Apreciar um bom vinho sempre traz uma sensação prazerosa. Ainda mais quando a taça de vinho acompanha uma refeição, abrindo espaço para a harmonização dos aromas e sabores do vinho com aqueles da comida. Porém, beber vinhos após ou juntamente com um alimento traz ainda uma vantagem adicional: pode reduzir a taxa de absorção do álcool presente no vinho pelo seu corpo.
Quem não já não ouviu a expressão “forrar o estômago” antes de beber? Há quem afirme que tomar uma colher de azeite ou um copo de leite pode reduzir o impacto do álcool presente na bebida. Mas será que estas medidas paliativas são suficientes? Para responder esta pergunta, vale a pena entender como o álcool do vinho é absorvido pelo seu organismo.
Absorvendo álcool
Uma vez consumido, o álcool não é absorvido da mesma forma que a comida. Em primeiro lugar, uma pequena quantidade é absorvida diretamente pela língua e pelas mucosas da boca. Uma vez no estômago, parte do álcool chega à sua corrente sanguínea por conta da absorção pelo revestimento do estômago. Posteriormente, a absorção ocorre pelas paredes do intestino delgado.
Porém, estas três etapas mostram uma grande diferença em termos de absorção. Apenas uma parcela pequena é absorvida na boca (uma quantidade quase insignificante), com cerca de 20% da absorção ocorrendo no estômago e o restante no intestino, sobretudo no duodeno. Portanto, saber quanto álcool chega ao duodemo (que responde por quase 80% da absorção) é a chave da questão.
Como a comida afeta o fluxo?
Antes de saber com qual velocidade e intensidade o álcool chega ao seu intestino delgado, vale a pena entender o papel da válvula pilórica. É ela que controla o fluxo entre o que está no estômago e o que passa para o intestino. E uma das variáveis que afeta o funcionamento da válvula é a quantidade e tipo de alimento que está no seu estômago. De forma geral, menos comida e alimentos de digestão mais fácil permitem que a válvula funcione melhor, com o inverso ocorrendo nos casos de muita comida ou alimentos como carnes e outras proteínas. A válvula mais ativa significa que o álcool chegará mais rapidamente ao seu duodeno e, consequentemente, à sua corrente sanguínea.
Com base nisso, já dá para ter uma ideia de como os alimentos podem alterar a absorção de álcool pelo seu organismo. Começando pelo estômago, isso se dá por dois mecanismos. Em primeiro lugar, o alimento pode obstruir fisicamente o contato do álcool com o revestimento estomacal. Além disso, os próprios alimentos podem absorver álcool, ou simplesmente “ocupar espaço” para que o álcool não entre na corrente sanguínea através do contato com a parede do estômago. Isso tudo ajuda a lidar com os 20% que são absorvidos pelo estômago.
Ainda faltam 80% do problema para resolver. Porém, o que há no estômago também pode mudar a quantidade e a velocidade no qual o álcool chega ao duodeno, por conta do funcionamento da válvula pilórica. Vale lembrar que a área superficial do intestino delgado é muito grande, de forma que o álcool acessa de forma muita mais eficiente a corrente sanguínea uma vez que sai do estômago. Assim, se o álcool for mantido por mais tempo no estômago, será absorvido mais lentamente pelo organismo.
Quantidade e tipo de alimento
Deste modo, degustar o seu vinho após ou simultaneamente com a comida pode reduzir a velocidade de absorção do álcool pelo seu organismo. E este efeito vai depender tanto da quantidade como da qualidade do que está no seu estômago. Muita comida no estômago pode criar uma barreira física para acesso às paredes do estômago ou afetar o funcionamento da válvula pilórica.
Mas também o tipo de alimento pode fazer a diferença. Não é à toa que alimentos de digestão mais lenta, como leite ou proteínas aparecem como exemplos para retardar a absorção de álcool. Porém, tomar um copo de leite ou uma colher de azeite está longe de ser suficiente, na verdade não existe o conceito de “forrar o estômago”, no sentido de criar uma película protetora.
Por outro lado, parece não haver dúvidas de que a absorção de álcool é mais lenta nos casos em que haja consumo de alimentos de digestão mais lenta. Portanto, este tipo de alimento tem um impacto muito maior, por exemplo, do que comer pão, que é rapidamente digerido e permite que a válvula pilórica funcione mais rapidamente. Deste modo, o conceito de harmonização de vinho com comida ganha mais uma dimensão, já que você pode também mexer com a velocidade de absorção de álcool pelo seu organismo.
Fontes: Alcohol Metabolism, Bowling Green State University; The Conversation; Absorption of Ethanol Alcohol, WLF
Imagem: Engin Akyurt via Pixabay