Um verdadeiro terremoto vem sacudindo a mais conhecida de todas as denominações de origem espanholas. A decisão de um grupo de produtores da Rioja Alavesa (uma das três sub-regiões dentro da denominação Rioja) de lançar uma nova denominação de origem, consequentemente ganhando autonomia em relação à denominação Rioja, abriu um autêntico campo de batalha.
De um lado, diversos produtores desta sub-região, que contaram o apoio do governo do País Basco e aprovação por parte das autoridades em Madri. De outro, produtores da Rioja, sobretudo nas duas outras sub-regiões (Rioja Alta e Rioja Oriental) e os governos de outras regiões autônomas espanholas, como La Rioja e Navarra. Vale lembrar que a denominação Rioja inclui vinhedos em três comunidades autônomas (que podem ser comparadas aos estados no Brasil: La Rioja, parte de Navarra e a província de Alava, que faz parte do País Basco.
Arabako Mahastiak ou Viñedos de Alava
Em um movimento que vendo sendo discutido há vários anos, um grupo de mais de 50 vinícolas da Rioja Alavesa decidiu romper com Conselho Regulador da denominação Rioja. O movimento visa criar sua própria denominação, chamada de Arabako Mahastiak (em basco) ou Viñedos de Alava (em castelhano). Para tal, contaram com apoio do parlamento do País Basco e aprovação pelas autoridades em Madri. A requisição agora vai para Bruxelas, para aprovação em escala europeia.
Atualmente, a Rioja Alavesa, com 13.389 hectares de vinhedos, faz parte da denominação Rioja, juntamente com Rioja Alta (27.347 hectares) e Rioja Oriental (24.590 hectares).
Histórico de disputas
A busca de maior autonomia por conta de diversos produtores da Rioja Alavesa já é antiga. Em 2019, em uma decisão muito controvertida, a Asociación de Bodegas de Rioja Alavesa (ABRA) foi renomeada como Asociación de Bodegas de Euskadi (ABE). Euskadi é como os bascos se referem, no idioma local, ao País Basco.
A decisão foi posteriormente revertida, mas o sentimento de mudança continuou. É importante lembrar que a delimitação da sub-região Rioja Alavesa tem equivalência com a divisão política. Ou seja, seus vinhedos ficam dentro da comunidade autônoma do País Basco, enquanto os demais sub-regiões da denominação Rioja dividem seus vinhedos entre La Rioja e Navarra.
Decisão política?
Muitos apontam esta decisão como resultado de um acordo político entre o partido nacionalista basco (PNV) e o governo federal em Madri. O governo do Primeiro-Ministro Pedro Sánchez, do PSOE, depende dos bascos para manter sua maioria parlamentar. Para deputada da comunidade autônoma de La Rioja, Noemí Manzanos, “Viñedos de Alava não é algo que surge de estudos técnicos, econômicos ou porque a sociedade pede e não aborda questões vinícolas”
Segundo ela, seria “uma questão política”, ou “uma moeda de troca” entre a PNV e o PSOE “e é uma das muitas concessões”. O governo basco, assim, segundo a deputada, quer controlar os vinhedos da Rioja Alavesa, mas “sem abrir mão do prestígio e do mercado obtido pela denominação Rioja”.
Ou interesses comerciais?
Se parece existir uma questão política envolvida, certamente também existe uma comercial. A Rioja Alavesa, apesar de corresponder a apenas 20,5% da área total de vinhedos da denominação Rioja, conta com cerca de 44% das áreas de vinhedos classificados como Viñedos Singulares, considerados de maior qualidade. E este é um ponto ressaltado pelos produtores, sobretudo dentro do aumento da preferência dos consumidores por vinhos de regiões mais específicas.
Pela proposta da nova denominação de origem, as duas denominações (a existente Rioja e a nova Viñedos de Alava) poderão existir simultaneamente. Cabe a cada produtor optar por qual delas irá se filiar. Se para este grupo isso parece normal, há opiniões contrárias. A deputada Manzanos discorda, pois ela menciona que “se isso for adiante, seria algo incomum na Europa, já que haverá uma denominação dentro da outra”.
Para os proponentes da nova denominação, porém, o contexto é exatamente o oposto. Eles deixam claro que isso é muito comum: em Bordeaux há 52 denominações de origem, enquanto na Borgonha são 96. Assim, este movimento representaria um passo no sentido de uma maior valorização do terroir, em linha com o que ocorre na França e Alemanha, entre outros.
Fontes: Conselho Regulador da Rioja; Dastatu Rioja Alavesa; The Guardian; El País; El Correo; Diario de Navarra
Imagem: Conselho Regulador da Rioja