Estoques excessivos e quebra de grande produtor: momento delicado na Rioja

Em 2025 a Rioja, para muitos a principal referência do vinho espanhol, comemorará 100 anos da criação de sua denominação de origem. Até que comecem as celebrações, porém, a região terá que resolver uma série de problemas que ganharam maior intensidade nos últimos anos. Se o conceito de inferno astral funciona na prática e pode ser usado no mundo do vinho, certamente a Rioja está atualmente passando por este período.

Assim como outras regiões produtoras de vinho de grande porte e longa tradição, como Bordeaux, a Rioja passa atualmente por uma crise. Há um claro excesso de produção, com grande acumulação de estoques e impacto baixista sobre os preços. Algumas medidas já foram tomadas, mas o quadro é preocupante. Em meados de 2023 os governos regionais de La Rioja e do País Basco comprometeram-se a financiar a destilação de 30 milhões de litros de vinho, para tentar equilibrar a oferta e a procura.

Estima-se que outros 938 milhões de litros estejam em estoque nas vinícolas, dos quais pelo menos 150 milhões de litros não vendidos. Este último número representa cerca de 55% da produção média anual, um volume muito superior à atual demanda de mercado. Mesmo considerando as dificuldades da safra 2023, quando ondas de calor e chuvas fora de época derrubaram a produção, os preços da uva de Rioja permanecem muito baixos, entre 0,5 e 1,2 euros por quilo.

Erros do passado e menor demanda

Este quadro inquietante reflete tanto equívocos cometidos no passado como a queda da demanda por vinhos vista em toda a Europa nos últimos dois anos. A Rioja mostrou um impressionante crescimento na sua área plantada e produção nos últimos 35 anos. Se em 1985 contava com cerca de 39 mil hectares de vinhedos e produzia em torno de 230 milhões de garrafas, os números atuais assustam. Em 2020, eram 66 mil hectares e 370 milhões de garrafas, crescimentos de 70% e 60%, respectivamente.

Boa parte deste crescimento foi em áreas menos favorecidas, especialmente na Rioja Oriental, colocando pressão ainda maior sobre os preços médios do vinho. Por conta disso, a solução pode ser em linha com aquela sendo adotada em Bordeaux: extração de uma área considerável de videiras. Estimativas colocam o “número mágico” em torno de 10 mil hectares.

Falência e crise

Não bastasse os problemas de sobreprodução e conflitos entre produtores e autoridades, a questão financeira também ganha destaque. Recentemente, um dos maiores produtores da região, a Marqués de la Concordia Family Wines (MCFW) abriu processo de falência. Anteriormente considerada uma das vinícolas de maior faturamento de Rioja, sentiu o peso de dívidas de € 64 milhões, o que deve levar à dissolução da empresa e na venda de seus estoques de vinho e propriedades.

Segundo artigo da Wine Searcher, após denúncias de fraude, a situação pode ser ainda mais grave. Uma fonte da Metric Capital Partners, acionista da Haciendas Company (empresa que controla a MCFW), confirmou que os ativos já estão prontos para venda, com o processo de liquidação em andamento, conforme relatado pela primeira vez pelo jornal La Rioja em 20 de janeiro.

Além das marcas Marqués de la Concordia e Paternina, os ativos do MCFW incluem vinícolas históricas estabelecidas no século XIX, como Rioja Santiago e Lagunilla. Outras empresas do grupo são Vega Reina em Rueda, Marqués de Monistrol Cava, uma coleção de vinícolas no Vale do Douro, e Zorita Wine Hotel & Spa e Hacienda. A Haciendas Company também possui também uma participação de 50% na Marques del Griñon.

Fontes: Rioja on the Rocks, Tim Atkin; Wine Searcher

Imagem: Christopher Winkler via Pixabay

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