Garçom! Uma salada mista de influenciador, PIX, viagem e opinão, por favor

Qual é o limite dos “favores” recebidos pelos avaliadores de vinhos?  Não são poucos os importadores e produtores que oferecem vantagens para quem tem o poder de influenciar o paladar alheio. E esta prática, como veremos a seguir, nem chega a ser novidade. Porém, a coisa parece ter mudado de dimensão nos últimos anos. Em um mundo povoado por Deolanes e Pablos, agora o “incentivo” é direto e reto, geralmente via PIX ou TED.

Antes de buscar responder à pergunta de entrada, vale a pena citar alguns trechos de um livro interessante, a biografia de Robert Parker, escrita por Elin McCoy. Parker certamente foi uma figura bastante controvertida, por conta do impacto que seu gosto pessoal gerou no mundo do vinho. Porém, pelo que eu saiba, sempre foi um exemplo de lisura do ponto de vista da sua relação com importadores e produtores.

Amizade ou propina?

Vamos começar por este trecho: “À semelhança de um príncipe recém-coroado, (importadores ou produtores) ofereciam presentes a Parker – passagens aéreas para as regiões vinícolas, convites para estadias como hóspede em vinícolas e châteaux, convites para almoços e jantares, até valiosas caixas de música e, uma vez, um Porsche. Após uma degustação no Milton Inn, um importador insistiu, ‘Fique uma semana em minha casa de praia em Barbados’, mencionando um outro escritor de vinho seu amigo que, freqüentemente, se aproveitava da oferta”.

Ou que tal este trecho: “Parker interpretou o modo solerte como quando um par de vignerons na França lhe apresentou suas filhas como uma espécie de proposta indecente – sexo em troca de uma boa nota para seus vinhos”. Mas tem este, também “Ele (Parker) tinha declarado, desde o começo, que pagaria sempre todas as suas próprias despesas, de modo que rechaçou essas ofertas, subornos e propostas dúbias”.

Segundo McCoy, “As pessoas do mundo do vinho ficavam espantadas ao ver Parker pagar sua conta num restaurante, embora aceitasse almoços e jantares na residência de amigos. Os châteaux de Premier Crus Classés não se atreviam a lhe mandar uma caixa anual de vinho, como um escritor inglês de vinho disse a Parker que eles sempre faziam isso para ele.”

Comportamentos

McCoy cita, no mesmo livro, um outro exemplo bizarro, desta vez não relacionado com o crítico norte-americano. “Angelo Gaja contou-me, com uma expressão de repulsa, que jornalistas europeus deixavam abertos os porta-malas de seus carros durante visitas a vinícolas, esperando encontrá-los cheios com várias caixas antes de partir.”

Os exemplos acima mostram que o tal do “jabá” não tem nada de novo, muito menos no mundo do vinho. É complicado comparar ganhar uma Porsche (mesmo com tantos recentes casos de crimes no trânsito) com jantares ou viagens “patrocinadas”. Porém, não é fácil também definir qual é o limite entre a delicadeza (de um lado) e a safadeza (de outro).  

Criei e geri uma empresa de mídia financeira por muitos anos e, para evitar qualquer tipo de “mal-entendido”, adotamos uma regra simples. Qualquer bem ou serviço acima de um certo valor (algo como uns R$ 100 atuais) não poderia ser aceito pelo jornalista. Caso o entrevistado insistisse na “doação”, o bem seria revertido para a caridade. Passamos a ter menos convites, mas certamente ganhamos credibilidade. Não inventamos esta regra, ela é prática comum nos códigos de ética de empresas sérias.

O mundo dos influenciadores

Nada impede que as empresas de mídia adotem uma postura similar no mundo atual, apesar da explosão dos conteúdos digitais. Porém, falar em “empresas de mídia” é como citar máquina de escrever, trem a vapor, telefone fixo ou barco a vela. Hoje quem ganha espaço e domina os canais de divulgação são os tais influenciadores.

Eles vão desde gente séria e competente, até picaretas e criminosos, dependendo do seu comportamento ético. Se no passado “eu te mando uma caixa de vinhos para a sua casa para você falar bem dele” parecia quase uma afronta para profissionais sérios, hoje não faltam ofertas como “eu te pago x reais para você divulgar minha marca”. Sempre me divirto com os sinônimos para “divulgar minha marca” que me vêm em mente.

Afinal de contas, do ponto de vista ético existe um dilema. Divulgar algo é trabalho de publicitário, informar, recomendar e opinar de forma isenta e honesta é função de jornalista. Mas hoje não existem mais estas barreiras, o influenciador é uma fusão das duas, e outras tantas outras profissões. Existe alguma saída para este dilema?

Transparência

Quando falamos em empresas de mídia, o jornalista ganha um salário para fazer seu trabalho. Se ele falar bem ou mal de um vinho, por exemplo, isso não deveria refletir no valor do holerite no final do mês. Daí a questão dos “presentinhos” ser tão sensível nesta área. Já no caso do influenciador, falar bem é uma obrigação. Imagine só uma publicidade na TV dizendo “não compre o xampu da nossa marca, pois ele tem um cheiro desagradável e pode levar à queda de cabelos”. Masoquistas não faltam neste mundo, mas acredito que esta campanha, em particular, não teria muito sucesso.

A receita do influenciador depende da sua capacidade de vender. Quanto mais público atinge, mais se torna um poderoso veículo de divulgação de produtos e serviços. Não podemos ser inocentes em achar que a maioria dos influenciadores tenha um objetivo que não seja faturamento em primeiro lugar. Para ganhar mais, precisa falar bem e convencer seus seguidores.

Mas como conciliar isso com uma postura isenta? Talvez a solução passe pela transparência. Ganhou o vinho do importador? Coloque esta informação no post. Rolou viagem e hospedagem VIP? Faça o mesmo. Foi pago para divulgar o produto? Deixe claro que este é um material promocional, o tal do publieditorial.

O influenciado

Porém, a questão central não é o influenciador, é o influenciado. Pense no que acontece com a política: a maioria dos políticos brasileiros não tem capacidade, honestidade ou postura ética para merecer o voto de um eleitor. No fundo, só se elegem porque os eleitores não entendem o real poder que têm em suas mãos. O mesmo acontece na relação influenciador-influenciado.

Use o seu poder e cobre o seu influenciador. Ele está recomendado um vinho, vinícola ou taça porque realmente está fazendo um serviço isento? Ou faz tudo isso porque está recebendo favorzinhos ou mesmo dinheiro para isso? Você tem o direito de saber e ele tem a obrigação de deixar esta informação clara e transparente. Siga quem quiser e seja feliz, só não faça parte da massa de manobra que sustenta vendedores (muito bem pagos, aliás) de ilusões.       

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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