Peso da garrafa: proporcional à qualidade do vinho?

Outro dia me fizeram uma pergunta interessante: é verdade que os melhores vinhos vêm em garrafas mais pesadas? Quem já tomou alguns vinhos mais caros do Novo Mundo, sobretudo do Chile, Argentina e Estados Unidos, sabe do que estou falando. Muitos produtores realmente capricham nas garrafas, quando querem deixar claro quais são seus melhores vinhos.

Mas vamos por partes. A primeira coisa é entender qual a diferença entre as garrafas. Uma garrafa de 750 ml mais básica, tipo aquela que encontramos nos vinhos mais em conta, pesa em torno de 550 gramas, quando vazia. Já as intermediárias, as mais usadas, pesam em torno de 620 a 680 gramas.

O pulo do gato é realmente quando passamos para aquelas super pesadas, usadas por algumas vinícolas como vasilhame para seus vinhos mais caros. E aí, a coisa muda de figura. Tive a curiosidade de pesar a garrafa de um vinho da região do Dão, em Portugal, que degustei recentemente e fiquei espantado com seu peso: 1,23 quilo! Sim, ela pesa mais que o dobro da mais básica.

Falando em custos

Como você pode imaginar, mais peso equivale a maiores custos. Obtive junto a um grande amigo, que é sócio de uma vinícola, uma ideia dos custos. As mais simples custavam em junho de 2020 cerca de R$ 0,90, o que passa para entre R$ 2,00 e R$ 3,00 para as intermediárias e algo entre R$ 8,00 e R$ 10,00 para as mais caras.

E a diferença de custos não para por aí. O frete para um vinho que usa a garrafa mais barata é certamente menor, seu peso total é de 1,3 quilo (garrafa mais vinho). Já para aquele mais caro, o peso total chega perto de 2 quilos, o que implica também em custos de transporte mais altos.

E a qualidade?

Na teoria, se analisarmos a linha de vinhos oferecida por um único produtor, podemos imaginar seus vinhos de maior qualidade em garrafas mais pesadas, e vice-versa. Porém, alguns pontos a ressaltar: nem todos fazem esta diferença de vasilhame; e ser o vinho mais caro não significa necessariamente ser o melhor. Até pela questão de momento de consumo (muitas vezes os melhores vinhos demoram muito tempo para alcançar o seu ápice), com frequência vinhos de preço intermediário (teoricamente em garrafas menos pesadas) entregam mais.

Mas a questão principal vem na comparação de vinhos de diversos produtores. Alguns optam por garrafas pesadas, outros não. É difícil dizer qual vinho é melhor, até porque o que realmente conta é o que está dentro da garrafa, não a garrafa em si. Mas uma coisa é certa, quem usa estas garrafas mais pesadas está gastando mais.

Tradição versus Marketing

Assim, a única certeza é que, se acabar se deparando com uma destas garrafas bem pesadas, isso significa que o vinho custou caro para quem comprou. Não faz sentido algum um produtor usar uma garrafa de R$ 10 para um vinho que pretende vender a R$ 50. Para um vinho de R$ 500, aí a coisa muda de figura, estamos falando de 2% do preço, não 20%.

Por fim, uma dica. Dificilmente produtores mais tradicionais (sobretudo quando falamos de Europa), se importam tanto com as garrafas. A esmagadora maioria dos grandes vinhos da Borgonha, por exemplo, vêm em garrafas de peso médio.

Usar uma garrafa mais pesada, por outro lado, pode ser parte de uma estratégia de marketing mais agressiva, buscando uma posição dentro do seleto grupo de grandes vinhos. Concluindo: o peso da garrafa fala mais da personalidade e estratégia comercial do produtor do que efetivamente do que mais importa, ou seja, o vinho que está dentro dela.

Imagem: Holger Detje, da Pixabay

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