Nos últimos dias, tive uma agenda bastante carregada com eventos de vinho, que foram além da mera oportunidade de provar vinhos e conhecer novos produtores e vinícolas. Por conta da diversidade de públicos presentes, me permitiu fazer um tour de 360 graus pelo universo de profissionais que acompanham e participam da divulgação e da escolha de vinhos em São Paulo. Em poucos dias, dividi a mesa com grupos distintos, o que certamente foi uma experiência enriquecedora.
Mas quais são estes grupos? Aquele com quem tenho mais contato é o de jornalistas do vinho. São profissionais que escrevem sobre vinhos, produtores e eventos da área, com graus variados de profundidade, mas geralmente buscam produzir conteúdos mais completos. De alguma forma, há uma interseção com o segundo grupo, o de influenciadores digitais, onde a superficialidade impera (obviamente com exceções), mas que se destacam pela capacidade de comunicação.
O terceiro grupo é formado por sommeliers, profissionais que trabalham na elaboração de cartas e no serviço de vinhos em restaurantes e hotéis. Curiosamente, este grupo pode ser dividido em dois segmentos. De um lado, aqueles profissionais que atuam em casas mais tradicionais (tanto na cozinha quanto nas cartas de vinho); de outro, os mais contemporâneos, com cozinhas e cartas de vinho menos convencionais. Por fim, por que não falar do público consumidor em geral, aquelas pessoas que curtem vinhos e participam de eventos (quase sempre como pagantes) com o objetivo de conhecer mais e ampliar seus conhecimentos.
Jornalistas e influencers
A linha que divide estes dois grupos fica cada dia mais tênue. De um lado, os esforços de alguns influencers para dar mais conteúdo e consistência ao que produzem. De outro lado, os vários jornalistas que sucumbem ao “canto da sereia”, colocando a forma acima do conteúdo. Porém, ainda são grupos distintos – e cada um contribui, da sua forma, para a divulgação do vinho no mercado brasileiro.
Em geral, eventos para jornalistas têm maior formalidade, com apresentações em restaurantes mais caros, comida de alta gama e certa pompa. Neste caso, porém, foi uma estrutura menos formal, em que um importador comemorou seu aniversário de 13 anos no mercado. Ele ofereceu uma boa parte de seu portfólio a um grupo majoritariamente composto por jornalistas, sem renunciar a alguns vinhos de alto valor.
Já o evento para influencers, em formato de brunch, foi mais descolado e leve. Isso embora contasse com a presença do proprietário da vinícola, um produtor de grande escala, que vem fazendo um excelente trabalho para reposicionar seus rótulos. O evento trouxe vinhos mais simples e de maior apelo visual, com longas conversas sobre o design dos rótulos e a coloração do rosé. Longe de ser mentalmente desafiador, o evento mostrou que há espaço também para quem explora o lado visual e ainda aposta no conceito de glamorização do vinho.
Dois universos de sommeliers
O primeiro evento voltado a sommeliers reuniu um grupo relativamente homogêneo. Profissionais de restaurantes mais tradicionais vendem, em sua maioria, vinhos mais convencionais. Neste caso, o representante de uma das mais icônicas vinícolas italianas desfilou parte do portfólio de vinhos, culminando com uma garrafa icônica que a importadora oferece por mais de R$ 5 mil. Um belo evento, em que até as roupas e o estilo dos presentes, grande parte deles muito bem preparados, diga-se de passagem, combinavam com a proposta do vinho.
Já o segundo evento, organizado por uma importadora para mostrar sua linha de vinhos a profissionais de restaurantes “mais descolados”, também cumpriu muito bem seu papel. Em vez dos blazers, camisas, saias e calças sociais, o dress-code incluía desde jeans rasgados até bonés invertidos, sempre passando por uma floresta de tatuagens. De novo, o vinho e o estilo dos sommeliers estavam em harmonia. Feliz em ver que uma boa parte destes jovens profissionais busca suprir a falta de “litragem” e a tolerância a falhas em alguns vinhos, por meio do estudo e da busca por conhecimento, além da disposição para provar o novo e o diferente. Outro evento bem-sucedido.
Por fim, o lançamento de um guia regional de uma renomada revista brasileira, com foco no vinho, juntou um pouco dos públicos anteriores, mas com um “extra”. Consumidores tiveram acesso ao evento (após pagar o ingresso), ampliando ainda mais o escopo. Mesmo com uma pequena “vantagem” aos profissionais (em forma de acesso exclusivo duas horas mais cedo), confesso que este tipo de evento dificulta o trabalho de profissionais que buscam informações mais detalhadas sobre os vinhos. Porém, isso não tira o mérito de provar algumas coisas novas e perceber que o interesse do público, em geral, pelo vinho, segue crescendo.
Multiverso
Estes eventos mostram, ao menos na minha opinião, algo claro: o vinho vem ganhando mais espaço no Brasil. Se por muito tempo a “acusação” foi de que o vinho é elitista, uma nova geração de profissionais usa seus talentos para ampliar o mercado brasileiro. Seja por meio de um post puramente visual ou de uma carta de vinhos alternativos, hoje o vinho se comunica melhor com o público mais jovem.
Em paralelo, mesmo os profissionais “da velha guarda” parecem se render à constatação de que o consumo do vinho está mudando ao redor do mundo. Hoje ,uma parcela crescente dos consumidores busca vinhos mais leves e fáceis de beber, com vinhos brancos e rosés ganhando maior espaço. Não adianta ter na carta, ou escrever, matérias, sobretudo, dos tais “ícones” (embora a tentação de jantares sofisticados ou viagens pagas seja difícil de resistir para muitos); uma enorme parcela dos consumidores não tem condições financeiras de gastar milhares de reais por uma garrafa.
O vinho tem que ser mais democrático e inclusivo, tanto do ponto de vista de quem escolhe as cartas, escreve ou posta sobre os vinhos. Com tanta diversidade hoje no mercado brasileiro, devido à explosão no número de importadores e de vinhos disponíveis, há espaço para os diversos universos do vinho. Cada um com sua própria proposta, explorando seus atributos, mas com a tarefa de popularizar o vinho no multiverso Brasil.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estuda continuamente e segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal