Vinho, ignorância e intolerância: o efeito Dunning–Kruger

A intolerância parece estar por todos os lados, inclusive no mundo do vinho. Cada dia mais, nós humanos parecemos menos abertos a discutir vários assuntos de forma civilizada, refutando, de forma até mesmo agressiva, ideias distintas das nossas. Porém, a intolerância geralmente não vem sozinha. Geralmente ela vem acompanhada da ignorância.

Não foram poucos os casos em que vivenciei demonstrações explícitas desta nefasta combinação entre intolerância e ignorância em postagens sobre vinhos. Algumas pessoas parecem simplesmente ignorar que opiniões diferentes podem existir e que sempre existe espaço para aprender mais. E, para entender melhor esta questão, nada como estudar um pouco e conhecer o efeito Dunning–Kruger.

A ignorância da própria ignorância

Talvez a pior forma de ignorância seja aquela das pessoas que acham que sabem muito, mas, no fundo, sabem pouco. E as mídias sociais são um terreno fértil para este perfil. Não faltam comentários e textos estapafúrdios, combinando intolerância e ignorância. Quer um exemplo? “Vinho francês é o único que presta, o resto vem abaixo”. Será que esta pessoa já bebeu todo tipo de vinho para afirmar isso? Quais são as bases para esta afirmação?

Em geral, as pessoas que fazem estes comentários de forma tão confiante estão em uma fase de aprendizado, porém já se acham especialistas. O gráfico abaixo ajuda a explicar como funciona o efeito Dunning–Kruger. É a fase que foi apelidada de “Monte Ignorância”, onde o conhecimento é pouco, mas a confiança está lá em cima.

Nas mídias sociais isso fica amplificado, e a intolerância com opiniões ou mesmo fatos que desafiem este “conhecimento” é evidente. O uso de palavras ou expressões como “você está errado”, “ignorância” ou “não sabe nada” é muito comum. E o pior, feito por pessoas sem o conhecimento necessário para falar isso. É nesta fase que reinam as ideias preconcebidas e as crenças arraigadas.

Diversas fases

O bom é que isso passa. Após esta fase, em geral as pessoas começam a entender que, na verdade, sabem muito pouco. E aí vem a fase seguinte, chamada de “Vale do Desespero”. O conhecimento pode até seguir aumentando, mas a confiança despenca. A pessoa percebe quão limitado é o seu conhecimento e quanta bobagem falou, achando que sabia muito mais do que pensava saber.

Nas mídias sociais, geralmente é o período em que estas pessoas se recolhem, muitas vezes não assumindo os erros, mas ao menos parando de postar bobagens ou grosserias. Para aqueles que passam por isso, a fase seguinte é melhor. É quando conhecimento e confiança andam de mãos dadas, ou seja, as pessoas começam a ter humildade suficiente para perceber que já sabem alguma coisa, mas também que ainda tem muito a aprender.

O efeito Dunning–Kruger no mundo do vinho

Como em qualquer área do conhecimento, no mundo do vinho isso se repete. Não faltam “gurus”, que no pico da “Montanha da Ignorância” se acham capazes de influenciar os outros e desfilar sua ignorância e arrogância. Muitos deles são novos e voluntariosos, outros já mais antigos, frequentadores do que poderíamos chamar “Cordilheira da Ignorância”. O pior disso é que ambos os perfis seguem ensinando errado e perpetuando conceitos incorretos, além de outras bobagens.

E como detectar estas pessoas? Uma regrinha que sempre funciona é confrontar, exigir que a pessoa explique o conceito ou lógica que tanto defende. Muitos dos conceitos superficiais ou preconcebidos não passam por este crivo. Outra sugestão é sempre exigir a fonte da informação. Já cansei de ouvir gente defender uma visão a unhas e dentes, mas, quando perguntada qual era a fonte de “tanto conhecimento”, retrucar com as respostas mais estapafúrdias.

No final das contas, uma boa dose de humildade não faz mal a ninguém. Um dos mais brilhantes pensadores da história, o filósofo grego Sócrates (que morreu tomando veneno como se fosse uma taça de vinho) ficou famoso por seu famoso paradoxo, exemplificado na frase “só sei que nada sei”. Certamente adotar este conceito pode ser um passo fundamental para reduzir a ignorância e a intolerância tão presentes no mundo que vivemos.

Fontes: Kruger, Justin & Dunning, David. Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 2000; Dunning, David. The Dunning–Kruger Effect: On Being Ignorant of One’s Own Ignorance.

Imagem: Gordon Johnson via Pixabay

Gráfico: Marketcalls

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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