A diferença entre uma iniciativa inteligente e uma bobagem comercial. Em meados de abril, um evento reuniu diversos importadores na defesa de uma uva ainda muito pouco valorizada no Brasil. Foi o Riesling Day 2024, idealizado pela proprietária da importadora Weinkeller, Vivien Keller, e colocada em prática por Fernanda Fonseca. No espaço físico da Enocultura, em São Paulo, reuniu 11 importadores, cada um deles com exemplares desta uva espetacular.
Que belo evento! Lado a lado, os importadores apresentaram vinhos de alguns dos produtores que aqui representam, com diversas faixas de preços. Um clima de amizade e cooperação, tudo em nome da defesa de uma variedade que ainda patina, no Brasil, para obter o reconhecimento devido. A Riesling dá origem a alguns dos grandes vinhos brancos do mundo, mas por aqui, porém, muitos importadores ainda sofrem para vender suas alocações.
Vender o conceito de qualidade
São, ao menos, dois problemas da Riesling no Brasil. De um lado, há ainda uma associação (sobretudo entre os mais “veteranos”) com vinhos doces, até por conta da “herança maldita” deixada pelos Liebfraumilch. Estes vinhos alemães, doces, de baixíssima qualidade e vendidos em garrafas azuis, inundaram o Brasil nos anos 1980. Chegaram a responder por cerca de 60% do vinho que era importado no país. Apenas um detalhe: sequer eram elaborados com a Riesling. Porém, por serem alemães e com garrafas no mesmo formato, acabaram “queimando o filme” para a Riesling, ao menos no caso de consumidores menos sofisticados.
O segundo problema é a falta de conhecimento desta variedade entre o público mais jovem, inclusive entre os sommeliers, digamos, “mais acomodados “. Mas isso não é uma surpresa. Parte significativa dos eventos de importadoras e representantes de regiões estrangeiras foca em vinhos baratos e de uvas “internacionais”. O foco acaba ficando em vinhos em Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Malbec e etc., geralmente de países da América do Sul ou Portugal. Nada contra estas uvas, mas sobra menos espaço na agenda para que os próprios profissionais do vinho conheçam mais de perto outras opções.
Portanto, louvável a iniciativa de mostrar as qualidades da Riesling para um público formador de opinião. Certamente muita gente que participou deve ter deixado de lado preconceitos ou “ganhado litragem” para recomendar vinhos elaborados a partir da Riesling. Parabéns às importadoras envolvidas e puxão de orelha nas que não participaram.
E a bobagem comercial?
Promover uma uva faz todo sentido, sobretudo quando há muita gente que não a conhece. E fazer isso de forma inteligente, em eventos como o Riesling Day, traz um imenso valor agregado e ajuda a traçar uma trajetória de maior reconhecimento para vinhos ainda menos valorizados do que merecem por aqui. Que o exemplo se repita e que tenhamos “Chenin Blanc Day”, “Cabernet Franc Day”, “Gamay Day”, “Nerello Mascarello Day”, entre outros.
Mas eu não poderia de deixar o meu lado ranzinza de lado. Em paralelo, que tal parar de “impulsionar” uvas através da prática pouco inteligente de associar um dia do ano a uma uva. Aquela bobagem de “Dia da Pinot Noir”, ou “Dia da Carmenére” não faz qualquer sentido. É uma estratégia comercial barata, que nada ajuda no sentido de realmente divulgar e mostrar o que uma variedade pode trazer de melhor. Ao invés de postar fotinhos da uva e dar desconto para vinhos, geralmente os mais baratos, que tal os importadores, influencers ou comerciantes do vinho seguirem o exemplo acima e fazerem um trabalho de qualidade. Todo mundo que aprecia vinhos agradece
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal