Last Updated on 24 de dezembro de 2021 by Wine Fun
Os vinhos da Ilha da Madeira talvez fiquem entre aqueles mais injustiçados do mundo. Se hoje são relativamente desconhecidos pela maioria e apreciados em boa parte apenas por uma minoria de degustadores fiéis, o seu passado é repleto de glórias. Foram vinhos que já tiveram enorme projeção e que, embora menos populares atualmente, ainda podem mostrar excepcional qualidade.
Embora seja um vinho português, durante seu auge foram os britânicos seus principais consumidores e apreciadores. E isso não ocorreu somente na Inglaterra, mas também em outros territórios do Império Britânico. Reza a lenda que a celebração da Declaração de Independência dos Estados Unidos, ocorrida em 4 de julho de 1776, foi brindada com Vinho Madeira. Ou seja, George Washington e Thomas Jefferson estariam entre os apreciadores deste vinho, assim como muitos reis, imperadores e estadistas.
Cana, trigo e videiras
Esta ilha, que fica próximo da costa do Marrocos e a quase 1.000 quilômetros de distância de Lisboa, foi descoberta pelos portugueses em 1419. Recebeu este nome por conta da densa cobertura vegetal e, com solos férteis, rapidamente foi convertida para a agricultura. Com um clima bastante ameno e bom regime de chuvas, se tornou um importante produtor de gêneros agrícolas
Logo após sua chegada, os portugueses centralizaram as plantações em três culturas: cana-de-açúcar, trigo e uvas. Alguns registros mostram que vinhos já eram exportados cerca de 25 anos após sua descoberta, mas o cultivo principal rapidamente se tornou a cana-de-açúcar. Na época, Portugal controlava o comércio internacional deste produto e passou a dominar também a indústria de equipamentos para engenhos de açúcar.
O Brasil e o vinho da Madeira
O que pouca gente sabe é que o Brasil, indiretamente, teve um papel importante na história dos vinhos da Ilha da Madeira. Se na época de nossa descoberta, a Madeira e outras ilhas oceânicas portugueses eram o maior produtor mundial de açúcar, isso mudou em pouco tempo. Rapidamente o Brasil passou a ganhar destaque, com ciclo da cana-de-açúcar começando em 1516, quando esta cultura foi introduzida na ilha de Itamaracá, litoral de Pernambuco.
A grande disponibilidade de terras e rápida implantação de usinas de açúcar no Brasil colocou as ilhas portuguesas do Atlântico em situação delicada, seja pela relativa escassez de terras, relevos mais acidentados e exaustão de solos. Em poucas palavras, fabricar açúcar no Brasil era muito mais lucrativo, restando aos produtores da Ilha da Madeira a busca de alternativas de cultivo.
Crescimento e apogeu
Foi a partir deste ponto que a viticultura passou a ser a principal atividade da ilha. Se já existiam vinhedos de Malvasia de Candia, outras variedades foram introduzidas na Madeira. Ao longo do século XVII a produção e exportação de Vinho Madeira passou por forte expansão, com as exportações triplicando. A influência britânica no setor cresceu, com o desenvolvimento dos mercados coloniais da América e através de concessões comerciais feitas aos comerciantes britânicos.
Daí em diante, a história dos vinhos da Madeira passou por altos e baixos. Mas uma coisa é certa: as plantações de cana-de-açúcar no Brasil tiveram um papel fundamental. Foi a partir da concorrência do Brasil que a Ilha da Madeira assumiu sua vocação para viticultura e passou a concentrar seus esforços na elaboração deste vinho fortificado. Mesmo que indiretamente, quem aprecia uma boa taça de vinho Madeira tem uma pequena dívida com o Brasil.
Fontes: Vinho Madeira; A História do Vinho, Hugh Johnson
Imagem: Frank Nürnberger via Pixabay