Last Updated on 18 de junho de 2025 by Wine Fun
Muito antes de Baco e Dionísio reinarem sobre taças gregas e romanas, o vinho já era fermentado nas montanhas do atual Irã e nas planícies da Mesopotâmia. De Susa a Ugarit, passando por Babilônia e Persépolis, o vinho era parte de uma tradição milenar entre rituais, comércio e simbolismos religiosos. Entre as montanhas e planícies do chamado Crescente Fértil — uma faixa geográfica que compreende o atual Irã, a Mesopotâmia e o Levante mediterrâneo, entre os rios e desertos, o vinho floresceu. Fermentou não só como bebida, mas como linguagem cultural, símbolo de prestígio, oferenda religiosa e até instrumento diplomático.
Este artigo propõe uma travessia pelas primeiras civilizações vinícolas da história — Elamitas, Medos, Persas, Sumérios, Babilônios e Ugaríticos — com foco na produção, circulação e significados simbólicos do vinho na Antiguidade. Nunca nos esquecendo que os primeiros vestígios arqueológicos ocidentais estão na Geórgia e, o mais antigo do mundo, encontra-se na China, porém é nessa faixa Irã/ Mesopotâmia/ Levante onde estão a maior riqueza em quantidade arqueológicas da história do vinho.

Em escavações conduzidas na década de 1960 na aldeia neolítica de Hajji Firuz Tepe, no atual Curdistão iraniano, arqueólogos encontraram jarros de barro contendo traços de ácido tartárico (resíduo natural da uva) e resina de terebinto, datados de cerca de 5.400 a.C. — evidência inequívoca de uma produção intencional de vinho.
O local, que fazia parte de uma casa com múltiplos cômodos, sugere que o vinho já era armazenado em contextos domésticos e sociais. A adição de resina visava retardar a oxidação, como se fazia também no vinho grego retsina milênios depois.
Quem foram os povos do antigo Irã?
Elamitas (c. 2.700–539 a.C.)
Os Elamitas, um dos primeiros povos urbanizados do planalto iraniano, fundaram uma das mais antigas civilizações urbanas da região. Com sua capital em Susa (vide mapa), posteriormente foram absorvidos pelo Império Persa. Eram contemporâneos dos Sumérios e Babilônios e tiveram intensa relação comercial e cultural com a Mesopotâmia. Embora tenham tido fortes influências da Mesopotâmia, eles desenvolveram uma escrita cuneiforme própria e uma organização religiosa e agrária complexa.
Até o momento, a arqueologia confirma que a viticultura iniciou-se nas Montanhas Zagro. Por isso, as evidências apontam que foram provavelmente os primeiros a dominar a fermentação na região, com papel ritual nas oferendas aos deuses e cerimônias palacianas.
Medos (séc. VIII–VI a.C.)
Pouco documentados arqueologicamente, os Medos formaram um reino poderoso na região de Ecbátana. Foram os primeiros iranianos a desafiar o Império Assírio, e abriram caminho para os Persas. Sabemos, por fontes assírias, que havia trocas envolvendo vinhos medos com centros urbanos mesopotâmicos e nas documentações, o vinho era um dos bens valiosos de troca entre os povos.
Persas Aquemênidas (550–330 a.C.)
Sob os Aquemênidas, com Ciro, Dario e Xerxes, o vinho atinge novos patamares. Persépolis, capital cerimonial do império, era abastecida com ânforas de vinho oriundas de várias províncias, como mostram os relevos das escadarias e as tabuletas de argila achadas nas ruínas. O vinho era símbolo de hospitalidade, diplomacia e poder. Segundo Heródoto, era servido em grandes banquetes com normas específicas de etiqueta e fartura.


Suméria: o nascimento da cultura líquida
No sul da Mesopotâmia, os sumérios foram pioneiros na urbanização e na escrita. Foram a civilização fundadora das primeiras cidades-estado da história (como Ur, Uruk e Eridu) e deixaram registros cuneiformes indicando o uso do vinho em oferendas a deuses, especialmente no panteão de Nippur.
Embora a cevada e a cerveja fossem mais comuns, o vinho tinha lugar de destaque. Documentos, placas de argila em escrita cuneiforme que restaram da biblioteca de Nínive, mostram o vinho sendo entregue a templos como tributo e consumido por elites religiosas. Também nelas constam que o vinho era visto como um produto sagrado, associado à fertilidade e à ordem cósmica e na interpretação dessas escritas. Historiadores decifraram pela primeira vez que a fermentação era entendida como uma dádiva dos deuses — algo misterioso, mas altamente valorizado.
Em muitos rituais aos deuses, que eram todos associados com as forças da natureza (somente com a civilização egípcia – em partes – e grega e romana completas, é que os deuses passaram a personificar seres humanos), como Enki (deus da água) e Ninhursag (mãe-terra) eram agraciados com “vinho doce e abundante”.
Babilônia: normatização, comércio e rituais
Na Babilônia, o vinho aparece como mercadoria controlada. O Código de Hamurábi dedica artigos ao funcionamento das tavernas (que podiam ser dirigidas por mulheres), estabelecendo regras e punições em torno da venda de bebidas alcoólicas. Isso mostra não apenas sua popularidade, mas seu impacto na ordem pública.
Durante festivais religiosos, como o Akitu, a embriaguez ritual, era permitida ou incentivada como forma de comunhão com os deuses e renovação cósmica. Esse ritual dá origem aos bacanais dos deuses Dionísio e Baco. O vinho também fluía pelo comércio: caravanas traziam uvas secas e vinhos do norte (Armênia, Zagros, Levante), com destino às cidades-templo babilônicas.

O grande Império Persa e o papel diplomático do vinho
Nos tempos do Império Persa, o vinho era tanto uma riqueza agrícola quanto instrumento simbólico. Nas festas reais descritas por Heródoto, o vinho circulava entre embaixadores e sátrapas (governadores), como sinal de favor do rei. Em Persépolis, os relevos (Fig. 4) mostram povos da Lídia, Fenícia, Armênia e Egito trazendo tributos — entre eles, jarros de vinho.
Zaratustra, fundador do zoroastrismo, tinha uma visão ambígua sobre o álcool. Embora o consumo excessivo fosse condenado, o vinho em contextos ritualísticos era permitido e, em alguns textos, até valorizado como canal para conexão espiritual.
O Irã de hoje
O Irã contemporâneo, marcado por intensas tensões geopolíticas e recorrentes episódios de conflito, é também o herdeiro de uma das mais antigas e sofisticadas tradições vitivinícolas da história humana. Constitui-se, portanto, em um paradoxo histórico. Observar que o mesmo território que, desde o período elamita até o império persa, consolidou práticas de cultivo da vinha e de produção de vinho com fins rituais, cortesãos e comerciais, seja hoje majoritariamente reconhecido no cenário internacional por narrativas de instabilidade e antagonismo regional.
As descobertas arqueológicas em sítios como Hajji Firuz Tepe e nos vários marcados na Fig. 1 deste artigo revelam que o conhecimento sobre a fermentação da uva e o armazenamento do vinho já era amplamente difundido na região há mais de sete mil anos, configurando o Irã como um dos epicentros originais da cultura vinícola. A descontinuidade entre esse legado e a atual realidade, marcada por interdições religiosas, políticas de restrição cultural e disputas de poder, evidencia não apenas transformações internas, mas também um processo de esvaziamento simbólico imposto por olhares externos que desconsideram a complexidade histórica do país.
Retomar o passado vitivinícola iraniano é, portanto, mais do que uma recuperação arqueológica: trata-se de um exercício crítico de memória cultural e uma forma de resistir à redução da identidade iraniana à sua condição contemporânea de nação em conflito. Enquanto escrevo essas linhas, a guerra entre Israel e Irã se intensifica na sua forma mais violenta, com o risco de perdermos os sítios arqueológicos existentes e tão bem preservados.
Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.
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Fontes: McGovern, P.E. (2003). Ancient Wine: The Search for the Origins of Viniculture. Princeton University Press; Gunter, A.C., & Haerinck, E. (2004). The Elamite World. In The Persian Empire: Continuity and Change; Potts, D.T. (2016). The Archaeology of Iran: From the Paleolithic to the Achaemenid Empire. Cambridge University Press.
Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal
