Enormes filas, incluindo gente acampada por vários dias em barracas, não são uma exclusividade brasileira. Se você imediatamente associa esta imagem a adolescentes perdendo dias ou semanas na fila para ficar na beira do palco em shows de artistas como Taylor Swift, saiba que esta prática não se resume a isso. Na Noruega, não foram poucos aqueles que desafiaram o gelado inverno local com um outro objetivo: comprar algumas garrafas de vinho.
Uma matéria divertida, publicada na revista britânica Decanter, mostrou como barracas ganharam espaço, mesmo em pleno inverno, do lado de fora da loja principal da varejista Vinmonopolet em Oslo, capital da Noruega. Nelas, um grupo de fãs de vinho da Borgonha enfrentou temperaturas abaixo de zero por muitos dias só para obter algumas preciosidades recém-lançadas.
Vale lembrar que, neste país escandinavo, a distribuição de bebidas alcóolicas, incluindo vinho, é controlada pelo governo. A ação se dá através de um monopólio chamado, de forma pouco criativa, Vinmonopolet. Criado em 1922, este órgão tem um longo histórico de compras junto às principais vinícolas do mundo, o que garante o fornecimento mesmo dos vinhos mais raros e disputados.
Busca por vinhos raros
O sistema de liberação dos vinhos aos clientes é bastante democrático, em linha com as tradições locais: ordem de chegada. Ou seja, quem consegue os primeiros lugares da fila têm chance maior de adquirir vinhos particularmente raros da Borgonha. São os casos daqueles da Domaine de la Romanée-Conti (DRC) e Domaine Armand Rousseau, por exemplo. Por conta disso, em 2024 as três primeiras barracas apareceram no dia de Ano Novo, um mês antes do lançamento anual, em 1º de fevereiro.
Em entrevista à Decanter, Arnt Egil Nordlien, gerente de produto de vinhos finos e leilões da Vinmonopolet, descreveu o processo. “Os primeiros da fila passaram um mês ao ar livre com suas barracas, em um período muito frio, com temperaturas de até 20 graus negativos”. No dia anterior ao lançamento, 56 pessoas passaram a noite em frente à maior loja da varejista, confinou Nordlien. Até o horário de abertura, às 10:00 de 1º de fevereiro, havia cerca de 200 pessoas aguardando na fila da loja de Oslo.
Mas as filas não se restringiram somente à capital da Noruega. “Havia pessoas dormindo do lado de fora de todas as nossas doze lojas, exceto a de Bodø, onde o tempo estava tão frio que a polícia se recusou a deixar alguém ficar do lado de fora”, acrescentou Nordlien. Não foi surpresa, portanto, que todos os principais lançamentos da Borgonha esgotaram logo no primeiro dia.
Faz algum sentido?
Os vinhos de vários dos produtores mais conhecidos da Borgonha figuraram na lista de lançamentos. Entre eles, três garrafas do Romanée-Conti Grand Cru 2020 da DRC. Elas foram oferecidas a um preço de varejo de 80.000 Krone por garrafa, cerca de € 7.100. Este valor pode parecer estratosférico para uma garrafa de vinho, mas uma olhada rápida nos preços dela na internet ajuda a explicar o motivo de tanto esforço.
Em lojas virtuais, o mesmo vinho é oferecido na Europa a € 28.200. Mesmo levando em consideração as comissões pagas aos sites de venda online e os impostos, fica pouca dúvida que, ao menos financeiramente, esta aparente loucura pode valer a pena. Duas lições: toda vez que alguém te taxar de fanático por vinho, mostre este artigo. O limite é bem acima. Por fim, para quem tiver boa resistência ao frio e algumas semanas disponíveis a partir do final de dezembro, está aí uma oportunidade para ganhar “alguns trocados”.
Fontes: Decanter, Wine Decider
Imagem: Gerada via IA com Magic Media