Inferno e mais quatro: conheça as cinco subzonas da Valtellina

Last Updated on 10 de dezembro de 2024 by Wine Fun

Uma das áreas símbolo da viticultura heroica, a Valtellina é uma região fascinante, tanto para quem aprecia belezas naturais como vinhos de alta qualidade. Com uma tradição na vinicultura que remonta à época do Império Romano, esta região situada na Lombardia tem um enorme patrimônio de vinhedos construídos em terraços de pedra. Neles, a Nebbiolo assume uma expressão única, bastante distinta dos vinhos de áreas como Barolo ou Barbaresco.

Apesar de pequena, com uma produção total na faixa de 3,5 milhões de garrafas ao ano, a Valtellina conta com boa diversidade. São três denominações de origem (Valtellina Superiore, Rosso di Valtellina e Sforzato di Valtellina), além de uma indicação geográfica protegida (IGT Alpe Retiche). Destas, a maior e mais importante é a Valtellina Superiore, que concentra cerca de 55% da produção total.

Localização

Esta denominação de origem, porém, também tem importantes diferenças dentro de seu território. Isso resultou na criação de cinco subzonas, que também podem ser incluídas nos rótulos de seus vinhos: Maroggia, Sassella, Grumello, Inferno e Valgella. Cada produtor opta por incluir ou não a menção às subzonas, embora, caso haja um blend de uvas de diferentes sub-regiões, o vinho é engarrafado somente como Valtellina Superiore. Vale a pena conhecer cada uma delas.

Maroggia

Maroggia é a subzona mais a oeste da Valtellina e a mais próxima ao lago de Como, se estendendo da parte mais ocidental de Berbenno, com vinhedos entre 270 e 550 metros de altitude. Apesar de ser a última subzona reconhecida (em 2002) esta região tem uma longa tradição na vinicultura. Benigno De’ Medic, pernoitou em Maroggia em meados do século XV e parece ter apreciado o vinho local, chamando-o de firmum et dulce, ou seja, encorpado e amável. Porém, a região perdeu importância e só recentemente passou a ver sua área de vinhedos crescer.

Atualmente são apenas 25 hectares de vinhedos, espalhados em áreas bastante inclinadas de orientação sul. Entre eles, destaque para Garbisc, Cecca, Al Dosso, Righetta, Piasci, Malenca e Casini. É uma região com alta participação de vinhas velhas (acima de 40 anos), mas também com novas videiras, graças às atividades de recuperação da área abandonada por alguns produtores. Em 2022 respondeu por apenas 0,8% dos engarrafamentos da denominação de origem Valtellina Superiore, de longe a menor entre as cinco subzonas.

As cinco subzonas

Sassella

Em contraste com Maroggia, Sassella é a maior das subzonas em termos de produção, responsável por quase um terço de todos os engarrafamentos da Valtellina Superiore. Com uma área de vinhedos de cerca de 117 hectares (menor que Valgella) é possivelmente a mais conhecida entre as subzonas. Ela se estende desde Castione Andevenno até os arredores de Sondrio, principal centro urbano da Valtellina. Seu nome tem a ver com o santuário da Madonna della Sassella, lembrando que sasso é pedra em italiano, evidenciando seu perfil geológico.

Pode ser segmentada em duas partes, com o vilarejo de Triasso no centro. A zona ocidental coincide com a aldeia de Grigioni até Castione, com área maior de vinhedos e exposição mais acentuada aos ventos dos Alpes, com variação de altitude entre 270 a 600 metros acima do nível do mar. Já a parte mais oriental é a de San Lorenzo, caracterizada por espaços muito limitados, com pequenos vinhedos em terraços com vista para Sondrio.

E uma subzona que dá origem a vinhos mais frescos e elegantes, refletindo tanto seus solos mais pobres como sua posição geográfica. Por conta da presença de um vale longitudinal, recebe maior impacto do clima mais frio dos Alpes, localizados ao norte. Este fenômeno lembra aquele das combes da Borgonha, onde o ar frio refresca os vinhedos e garante um perfil de maturação diferente às uvas.

Grumello

Com cerca de 80 hectares, é uma das subzonas mais visitadas da Valtellina, seja por sua proximidade de Sondrio como por ser sede da Arpepe, uma das mais prestigiadas vinícolas da região. Assim, como Sassella, também recebe a influência de vinhos mais frios, porém somente em sua parte ocidental. Sua principal referência geográfica é o Castello di Grumello, de onde se pode visualizar praticamente todo o vale da Valtellina.

Grumello pode ser dividida em dois setores. Próximo à capital da província, há uma área de vinhedos caracterizada por terraços rochosos e íngremes. Aqui diferentes zonas estão situadas: Ca’ Rossa, Ca’ Bianca e Sant’Antonio. Parte destes vinhedos, assim como também em Sassella, apresenta uma concentração maior de ferro, dando uma coloração mais avermelhada à colina. O segundo setor fica acima do castelo, uma área mais linear, nos quais os vinhedos de Dossi Salati e delle Prudenze estão situados.

Há uma maior variação nas características dos vinhos provenientes de Grumello, seja pela maior diversidade de solos, diferenças de exposição e, também, variação de altitude. Vale lembrar que os vinhedos se situam em uma faixa que vai dos 350 aos 600 metros. Esta subzona respondeu por cerca de 15% dos vinhos engarrafados na Valtellina Superiore em 2022.

Inferno

Pode parecer curioso existir uma subzona chamada Inferno, considerando que a Valtellina fica em uma área montanhosa, praticamente aos pés dos Alpes. Porém, é exatamente por ser uma região com maior exposição solar, menos ventos e mais quente, que ela recebe este nome.  São cerca de 55 hectares plantados, em uma faixa de altitude mais estreita, variando entre 300 e 500 metros.

O coração histórico da subzona está localizado na sua área central, caracterizada por encostas vertiginosas e exposição sul. Curiosamente, na parte mais alta destas colinas há uma área chamada Paradiso, com declives sutis e clima mais frio. Na parte mais próxima a Grumello, na área de Runsc, há a presença de solos mais argilosos, contrastando com os solos dos vinhedos em Calvario, na parte leste da subzona.

Por conta do microclima mais quente e solos mais argiloso, os vinhos elaborados a partir de uvas desta subzona, que fica entre Poggiridenti e Tresivio, costumam ser mais intensos e encorpados. Além disso, trazem maior presença de notas de frutas (sobretudo cereja) mais maduras. Em média, os vinhos de Inferno respondem por 20% dos engarrafamentos da Valtellina Superiore.

Valgella

A mais oriental e diversa de todas as cinco subzonas, Valgella é também a maior em termos de área plantada, com quase 140 hectares de vinhedos. Ela começa logo após Chiuro, com a destaque para a área de Fracia, logo a oeste do vilarejo. São vinhedos situados na confluência de um vale, o que proporciona maior impacto de ventos frios dos Alpes.

Mais a oeste, porém, as condições se alteram e área de vinhedos se desvia levemente para o sul, em um formato que lembra um sorriso. Com uma longa tradição na vinicultura, seus vinhos eram no passado, em grande parte, exportados para a vizinha Suíça. Ela ainda tem presença de produtores originários deste país.

Fontes: Vini di Valtellina; World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Valtellina DOCG and Sforzato, Mario Cagnetta e Wine Scholar Guild, Entrevistas com produtores; Disciplinare di produzione – Valtellina Superiore

Imagem: Vini di Valtellina

Mapas: Vini di Valtellina, Wine Scholar Guild

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