O ano de 2020 está sendo particularmente difícil para as vinícolas da California. Já não bastasse o impacto da COVID-19, incêndios florestais de grandes proporções têm destruído instalações e vinhedos por todo o estado, inclusive nas regiões de Napa e Sonoma. Nestes dois condados, o Glass Fire segue ardendo há mais de dez dias, estando apenas cerca de 60% controlado.
Napa Valley já passou por devastação antes, mas esta temporada de incêndios tem sido a pior de todas, com mais vinícolas perdidas este ano do que em 2017, recorde anterior. E o pior, não é única região afetada.
Fogo nas montanhas de Santa Cruz
Em agosto, um incêndio destruiu também parte da região de Santa Cruz, conhecida pelos vinhedos e vinhos de alta qualidade e sede de algumas das mais icônicas vinícolas dos Estados Unidos, como a Ridge Vineyards. Embora este incêndio tenha sido controlado, o seu impacto ainda assombra os produtores da região.
Santa Cruz é uma das regiões dos Estados Unidos mais reconhecidas pelo cultivo e vinificação de Pinot Noir, uma variedade de casca fina e muitas vezes apontada como muito sensível e difícil para os produtores. Sendo uma das denominações de maior prestígio do país, a pergunta é: as uvas da safra 2020 terão o padrão de qualidade necessário para produzir vinhos de alto padrão?
Contaminação por fumaça
O maior problema é o temor de contaminação por fumaça. Em entrevista ao jornal Good Times, de Santa Cruz, o consultor Prudy Foxx explica que a fumaça à qual os vinhedos foram submetidos pode ter criado um efeito permanente na qualidade dos vinhos. A contaminação por fumaça (que gera um composto chamado guaiacol) pode afetar o vinho, trazendo um sabor de cinzeiro, um defeito significativo.
O impacto da fumaça libera compostos desagradáveis, que podem ter permeado as moléculas da uva. “A contaminação por fumaça é o termo para um composto químico identificável”, disse Foxx. “Sabemos por outros incêndios no passado que isso pode ser um problema.” Em uma região tão bem avaliada pela qualidade de seus vinhos, é muito provável que muitos produtores simplesmente optem por não colocar a reputação de suas vinícolas em jogo e decidam não lançar vinhos da safra 2020.
Problema mais geral
E este impacto não se restringe à Santa Cruz e à Pinot Noir. Em entrevista à Bloomberg, Philippe Melka, consultor de vinificação de mais de trinta vinícolas na Califórnia, reforça a mensagem. Ele estima que 80% dos vinhedos de Napa podem ter sido afetados pela contaminação por fumaça, sobretudo aqueles no norte do vale.
O impacto maior parece ser sobre a variedade Cabernet Sauvignon, justamente uma daquelas de colheita mais tardia e, ao mesmo tempo, mais valorizadas no Napa Valley. Novamente a questão comercial vêm à tona: em uma região de vinhos caros e disputados, os produtores irão tomar o risco de lançar vinhos de alta gama com possibilidade de contaminação? Alguns produtores já afirmaram que não lançarão seu cuvées mais nobres este ano.
No caso de uvas brancas ou de colheita mais precoce, o impacto foi menor. Resta agora saber qual será a condição das uvas que ainda não haviam sido colhidas antes dos incêndios. Um ano no mínimo desafiador e de muitas tristezas.
Fontes: Good Times; Bloomberg