Last Updated on 10 de maio de 2021 by Wine Fun
Pouca gente sabe, mas a China tem uma longa tradição no cultivo de uvas e, também, na produção de vinhos. Nos últimos anos, porém, o gigante asiático tem sido fonte de diversas controvérsias. Uma delas é a imposição de altíssimas tarifas sobre a importação de vinhos da Austrália, uma medida vista pelo governo australiano como arbitrária e injusta.
Porém, talvez o que mais chame a atenção é a falsificação de vinhos na China. Embora a União Europeia e o governo chinês tenham assinado em setembro de 2020 um acordo de cooperação para a proteção de indicações geográficas (IG), a falsificação e adulteração de vinhos ocorre em grande escala no país asiático. E um novo estudo mostra isso de forma evidente.
Análise química
Um estudo publicado no início de maio por um grupo de pesquisadores alemães e chineses evidenciou que o nível de fraude no mercado chinês de vinho é alarmante. O estudo analisou quimicamente diversas amostras de vinhos europeus disponíveis ao consumidor chinês, com o objetivo de detectar se fraudes ou manipulações eram somente restritas aos rótulos, ou também se estendiam ao conteúdo dentro das garrafas.
Cinquenta rótulos diferentes de vinhos europeus foram adquiridos (duas amostras de cada) por uma organização independente, em diversos canais de distribuição (supermercados, lojas de conveniência, lojas especializadas e comércio eletrônico) na China continental, no outono de 2018. Refletindo as preferências dos consumidores chineses em relação ao vinho europeu, 33 dos 50 vinhos eram franceses, seguido por Espanha (10), Itália (4), Alemanha (2) e Portugal (1). A maioria era de vinhos tintos (44), com quatro brancos e dois vinhos rosés.
Boa parte dos vinhos foi selecionada de forma aleatória, porém seis deles (12%) foram especificamente escolhidos para análise por causa de sua rotulagem incomum. Após nova inspeção por irregularidades nos rótulos, cápsulas e rolhas, um total de 10 amostras de vinho foram categorizadas como suspeitas, com base apenas em sua aparência.
Resultados
As amostras foram analisadas de forma independente na China e na Alemanha, aplicando os métodos padrão da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho), dentro do projeto conjunto entre China e União Europeia com o objetivo de verificar a segurança alimentar. Os testes visaram identificar adulterações comuns, como uso de outras uvas, adição de água, chaptalização e inclusão de glicerol nos vinhos.
Do total de 50 vinhos, onze (ou 22% das amostras) foram classificados como fraudulentos, com base nas análises químicas realizadas, embora apenas cinco deles tenham levantado suspeitas devido à rotulagem incomum. Seis destas amostras mostraram mais de um tipo de fraude química. Em todos os casos, as fraudes foram confirmadas tanto nas análises realizadas na Alemanha como na China.
A adulteração mais comum, com oito amostras, foi a adição de glicerol. Esta fraude tem como objetivo alterar os sabores e aumentar a viscosidade dos vinhos na boca, de forma a passar a impressão de um vinho de qualidade mais alta. A seguir, vieram o uso de outras uvas que não aquelas de Vitis vinifera (6), adição de água (5) e chaptalização (5). Dois vinhos apresentaram severas discrepâncias em todas as análises realizadas, possivelmente sendo bebidas completamente artificiais.
Fonte: What’s in a wine? – A spot check of the integrity of European wine sold in China based on anthocyanin composition, stable isotope and glycerol impurity analysis, Teresa Müller, Qiding Zhong, Shuangxi Fan, Daobing Wang, Carsten Fauhl-Hassek
Imagem: Atul Vinayak via Unsplash