Vinho e a sua saúde: mais estudos são necessários para entender esta relação

A relação entre o consumo de bebidas alcóolicas (incluindo o vinho) é motivo de muita controvérsia. De um lado, há quem afirme (inclusive a Organização Mundial da Saúde) que qualquer consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades, é prejudicial à saúde. De outro, diversos estudos científicos evidenciam que o consumo moderado pode, ao contrário, trazer impactos benéficos ao organismo.

Existe, porém, um ponto em comum entre estas duas posições aparentemente conflitantes. O consumo excessivo de álcool traz efeitos negativos para a sua saúde, conforme demonstrado por uma vasta literatura científica. O ponto de discordância, portanto, é sobre o consumo moderado. Para quem defende os potenciais benefícios do consumo em pequenas quantidades, o conceito chave é a chamada curva J.

A curva-J

No ponto de zero consumo, não existe qualquer benefício ou efeito prejudicial. À medida que o consumo aumenta, isso, porém, muda. Em pequenas quantidades existiriam mais benefícios do que efeitos negativos, o que aparece na “barriga” do gráfico acima. Porém, o aumento do consumo além de um certo patamar implica em cenários onde os efeitos negativos superam os positivos. Neste ponto, a curva passa a assumir um formato quase vertical. Daí seu nome de curva J.

A posição da Organização Mundial da Saúde

Em 2018, um estudo foi divulgado na publicação científica Lancet, servindo até hoje como base para as diretivas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Este estudo, resultado das pesquisas do Global Burden of Diseases (GBD) indicou que não qualquer benefício relacionado ao consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades. Para quem não conhece, o GBD é um programa de pesquisa regional e global de doenças, que avalia a mortalidade e a incapacidade causadas pelas principais doenças, lesões e fatores de risco. O GBD inclui em seus quadros mais de 3.600 pesquisadores de 145 países.

Se este estudo parece reafirmar a posição de quem defende o consumo zero, um estudo posterior pode colocar esta posição em disputa. Em 2022, a Lancet publicou um novo estudo, também envolvendo o grupo GBD. Ao comparar um grupo de consumidores de álcool e um grupo de abstêmios, mostrou que em adultos com 40 anos ou mais a relação causa-efeito entre a ingestão moderada de álcool e o risco de doença não é linear. Ela seria, ao contrário, uma curva em J. Os estudiosos do GBD confirmaram, neste caso, os benefícios do consumo moderado de álcool, em relação ao risco de incorrer nas 22 patologias examinadas pela pesquisa. Apesar deste novo estudo, porém, a posição da OMS seguiu inalterada.

Um ponto de vista diferente

Esta aparente ambiguidade abre espaço para múltiplos pontos de vista. Kenneth Mukamal e Eric B. Rimm, dois pesquisadores da Universidade de Harvard, publicaram recentemente um interessante artigo na publicação Harvard Public Health. Já na introdução, deixam claro o seu ponto de vista: “É difícil escapar da mensagem hoje em dia de que cada gole de vinho ou de cerveja é ruim para sua saúde. A verdade, no entanto, é muito mais sutil”.

“Temos pesquisado os efeitos do álcool na saúde por cerca de 60 anos. Nosso trabalho, e o de outros, mostrou que mesmo o consumo modesto de álcool provavelmente aumenta o risco de certas doenças, como câncer de mama e de esôfago. E o consumo excessivo de álcool é inequivocamente prejudicial à saúde. Porém, depois de inúmeros estudos, os dados não justificam declarações abrangentes sobre os efeitos do consumo moderado de álcool na saúde humana”.

“No entanto, continuamos a ver narrativas simplistas, na mídia e até mesmo em revistas científicas, de que o álcool em qualquer quantidade é perigoso. Este ano, por exemplo, a mídia relatou um novo estudo que descobriu que mesmo pequenas quantidades de álcool podem ser prejudiciais. Mas as narrativas não deram contexto suficiente ou sondaram profundamente o suficiente para entender as limitações do estudo. Isso inclui o fato de que ele escolheu subgrupos de um estudo maior usado anteriormente por pesquisadores, incluindo um de nós, que concluiu que o consumo limitado de álcool em um padrão recomendado se correlacionava com menor risco de mortalidade”.

Falta de estudos mais profundos

Os pesquisadores deixam claro que o assunto é muito mais complexo do que parece.  “É importante ter em mente que o álcool afeta muitos sistemas do corpo – não apenas o fígado e o cérebro, como muitas pessoas imaginam. Isso significa que como o álcool afeta a saúde não é uma única questão, mas a soma de muitas perguntas individuais: como isso afeta o coração? O sistema imunológico? O intestino? Os ossos?”

“Um grande desafio neste campo é a falta de estudos mais profundos, de longo prazo e de alta qualidade. O consumo moderado de álcool foi estudado em dezenas de ensaios clínicos randomizados, mas esses estudos nunca acompanharam mais de cerca de 200 pessoas por mais de dois anos. Ensaios experimentais mais longos e maiores têm sido usados para testar dietas completas, como a dieta mediterrânea, e são rotineiramente conduzidos para testar novos produtos farmacêuticos (ou novos usos para medicamentos existentes). Mas nunca foram feitos para analisar o consumo de álcool”.

Kenneth Mukamal e Eric B. Rimm fazem um apelo. “A medicina e a saúde pública se beneficiariam muito se melhores dados estivessem disponíveis para oferecer orientações mais conclusivas sobre o álcool. Mas isso exigiria um grande investimento. Estudos profundos, de longo prazo e alta qualidade são caros”.

Questão de bom senso

Afinal de contas, o consumo em pequenas quantidades faz bem ou mal à saúde? Uma resposta mais definitiva será dada quando estudos mais amplos estiverem disponíveis. Vale sempre lembrar que este não é somente um tema de saúde pública, mas também comercial. Se de um lado indústrias e sindicatos de produtores financiam estudos que indicam os benefícios, organizações antiálcool fazem o mesmo para os estudos que defendem o consumo zero.

Não há dúvida que a ciência segue avançando, buscando trazer respostas para temas pertinentes. No caso do consumo de álcool, porém, o assunto ganha dimensões maiores. Além dos interesses comerciais, existe também uma bagagem histórica. São séculos de tradição, pois o consumo de bebidas alcóolicas fermentadas está ligado ao passado de praticamente todas as civilizações. E não faltam menções aos seus benefícios, desde que o consumo seja moderado. A bola agora está com a ciência, que pode confirmar, ou não, se por séculos os seres humanos apostaram no consumo de uma substância que, pela definição atual, traz apenas danos à sua saúde.      

Fontes: Moderate Wine Consumption & Mediterranean Diet, Is alcohol good or bad for you? Yes, Harvard Public Health

Imagem: Gerada via IA com Magic Media

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *