Feira Naturebas 2025: pitacos e alguns vinhos recomendados

Feira de vinho é sempre um assunto controvertido. De um lado, a oportunidade de conhecer produtores e provar vinhos diferentes, além de encontrar tantos amigos. De outro, a usual bagunça nos estandes, filas, gente mal-educada e até aqueles com excesso de perfume, além de horas a fio de pé. Porém, para mim, o balanço final é sempre positivo, sobretudo por encontrar tanta gente interessante e permitir degustar coisas novas ou revisitar vinhos conhecidos.

E não dá para falar de feira de vinho em São Paulo sem mencionar a Naturebas, que é o grande ponto de encontro para apreciadores de vinhos de baixa intervenção não somente na maior cidade brasileira, mas também da América do Sul. Com um track record de longo tempo na feira – conto com uma verdadeira coleção de tacinhas ISO decoradas com uma bundinha (sim, ficamos com a taça após a feira), fiquei ausente por algum tempo. Para ser preciso, foram dois anos sem participar, fruto de conflitos de agenda entre a feira e viagens ao exterior. Algo mudou neste período?

Uma feira renovada

Muita coisa na feira mudou, deste a última edição que participei. Para começar, a escolha de local foi excelente. O pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, é espaçoso e muito bem arejado, além de prático para chegar e com uma vibe melhor, mais integrado com uma proposta que valoriza a natureza (como o próprio nome da feira indica). Achei a organização muito boa, com destaque para ampla disponibilidade de água, bastante espaço para conversas paralelas longe dos estandes e área de alimentação externa. Tirando alguns pequenos problemas logísticos, avalio a feira deste ano como muito boa, inclusive melhor que algumas feiras que participei recentemente no exterior.

Porém, a maior mudança, na minha visão, foi no que chamo de “espírito da feira”. Minha percepção foi uma feira com muito mais diversidade, com espaço para múltiplas tribos e estilos de vinhos. A consequência foi que a qualidade média dos vinhos apresentados foi a melhor que me recordo. Tanto produtores como importadores pareceram desta vez dar mais ênfase a vinhos de melhor qualidade, com menos espaço para aqueles vinhos que prometiam na “proposta”, mas pouco entregavam em termos de qualidade.

Reflexo de um novo momento

Neste sentido, parece que finalmente o mercado brasileiro de vinhos de baixa intervenção parece estar se alinhando com o que acontece em países com tradição mais longa no vinho, como França, Itália, Espanha, Alemanha e Portugal, por exemplo. Se no passado havia uma ênfase maior no aspecto “natural” do vinho, hoje o foco maior parece em qualidade. Desde que não estejamos falando de vinhos industriais, pouco importa hoje se existem pequenas nuances na viticultura ou no trabalho de adega.

A visão sobre o cultivo dos vinhedos é hoje mais dogmática. Se no passado, muitos fãs desta feira não bebiam vinhos que não fossem elaborados com uvas ao menos orgânicas, hoje isso mudou. Existe a percepção de que algumas regiões, por conta de suas dificuldades climáticas (inclusive a Serra Gaúcha), apresentam riscos enormes de perdas de safras se o “receituário” orgânico for seguido à risca. Isso sem falar de próprias críticas à própria agricultura orgânica, como o uso excessivo de enxofre e cobre, com impactos sobre a vida bacteriana nos vinhedos.

O mesmo ocorre em relação ao trabalho de adega. Se antes a palavra “uso de sulfitos” parecia quase um palavrão, parece claro que este conceito reflete hoje a maior complexidade da vinificação. Será que vale a pena renunciar ao uso de alguns poucos gramas de sulfitos para evitar o risco de vinhos reduzidos ou excessivamente contaminados pela ação de fungos ou bactérias indesejadas? Outros tabus que parecem ter perdido o holofote é o uso exclusivo de leveduras indígenas ou de carvalho, este último tanto na vinificação como envelhecimento.

Vinhos de estilos distintos

O resultado foi uma gama mais ampla de vinhos. Sim, felizmente aqueles vinhos industriais que usam práticas intervencionistas – que praticamente anulam a expressão do terroir – não estavam presentes. Porém, estandes contavam com vinhos de múltiplos estilos, regiões e propostas. No fundo, senti que a preocupação principal tenha finalmente recaído sobre o que mais importa: a qualidade dos vinhos. Mais qualidade e menos discurso vazio me parece a melhor forma de expressar esta mudança.

Um exemplo interessante foi provar os vinhos de novos produtores, entre os quais alguns brasileiros. No “passado distante” de 2022, o grande desafio era achar o equilíbrio entre uma proposta de baixa intervenção e as condições extremas da viticultura e vinificação. Um exemplo é a Serra Gaúcha – pergunte a Eduardo Zenker como ele compara a ação das leveduras na Europa e no nosso terroir subtropical. Hoje, o bom senso parece ter prevalecido, com uma preocupação maior com a qualidade dos vinhos do que com dogmas quase religiosos. Dos vinhos que provei, pouco mostraram defeitos decorrentes de falta de cuidado na vinificação. A maioria das falhas decorriam de falta de experiência e/ou rodagem de enólogos jovens, o que é perfeitamente normal.

Desta vez, consegui sentir nesta feira uma visão mais ampla do mundo do vinho de baixa intervenção. Vinhos sul-americanos de produtores exóticos? Tinha! Pequenos produtores portugueses e italianos? Vários! Vinhos franceses alternativos? Um bocado! Vinhos mais clássicos, porém, elaborados com respeito pelo terroir? Alguns, incluindo até alguns Premier Crus da Borgonha. Em resumo: uma verdadeira celebração da diversidade.

Vinhos de destaque

Com tantos vinhos provados (infelizmente longe de provar tudo, mesmo com dois longos dias na feira), alguns dos meus destaques. Não estou falando aqui dos melhores vinhos (tudo é subjetivo), mas sim de alguns vinhos que chamaram minha atenção pela originalidade, custo-benefício e, obviamente, pelo que chamo de “efeito uau”, ou seja, aqueles que me cativaram. Em clima de Copa de Mundo de Clubes da FIFA, uma seleção de 11 vinhos, aqui por ordem alfabética:

Chardonnay Parcelas Seleccionadas – Vigneron by Marco de Martino, Limari, Chile – WinetClub

Fables of Faubus 2022, Les Valseuses, Jura, França – Barbagianni

Kindeli Invierno 2022, Alex Craighead, Nelson, Nova Zelândia – Vinci

La Pretensión 2022, Raul Moreno, Xerez, Espanha – chegará pela Wines4U

Lumiére de Silex Opera de Vins, Jean Pierre Robinot, Loire, França – Vinho Veritas

Momento Chenin Verdelho 2019, Momento Wines, Swartland, África do Sul – Wines4U

Palo Blanco 2022, Envínate, Ilhas Canárias, Espanha – Oinos

Pet Nat Chardonnay Magnum 2021, Vivente & Vinhas do Tempo, Serra Gaúcha, Brasil – Vivente   

Pommard Clos des Epenaux 2019, Comte Armand, Borgonha, França – Delacroix

Trilho em Pormenor 2022, Pormenor, Douro, Portugal – 011 Import

Viñas Extremas Malbec Los Chacayes 2022, Matias Ricciteli, Valle de Uco, Argentina – Vinhos Mundi

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estuda continuamente e segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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