Last Updated on 14 de junho de 2020 by Wine Fun
Após o assassinato de George Floyd por policiais em Minneapolis, no final do mês passado, a luta contra o racismo ganhou novas dimensões, com manifestações em muitos países ressaltando a importância de uma sociedade mais justa, onde todas as pessoas possam ser vistas como iguais e terem o mesmo direito, independente da cor de sua pele.
E este tema acabou também chegando ao mundo do vinho, reacendendo debates antigos sobre o que fazer com vinhos de produtores que já manifestaram posições claramente racistas.
Um caso que voltou com força à discussão em grupos de vinhos na internet foi o do produtor do Friuli, Fulvio Bressan. Uma declaração dele em 2013, dirigida à Cécile Kyenge, na época ministra da integração da Itália, causou revolta.

Honestamente tenho até vergonha de fazer a tradução de algo tão abjeto:
“Ei… Imunda macaca preta… Eu NÃO PAGO impostos para colocar seus amigos GORILAS em um HOTEL… Por favor, leve-os para sua casa onde você pode usar o seu dinheito … Ops! Esse dinheiro nem é seu… porque os italianos dão a você… VOCÊ PRETA SUSTENTADA DE M…”
Na época, quando confrontado pela mídia italiana, deu a seguinte declaração:
Parece que você está colocando palavras na minha boca. Em primeiro lugar, minhas declarações contra a Ministra Kyenge vêm do fato de que não posso tolerar o seguinte: ver meus companheiros italianos desempregados e dormindo em barracos em Reggio Emilia; o fato de que as pessoas se enforcam sozinhas em uma garagem silenciosa, porque elas não podem fazer face às despesas; pais que não têm dinheiro para alimentar seus filhos… Suficiente… Estou cansado de ver um ministro que desperdiça o dinheiro e as taxas pagas pelos italianos e as distribui para quem nunca contribuiu com nada para a nação. Além disso, meu avô materno era um imigrante e ele nunca desafiou as leis ou as pessoas que o receberam. Gostaria também de afirmar claramente: nunca tive qualquer ideia racista ou nazista ou noção tendenciosa contra qualquer outra raça. Especialmente aqueles que vêm para a Itália com um emprego e abrigo e, como eu, podem ser rastreados e controlados pela lei a qualquer momento. Se isso for pedir demais, e se sempre usando trabalhadores registrados e devidamente pagos… Se ser cumpridor da lei é um CRIME, então posso aceitar suas críticas… Caso contrário, não aceito o absurdo daqueles que querem fazer a coisa politicamente correta, dizendo “oh os pobres” mesmo que não façam nada pelo nosso país devastado. Orgulhosamente italiano, ferozmente intransigente, Fulvio L. Bressan.
Não me parece que seja necessário um especialista para notar que a linguagem tenha mudado, mas a mensagem segue basicamente a mesma.
Porém, Bressan não foi o único caso, e novamente voltamos à Itália, desta vez para a Toscana. Mas não estamos falando agora de um produtor “comum”, mas um dos principais ícones da região, a vinícola Montevertine, que elabora, entre outros, o disputadíssimo Pergole Torte. Embora tenha feito seus comentários em sua página privada no Facebook (ao contrário de Bressan, que publicou isso em seu perfil público), Martino Manetti, proprietário da vinícola, deixou clara não somente sua postura racista, como também fez referências ao fascismo e até ao nazismo.
Entre suas declarações:
“Toda a minha solidariedade para o garoto de Brescia que matou o ladrão que invadiu sua casa. Deveria receber uma medalha de por isso”.
“No meu próprio ranking da escória humana que povoa este mundo, os comentaristas da RAI (TV estatal italiana) ocupam um dos primeiros lugares, digamos entre os chineses e os ciganos.”
“Fora idiotas marroquinos de m..!!!” (referindo-se à Rachida, uma competidora marroquina no programa Masterchef).
“No próximo ano vou mudar o nome do meu vinho, ele se chamará Mein Kampf.”
Lamentável, para dizer o mínimo. Diante deste tipo de declaração, muita gente propôs na época boicote total aos vinhos destes dois produtores, o que acabou ocorrendo, porém de forma parcial. Vale destacar que a Itália é um país com repetidos eventos relacionados ao racismo, em diversas áreas, algumas de grande impacto midiático, como o futebol, por exemplo.
Mas certamente não é a única e, possivelmente nem mesmo a principal (diversos países da Europa Oriental, por exemplo, também tem uma grande quantidade de eventos reportados). Racismo é um problema quase que global e deve ser combatido.
A pergunta é: o que fazer? Quais são os limites entre ética e convicções pessoais e os interesses comerciais? O que a sociedade pode fazer para combater este tipo de atitude? Boicotar os produtos destes e outros empresários envolvidos em declarações deste tipo ajudaria a resolver o problema?
Tenho uma opinião muito clara sobre o assunto, mas gostaria de ouvir o que você pensa. Este é um assunto sério, vivemos em mundo onde o politicamente correto pode até as vezes passar do limite, mas onde, por outro lado, a sociedade parece finalmente entender que as pessoas devem ser responsáveis por seus atos e que não há mais espaço para intolerância, racismo e qualquer forma de discriminação. Opine!