do sistema de classificação espanhol
A parte mais baixa, a base, adota critérios menos restritos, que vão aumentando nas classificações seguintes. Assim, a maior regulamentação ocorre no topo da pirâmide, onde se encontram os vinhos que, de acordo com estes critérios, representariam aqueles de maior qualidade.
O sistema adotado divide os vinhos espanhóis em seis patamares distintos. A base da pirâmide são os Vinos de Mesa, seguidos pelos Vinos de la Tierra. Há quem agrupe estas duas classificações como Vinos de Mesa, enquanto as quatro seguintes seriam combinadas como Vinos de Calidad.
O terceiro nível de classificação são os Vinos de Calidad con Indicación Geografica (VC). As categorias acima são compostas pelos vinhos com Denominación de Origen (DO) e pelos com Denominación de Origen Calificada (DOCa), um patamar acima. Por fim, o topo da pirâmide é ocupado pelos Vinos de Pagos (VP).
Vinos de Mesa: a base da pirâmide
A base da classificação espanhola é composta pelos Vinos de Mesa. Eles não pertencem a nenhuma denominação de origem e não se faz necessário especificar nem safra, nem procedência, nem mesmo a variedade de uvas utilizada.
Porém, assim como em outros países europeus, isso não significa que é composta exclusivamente por vinhos de baixa qualidade. Alguns produtores simplesmente decidem não seguir as regras de sua denominação de origem e não submetem seus vinhos para classificação. Podem incluir também variedades ou blends de uvas que não são permitidos pelas DO regionais.
Vinos de la Tierra (VldT): poucas exigências
Assim como a categoria anterior, os vinhos não vêm de nenhuma DO, mas devem pertencem a uma determinada região, que mostra características ambientais que dão a esses vinhos um certo caráter. Dentre todas as classificações espanholas, é a única que pode rotular com a classificação Indicação Geográfica Protegida (IGP), da União Europeia.
Seus regulamentos, porém, são menos exigentes do que os chamados Vinos de Calidad. Para se qualificar, pelo menos 85% do vinho precisa vir da área de produção nomeada. Também por conta da maior flexibilidade dentro desta categoria, muitas vinícolas em regiões de alta qualidade optaram por rotular alguns de seus vinhos como VdlT. Em 2019, existiam na Espanha 42 áreas geográficas que podiam usar a classficação Vino de la Tierra.
Vino de Calidad con Indicación Geográfica (VC): passo intermediário
Assim como os Vinos de la Tierra, eles são elaborados em uma determinada região ou localidade, mas, ao contrário dos anteriores, as uvas devem ter a mesma origem. Além disso, a produção e envelhecimento do vinho devem ser realizadas nesta mesma área.
Esta categoria é encarada como um passo intermediário para a seguinte, a Denominación de Origen. Em geral, estas denominações estão no processo para se tornarem DO, mas ainda não cumpriram todas as etapas. Por exemplo, uma região deve passar no mínimo cinco anos como VC antes de solicitar o status DO. Sete denominações atualmente estão nesta categoria.
Denominación de Origen (DO): selo de qualidade
Esta categoria inclui a maior parte dos chamados Vinos de Calidad da Espanha. Uma série de padrões de qualidade deve ser cumprida para que uma região ganhe status DO, incluindo o uso de variedades de uvas autorizadas, níveis de produção, métodos de vinificação e regime de envelhecimento.
A regulamentação é muito mais exigente do que nas categorias anteriores e em 2019 existiam 69 DOs espalhadas por toda a Espanha.
Denominación de Origen Calificada (DOCa): mais alta qualificação regional
Além de terem passado pelo menos dez anos como Denominación de Origen, estas denominações devem comercializar todo o vinho a partir de vinícolas registradas e localizadas na área geográfica delimitada. É necessário também um rigoroso sistema de qualidade e controle de quantidade.
Em 2019 existiam apenas duas regiões dentro desta categoria: A DOCa Rioja, que ganhou este status em 1991, e a DOCa Priorat, que se juntou em 2009.
Vinos de Pagos (VP): máxima expressão do vinhedo
Esta classificação não é concedida por conta de características regionais, mas sim pela qualidade e expressão da vinificação a partir de um determinado vinhedo. Assim como a VC, foi introduzida em 2003, e somente é concedida para vinhos totalmente elaborados e engarrafados dentro de uma propriedade específica. Na Espanha, o conceito de Pago é similar ao de vinhedo.
Nos Vinos de Pago, cada propriedade é autorizada a elaborar suas próprias regras, as uvas utilizadas e os métodos de viticultura, vinificação e envelhecimento. Isso proporciona uma flexibilidade não vista nas demais regulamentações do vinho espanhol.
A localização do vinhedo pode ser fora ou dentro das denominações de origem e, caso seja, pode ser usada a expressão Pago Calificado. No final de 2019 existiam 19 Vinos de Pago na Espanha.
Fontes: Wines from Spain; Wine Scholar Guild; Artoba; Santa Cecilia; Cata del Vino
Imagem: Consejo Regulador de la Denominación de Origem Calificada Rioja