O ano de 2020 foi difícil para todos, e não poderia ser diferente no mundo do vinho. Neste contexto, diversos países tiveram que enfrentar uma combinação de fatores negativos raramente vista, como França ou África do Sul, por exemplo. E, neste grupo de países mais afetados, a Espanha certamente garante sua participação.
Não bastasse o impacto da COVID-19 sobre o consumo de vinhos, a vinicultura espanhola também foi atingida pela disputa comercial entre Estados Unidos e Europa. Este conflito resultou na imposição de uma sobretaxa de 25% nas importações norte-americanas de vinho de quatro países europeus, entre ele a Espanha. E isso afetou diretamente as exportações espanholas, ainda mais em um ano de produção elevada.
Produção em alta, dúvidas quanto à qualidade
A produção espanhola de vinhos em 2020 foi de 45,8 milhões de hectolitros, bem acima dos 38 milhões do ano anterior. Embora a quantidade tenha aumentado, foi uma safra difícil do ponto de vista da qualidade. Por conta de circunstâncias sem precedentes, a primavera teve temperaturas mais quentes do que a média. Junto a isso, foram registradas chuvas fortes em muitas áreas, justamente no período em que as videiras eram mais suscetíveis aos seus efeitos. Isso resultou em problemas sérios com doenças causadas por fungos, com míldio e oídio.
A safra 2020 pode ser considerada precoce, com as altas temperaturas no início da primavera acelerando o crescimento das plantas, com floração cerca de duas a três semanas antes do tradicional. Porém, chuvas fortes afetaram regiões como Rioja, Catalunha e Galícia. A única região que escapou totalmente dos danos foi Ribera del Duero, onde a altitude e o frio extremo dos meses de inverno atrasaram a floração, evitando os danos decorrentes do tempo úmido da primavera.
Queda nas exportações e estoque elevados
Mesmo apesar de uma produção acima do esperado, as exportações de vinho espanhol fecharam 2020 em 20,1 milhões de hectolitros, uma queda de 6% frente ao ano anterior. Já em valor, favorecida pela valorização do euro em relação ao dólar, a queda foi menor, de 3,6%. O bom desempenho de alguns de seus principais mercados, como Reino Unido, Suíça e Holanda, porém, não conseguiu compensar a queda nas vendas aos Estados Unidos.
A combinação entre maior produção, redução no consumo doméstico e queda nas exportações resultou em uma elevação dos estoques de vinho e mosto na Espanha. Segundo dados do Sistema de Informação do Mercado de Vinhos (Infovi), no final de janeiro deste ano os estoques eram de 56,35 milhões de hectolitros de vinho e 5,74 milhões de hectolitros de mosto. Isso representa um aumento de 12,9% nos estoques de vinho e de 34,9% no de mosto, na comparação com o mesmo período de 2020.
O que fazer com a safra 2021?
Por conta destes estoques elevados, em algumas regiões há uma grande preocupação sobre a capacidade de receber a safra 2021. A Galícia é um exemplo, sobretudo na denominação Ribera Sacra. Lá, as autoridades locais já consideram a possibilidade de ocupar espaço de armazenamento de outros produtos.
Por exemplo, a vinícola Rectoral de Amandi, que tem a maior capacidade de produção de vinhos desta denominação, solicitou autorização junto ao Conselho Regulador para buscar uma solução alternativa. A ideia é alugar as instalações de uma empresa de laticínios para estocar os possíveis excedentes de vinho após a colheita prevista para agosto.
Fontes: Vinetur; Longwines; La Voz de Galicia; Corriere Vinicolo