A COVID-19 mudou o mundo. E pode mudar também a forma no qual as pessoas apreciam vinhos. De fato, um dos sintomas mais frequentes da doença é a redução ou perda da capacidade de distinguir aromas ou sabores. Aliás, este é um sintoma comum no início da doença, sendo até usado como um alerta para uma possível contaminação.
No entanto, existem muitas diferenças nas estatísticas, começando sobre qual a proporção das pessoas infectadas pelo vírus que desenvolvem estes sintomas. Mais do que isso, ainda existem muitas dúvidas sobre como funciona a recuperação, tanto no sentido do tempo necessário, como na definição se há possibilidade de danos permanentes.
Definindo o problema
Em primeiro lugar, vale a pena entender exatamente o que seriam estes sintomas. Na literatura médica, chama a atenção a descrição de dois distúrbios do olfato, a hiposmia e a anosmia. A primeira é uma capacidade reduzida de detectar odores, enquanto a segunda é a total incapacidade de diferenciar odores distintos.
Para exemplificar o segundo caso, a anosmia, uso o exemplo de uma amiga que teve um diagnóstico confirmado de COVID-19. Felizmente ela se recuperou, sem consequências graves para sua saúde geral. Na questão olfativa, porém, ela disse ter sido incapaz de diferenciar o aroma de dois potes distintos, um dos quais continha pimenta do reino e outro canela. Somente pela cor ela conseguiu identificá-los corretamente.
O que ocorre?
A fisiopatologia desses sintomas químico-sensoriais pode envolver diferentes caminhos. Distúrbios olfativos e gustativos são frequentemente associados a infecções do trato respiratório superior. Porém, evidências disponíveis mostram que disfunções de olfato e paladar também ocorrem, sem obstrução nasal ou congestão, no caso de pacientes com COVID‐19.
Disfunções olfativas em pacientes com COVID‐19 são atribuídas a diferentes distúrbios (incluindo síndrome de anosmia pós-viral, síndrome da fissura ou comprometimento do centro de sentido olfativo cerebral), todos com envolvimento direto do vírus. Em outras palavras, o impacto não é por um único canal, mas sim por diversos caminhos ou etapas da nossa percepção sensorial.
Qual a incidência?
Existe uma enorme disparidade nos números referentes aos distúrbios olfativos decorrentes da COVID-19. Um estudo realizado na China, especificamente em Wuhan, reportou que apenas 5,1% dos pacientes internados com COVID-19 reportaram alterações na percepção de aromas. Já na Europa, em uma amostra com pacientes com COVID-19 leve a moderada, 85,6% tiveram uma mudança repentina no olfato, com 79,6% deles apresentando anosmia e 20,4% hiposmia.
E este impacto é muito mais intenso que outras doenças. Nos EUA, um estudo comparando pacientes com sintomas semelhantes à gripe mostrou que 16% mostraram alteração no olfato, que subiu para 68% em pacientes positivos com COVID-19. Outro estudo nos Estados Unidos mostrou um resultado com 73,6% dos pacientes apresentando alterações químico-sensoriais.
Usando a perda de olfato como teste preliminar
Nos primeiros meses da doença, sobretudo naqueles países com baixa disponibilidade de testes, alguns estudos mostraram que a perda da capacidade olfativa poderia ser um importante alerta. Pesquisadores mexicanos indicaram que, baseados em diversos estudos, este distúrbio olfativo parece ser um sintoma comum nos estágios iniciais da doença, perceptíveis mesmo antes de um diagnóstico entre 53,1% e 73% das pessoas avaliadas. Esta perda de olfato foi o primeiro sintoma entre 8,7% e 26,6% dos casos e foi relatado como o único sintoma em 5,1% dos casos.
Porém, o critério obtido por boa parte das pesquisas é de certa forma subjetivo, através de um questionário respondido pelos pacientes. Para tentar trazer uma base mais objetiva, estes pesquisadores sugeriram um teste olfativo rápido, contendo três amostras de aromas completamente distintos: menta, aguarás e amendoins.
Segundo esta metodologia, 19,44% dos pacientes diagnosticados com COVID-19 apresentaram hiposmia ou anosmia, conforme comprovado pelo teste olfativo rápido. Os números mostraram que 8,33% dos pacientes acertaram zero identificações olfativas, 11,11% uma identificação, 29,1% duas identificações e 51,39% três identificações.
E a recuperação?
Assim como não existe consenso quanto à proporção de pessoas contaminadas que apresentam distúrbios olfativos, o mesmo ocorre em relação ao tempo de recuperação. Ou seja, ainda não sabemos quanto tempo é necessário para retomar a normalidade no olfato e paladar. Inicialmente, se acreditou que seria um período curto, entre nove e quatorze dias, indicando uma boa capacidade de regeneração.
Por outro lado, existem aqueles que que afirmam que nem todos voltarão ao seu nível pré-COVID de funcionamento. Uma postagem no blog da Escola de Medicina da Universidade de Harvard é preocupante. De acordo com alguns especialistas, pacientes com perda de olfato pós-virais têm cerca de 60% a 80% de chance de recuperar apenas parte da função de olfato, dentro do período de um ano.
Pesquisas mais amplas e profundas são necessárias, mas o recado é claro: toda a atenção é pouca com esta enfermidade. A ciência evoluiu bastante na percepção sobre a COVID-19 ao longo de 2020, porém ainda não há respostas para muitas perguntas. Deste modo, adotar uma postura cautelosa é a única alternativa recomendada.
Fontes: Smell Disorders, U.S. Department of Health and Human Services; Coping with the loss of smell and taste, Harvard Health Blog; Olfactory and gustatory impairments in COVID‐19 patients: Role in early diagnosis and interferences by concomitant drugs, Sara Ferraro et al; Evaluation of predictive value of olfactory dysfunction, as a screening tool for COVID‐19, Carlos Alfonso Romero‐Gameros, Salomón Waizel‐Haiat; Symptom Duration and Risk Factors for Delayed Return to Usual Health Among Outpatients with COVID-19 in a Multistate Health Care Systems Network — United States, March–June 2020, Tenforde MW, Kim SS, Lindsell CJ, et al
Imagem: United Nations COVID-19 Response