Apesar de alguns contratempos, não posso reclamar da atividade de degustar e escrever sobre vinhos, participando de diversas atividades tanto em São Paulo como em outras regiões, inclusive no exterior. Apesar de constatar a dificuldade que alguns organizadores e assessorias de imprensa têm no sentido de diferenciar quantidade (influenciadores, muitos dos quais com foco em conteúdos superficiais e perecíveis), de qualidade (conteúdos que realmente geram valor para os consumidores), sigo em frente.
Além de analisar os vinhos, automaticamente também acabo quase que inconscientemente avaliando os próprios eventos, embora não escreva publicamente sobre isso. Assim como existem vinhos de diversas gamas, o mesmo ocorre com os eventos onde estes vinhos são apresentados. Pensando nisso, decidi passar algumas “dicas” para os organizadores, que certamente fazem a diferença para quem está trabalhando na cobertura destes eventos. Aliás, caso alguns dos meus colegas nesta atividade queiram adicionar ou sugerir mudanças, será um prazer ouvir sua opinião!
Escolhendo o espaço
Obviamente o local escolhido deve ter fácil acesso e boas condições de iluminação, temperatura e, sobretudo, estar o mais longe possível de potenciais fontes de aromas que possam atrapalhar a avaliação dos vinhos. Restaurantes “hypados” são escolha frequente, mas infelizmente nem sempre atendem a estas condições.
Outro fator importante é a facilidade de acesso à mesa ou estrutura onde estão os vinhos. Alguns eventos são impecavelmente organizados, com poucos vinhos em mesas individualizadas, onde é possível acessar e degustar os vinhos sem atropelos ou concentrações. Já em outros casos, tudo fica aglomerado e é bem complicado degustar os vinhos e trocar/receber informações sobre eles. Isso quando não tem algum convidado usando perfumes que tornam a experiência dos demais bem mais complicada. Resumindo: o local não precisa ser sofisticado ou hypado, mas sim iluminado, limpo, sem aromas e espaçoso, evitando concentrações excessivas.
A presença crescente de influenciadores e de chatos detalhistas como eu pede algo extra. Ter uma mesa, de preferência com boa iluminação, fundo neutro e relativamente distante de onde estão os vinhos sendo degustados, com garrafas de cada um dos vinhos apresentados. Assim, é possível que qualquer um dos convidados possa tirar fotos, gravar vídeos, etc. sem atrapalhar a apresentação e degustação dos vinhos pelos demais.
Material sobre os vinhos
Ter um material descrevendo os vinhos disponíveis é fundamental. Uma ficha (impressa ou digital) resumida de cada vinho, com informações sobre o produtor, práticas de vinhedos e na adega, além de algumas características técnicas, resolve com sobras. Com isso em mãos, é possível buscar algum aprofundamento, sobretudo se o produtor estiver presente.
Ter este material é fundamental para também treinar quem irá fazer o serviço dos vinhos. Tendo presentes o produtor ou profissional com amplo conhecimento, isso conta menos. Mas faz uma diferença enorme quando for alguém com pouca experiência com vinhos. Já perdi a conta de quantas vezes recebi informações imprecisas ou incorretas sobre os vinhos apresentados.
Básicos e extras
É fundamental também a disponibilização de alguns itens que fazem parte de uma degustação profissional de vinhos. O primeiro deles é água abundante, preferivelmente nas opções natural e gelada sem gás, embora haja quem prefira água com gás. Cuspidores também são essenciais, embora me agrade bastante a ideia de ter também copos de materiais recicláveis não transparentes, para uso individual. Taças de vinho de boa qualidade realmente fazem a diferença, mas não é necessário apelar para a ostentação de algumas marcas famosas.
Temperatura é um fator essencial, tanto para os degustadores como para os vinhos. Por exemplo, fui a uma degustação recente na qual a mesa de degustação havia sido montada exatamente abaixo da saída do ar-condicionado central, gerando desconforto aos degustadores. Mas é a temperatura do vinho o que mais interessa. Deve existir uma logística que permita que cada estilo de vinho seja servido na temperatura adequada: nem frio demais, nem quente demais.
Comida? Aí vem uma questão mais complexa. Eu particularmente não necessito mais do que pão francês, torradas e/ou grissini neutros, que ajudam a limpar o palato, juntamente com o consumo de água. Porém há quem aprecie um pouco mais de diversidade (charcutaria e queijos neutros são boas ideias), chegando, na outra ponta, ao pessoal da “boca livre”. Esta turma valoriza a disponibilização de um vasto buffet de opções, inclusive comidas que resultam em belas fotos e enchem o estômago, ainda que possam prejudicar a experiência sensorial da degustação.
Harmonia e tempo
No final das contas, o trabalho acaba ficando muito mais agradável e produtivo em um ambiente harmônico. Degustar e analisar vinhos ao lado de pessoas educadas, com bom conhecimento técnico e simpatia é certamente muito mais prazeroso. Dado que nem sempre é possível atingir este objetivo, a escolha de um local um pouco mais amplo ajuda bastante, permitindo o convívio pacífico entre várias “tribos”.
O tempo de duração deve depender da quantidade de vinhos a serem degustados e quantidade de convidados. Uma das sensações mais frustrantes é não conseguir provar algum vinho interessante por conta de falhas na organização e/ou atitude dos convidados. É perfeitamente possível degustar e analisar um vinho em poucos minutos, mas isso exige muitas das condições listadas acima.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estuda continuamente e segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.
Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal