A decadência encantadora do vinho e do Palácio do Buçaco

Nem só do líquido que preenche a taça vive o mundo do vinho. Um dos maiores encantos dessa bebida maravilhosa é a sua capacidade de contar histórias de lugares. Foi exatamente essa sensação que me envolveu ao visitar o Palácio do Buçaco e provar o seu emblemático vinho.

O Palácio do Buçaco

Brasil se escreve com “s”, Buçaco com “ç” e “ss”

A história do Palácio do Buçaco, ou Bussaco — ambas as grafias estão corretas — é a própria imagem de Portugal. Outrora imponente, com todo o potencial para ocupar um lugar de destaque, hoje é um lugar que, embora preserve muitos encantos, apresenta-se decadente e sem brilho. Contudo, ainda assim mantém um charme irresistível. Qualquer semelhança com a história de Portugal não é coincidência.

O Palácio é uma grandiosa construção iniciada em 1885 pela família real portuguesa, inspirada no estilo Manuelino, que mescla o gótico com elementos renascentistas. Concluído em 1907, às vésperas da Proclamação da República e do assassinato do seu proprietário, o Rei Carlos I, o palácio nunca chegou a ser desfrutado por quem o idealizou. Poucos meses depois do assasinato do rei, seu filho, o Rei Manuel, estava mais preocupado em salvar sua própria vida.

Hospedaria de luxo com vinho próprio

Com o fim da monarquia portuguesa em 1910, o Palácio mudou de função e passou a servir como hospedaria de luxo. Em 1917, inspirado nos hotéis de luxo franceses, os gestores do Buçaco decidiram criar adegas e, mais ainda, produzir um rótulo exclusivo para venda e serviço no próprio hotel. Assim nasceu o vinho do Buçaco, uma bebida propositalmente mantida “fora dos holofotes”, destinada apenas aos hóspedes do hotel. Naquela época, nenhuma garrafa era vendida fora do restaurante, a menos que fosse para eventos extremamente restritos. Era um vinho para “VIPs” de verdade.

Recentemente, em um movimento inexplicável do ponto de vista comercial, o vinho passou a ser vendido fora do hotel, mas exclusivamente para dois importadores: um em Angola e outro no Brasil, pela Mistral. No hotel, há limite para a venda: safra recente permite a compra de até seis garrafas, enquanto safras mais antigas são vendidas apenas sob consulta.

O Palácio reflete o vinho, que reflete o Palácio

O prédio que hoje abriga o hotel, anteriormente propriedade da família real, é adornado por torres e pórticos que remetem à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa. Internamente, conta com os famosos painéis de azulejos portugueses, afrescos que evocam as epopeias dos descobrimentos e imponentes tapeçarias, num estilo que viria a ser conhecido como neomanuelino.

Visitar o hotel é uma experiência ambígua: por um lado, é impossível não se impressionar com a arquitetura e a decoração; por outro, a necessidade urgente de uma manutenção mais profunda salta aos olhos. O restaurante segue essa mesma linha: possui um teto magnífico, feito de madeiras exóticas oriundas do Brasil e da África, mas oferece uma carta de vinhos austera e pouco criativa. Não compromete, mas tampouco encanta.

Vinhos estruturados e longevos

Os vinhos — sim, há um branco e um tinto — seguem a mesma linha do Palácio. O rótulo, que permanece inalterado desde sua criação em 1917, tem um estilo completamente old fashion. E isso não é problema, visto que muitos grandes vinhos ainda ostentam o mesmo rótulo de décadas atrás. No entanto, mesmo para a época, o rótulo do vinho do Buçaco já devia parecer “um tanto quanto austero”, para não dizer sem graça.

O vinho branco reflete a posição geográfica do hotel, entre a Bairrada e o Dão, com uma mescla de uvas dessas regiões. O estilo de vinificação segue a tradição da Bairrada, com longos períodos de envelhecimento em madeira e alta extração. O tinto combina a uva Baga, típica da Bairrada, com a Touriga Nacional.

Provando os vinhos

Provei o Branco 2015, avaliado por Mark Squires, do Wine Advocate, que recomendou uma janela de consumo entre 2015 e 2040. No hotel, há garrafas de brancos com mais de 70 anos, custando em torno de 3 mil euros, como mostra a foto da lista de preços. Eu, no entanto, optei por um “jovenzinho”.

Preço dos brancos para venda no local –09/2024

O branco de 2015 é composto por 30% de Bical, 30% de Maria Gomes (representando a Bairrada) e 40% de Encruzado (típica do Dão). Envelhecido por 12 meses em barricas de carvalho francês, é um vinho notável pela acidez elevada, potência e perfil aromático discreto. A fruta é austera e concentrada, com aromas que mesclam frutas cítricas e de clima temperado, como pera, além de notas tostadas e herbais, como alecrim. Ainda não há sinais de evolução, e, com 13,5% de álcool, a bebida apresenta grande potencial de guarda, não valendo a pena abri-la agora.

Preço dos tintos para venda no local – 09/2024

Também provei o Tinto 2014, sem coragem de encarar safras mais antigas, como a de 1950, disponível por 3.300 euros. Um blend de 70% Baga e Touriga Nacional, o vinho tinto passou 12 meses em barricas de carvalho francês. Revelou acidez e taninos muito elevados, com aromas de frutas vermelhas silvestres, notas tostadas, grafite e asfalto. É potente, austero, de corpo médio e sabor intenso — assim como o branco, um vinho sério e formal.

Uma bela história e um bom passeio

Voltando à frase inicial dessa coluna, “nem só do líquido que preenche a taça vive o mundo do vinho”. O caso do Palácio do Buçaco ilustra bem essa ideia. Não se trata de um grande vinho, muito menos de um grande hotel. Mas a história que os circunda é tão charmosa, que vale a pena passar uma noite no hotel e provar o seu vinho num jantar pomposo que o ambiente do restaurante e o serviço oferecem.

 Definitivamente não será o melhor jantar e nem o melhor hotel da viagem. Muito menos o melhor vinho. Mas o conjunto é tão charmoso que faz tudo valer a pena. Está aí um bom exemplo de harmonização.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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