Last Updated on 16 de outubro de 2021 by Wine Fun
Se o mundo tem visto nas últimas décadas o nascimento de novas regiões vitivinícolas, como a Inglaterra e o Nordeste brasileiro, por exemplo, não faltam na história exemplos do inverso. Seja por fatores climáticos ou por outros motivos, algumas regiões simplesmente desapareceram do mundo do vinho.
E um exemplo foi a região vinícola que floresceu onde hoje é o sul de Israel. Pois bem, a partir do ano 300 depois de Cristo uma série de cidades bizantinas nesta região, lideradas por Elusa, passou por um boom de vinicultura. Isso incluia a plantação extensiva de videiras e a exportação de vinhos para diversos mercados na Europa e no Oriente Médio.

O apogeu
Há mais de 1.700 anos, pequenos assentamentos permanentes no Negev tornaram-se cidades em expansão, à medida que os agricultores locais faziam o deserto florescer. Para tal, usaram um complexo sistema de canais, terraços e reservatórios projetado para capturar e armazenar as inundações raras, mas violentas, nesta área árida.
Jarros desta região, que inclui o que hoje é a faixa de Gaza, foram encontrados em escavações na Alemanha, França, Grã-Bretanha e Iêmen. E muitos destes jarros continham a inscrição Vinum Gazentum (vinho de Gaza, em latim), uma bebida branca doce que atrairia grande demanda em todo o Império Bizantino e Europa. Além disso, arqueólogos encontraram uma quantidade significativa de sementes de uva onde ficavam estas cidades em Negev, exatamente no mesmo período.
O fim abrupto
Por muito tempo, historiadores acreditaram que o fim desta região vinícola teria sido ocasionado pelas conquistas dos Otomanos na região, a partir do século VII. Porém, os estudos arqueológicos mostraram que o declínio teria ocorrido antes, na metade do século VI. Foi nesta época que caiu drasticamente a quantidade de sementes encontradas na região e também a de ânforas de Gaza.
As causas para isso parecem ter sido dois eventos totalmente independentes, mas que ocorreram na mesma época. O primeiro foi a Peste de Justiniano, que assolou o Império Bizantino a partir de 541. Esta praga, cujo nome remete ao nome do imperador na época, teria sido a primeira pandemia de peste bubônica na história humana. Teria matado milhões na Europa e Ásia, interrompendo economias e redes comerciais.
Se não bastasse a epidemia, ocorreu também um evento climático. Entre 536 e 545, Europa e Ásia experimentaram a década mais fria em 2.000 anos, que, segundo antigos cronistas, causou quebra nas colheitas, fome e caos econômico geral. Esta “era glacial tardia” provavelmente foi desencadeada por pelo menos duas erupções vulcânicas colossais, que lançaram gases e poeira na atmosfera, causando resfriamento global.
Fonte: The rise and fall of viticulture in the Late Antique Negev Highlands reconstructed from archaeobotanical and ceramic data, Fuks et all
Imagens: Mosaico: The Israel Museum Jerusalem, por Elie Posner. Ânfora de Gaza: Israel Antiquities Authority, por Davida Eisenberg-Degen. Mapa: The rise and fall of viticulture in the Late Antique Negev Highlands reconstructed from archaeobotanical and ceramic data, Fuks et all