Todos os principais países produtores de vinhos do mundo adotam algum sistema de identificação de origem das uvas de seus vinhos de melhor prestígio. Em muitos casos, notadamente países do Velho Mundo, como França, Itália, Alemanha ou Espanha, eles vão além: estabelecem também um conjunto de regras mais restrito. Não basta saber a origem das uvas. Há também regras que determinam quais são as uvas, as práticas de vinhedos e alguns critérios para a vinificação.
Mas como funciona a legislação para o mesmo tópico no quarto maior produtor de vinhos do mundo, os Estados Unidos? Em 1980 houve a criação da primeira American Viticultural Area (AVA) na terra de Tio Sam, mais especificamente regulamentando uma área hoje pouco associada ao vinho. Não foi na Califórnia, mas sim em Augusta, Missouri, que houve a regulamentação da primeira AVA.
O que são as AVAs
Por definição, uma American Viticultural Area é uma região designada para cultivo de uvas para vinho nos Estados Unidos, que permite o uso de uma denominação oficial. O objetivo é beneficiar tanto os produtores como os consumidores. O racional é que cada AVA apresente características geográficas ou climáticas específicas, que a distinguem das regiões ao seu redor e que afetem as uvas e, consequentemente, os vinhos.
Os produtores, com isso, ganham uma espécie de proteção. A regra federal obriga que pelo menos 85% das uvas de um vinho sejam provenientes de uma área específica, para que a denominação desta AVA seja usada no rótulo. Por exemplo, para que um vinho possa ser rotulado como Napa Valley AVA, o menos 85% das uvas devem ter origem em qualquer das sub-regiões do county (município ou condado) de Napa. Já os consumidores, tendo acesso à informação de qual AVA as uvas provêm, podem escolher os vinhos que mais agradam ao seu gosto pessoal.
Os limites das AVAs são definidos pelo Tax and Trade Bureau (TTB), uma divisão específica dentro do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Se o processo de criação de uma AVA começa com a solicitação de um grupo de produtores, é o TTB que define a aprovação e os limites. Antes da criação do TTB em 2003, Bureau of Alcohol, Tobacco and Firearms (ATF), também divisão de Departamento do Tesouro, recebia e tratava de petições para áreas vitícolas, produção de vinho e rotulagem.
Quais suas regras?
Embora as AVAs determinem quais são os limites para a origem das uvas, elas não trazem, dentro da legislação federal, regras adicionais relacionadas à viticultura ou trabalho de adega. Neste sentido, são muito menos rigorosas, por exemplo, que as AOCs francesas ou DOCs italianas. Assim, um produtor dentro de uma AVA tem enorme flexibilidade para elaborar o vinho da forma que quiser.
Se nos países europeus e mesmo em outras partes do mundo há regras que limitam a escolha de uvas a certas variedades específicas (pense Barolo e Nebbiolo, ou Volnay e Pinot Noir), isso não ocorre nas AVAs. O vinicultor pode usar qualquer combinação de uvas que acredite trazer qualidade para os seus vinhos. Não há restrições também quando ao rendimento dos vinhedos, métodos de vinificação ou tempo de envelhecimento. Por conta de tanta flexibilidade, é mais adequado comparar o sistema de AVAs com aquele de Indicações Geográficas adotada em diversos países, inclusive na Europa.
Vale destacar que, além das regras estabelecidas pelo TTB, há também regulamentos criados pelos governos estaduais. Estes, em geral, são mais estritos que aqueles em escala federal. Por exemplo, na Califórnia, 100% das uvas usadas devem vir da própria Califórnia, quanto o estado de Washington exige um mínimo de 95%. Já no caso do Oregon, se o rótulo de vinho indicar o nome do estado, de um condado ou uma AVA totalmente dentro dele, 100% das uvas devem ser do Oregon e um mínimo de 95% desta AVA.
Quantas são?
Em outubro de 2024 existiam 249 AVAs. Elas se dividiam em 34 estados, mais 18 com áreas em mais de um estado, para um total de 267. A California era de longe o estado com mais AVAs exclusivamente dentro de suas fronteiras (153), seguido por Oregon (19) e Washington (16). A seguir vinham New York (10), Texas e Virginia (7), Michigan (5), Missouri, New Jersey, North Carolina e Ohio (3), Arkansas, Colorado, Connecticut, Maryland, New Mexico e Pennsylvania (2). Com uma AVA, apareciam Georgia, Hawaii, Idaho, Illinois, Indiana, Massachusetts, Minnesota, Tennessee, West Virginia e Wisconsin
Não somente a quantidade chama a atenção, mas também a enorme diversidade em termos de tamanho. Existem AVAs enormes. Um exemplo é a Upper Mississippi River Valley AVA, cobrindo uma área regulamentada de mais de 77 milhões de hectares espalhados por quatro estados (Illinois, Iowa, Minnesota e Wisconsin). De outro lado, há AVAs com pouco mais de 20 hectares, sobretudo em áreas de maior prestígio da Califórnia.
Múltiplas AVAs
Esta enorme variação está ligada à própria forma na qual as AVAs foram criadas. Nada impede que existam diversas AVAs dentro de uma só AVA. Vamos usar como exemplo uma produtora com vinhedos no Stags Leap District, sub-região do Napa Valley. Ela pode optar por rotular seu vinho como California, North Coast AVA, Napa Valley AVA ou mesmo Stags Leap District AVA. Somente dentro da Napa Valley AVA, existem outras 16 AVAs (Atlas Peak, Calistoga, Chiles Valley, Coombsville, Diamond Mountain District, Howell Mountain, Los Carneros, Mt. Veeder, Oak Knoll District of Napa Valley, Oakville, Rutherford, Spring Mountain District, St. Helena, Stags Leap District, Wild Horse Valley e Yountville).
O mesmo ocorre em outra famosa região vinícola norte-americana, desta vez no Oregon: Willamette Valley. Além da AVA de mesmo nome, existem nove AVAs menores que têm clima, solo, elevação ou outras características que os tornam únicos para a vinicultura. São elas: Eola-Amity Hills, Laurelwood, McMinnville, Ribbon Ridge, Tualatin Hills, Van Duzer Corridor e Yamhill-Carlton District.
Dentro deste contexto, é comum que os produtores optem por rotular seus vinhos dentro da AVA mais específica, sobretudo no caso de vinhos de mais alta gama. Nada impede, porém que ele possa rotular também com o nome da AVA mais conhecida pelos consumidores.
Elas fazem diferença?
Existe muita controvérsia sobre o impacto das AVAs sobre a qualidade e preço dos vinhos norte-americanos. Estudos mostram que AVAs mais específicas e em áreas de maior prestígio tendem a se beneficiar, com uma melhor identificação por parte dos consumidores. De outro lado, AVAs que cubram áreas muito amplas e com diferenças marcantes de terroir acabam trazendo pouco impacto além do meramente informativo.
Isso explica a tendência crescente de criação de AVAs menores e mais específicas, normalmente sub-regiões dentro de AVAs já existentes. Nestes casos, parece haver consenso que há benefícios tanto para os produtores como consumidores. É mais comum, inclusive, que exista uma maior convergência nas variedades usadas, embora sem a criação de regulamentos formais. O racional é que tanto produtores como consumidores tenham a capacidade de identificar quais as melhores combinações entre terroir e uvas, contribuindo para uma maior qualidade dos vinhos.
Fontes: Established American Viticultural Areas, The Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau (TTB); Wine Institute; Oregon Wines; Decanter; The Washington Post
Imagem: California Wines