A essência do Velho Mundo em um jantar literário

Os avanços recentes no cultivo da uva e nas técnicas de vinificação tornaram cada vez mais questionável a clássica distinção entre vinhos do Velho e do Novo Mundo. Reduzir essa diferenciação a uma suposta elegância e equilíbrio de um lado, e à expressão intensa da fruta e ao exagero da madeira do outro, é, no mínimo, simplista.

Ainda assim, nesta edição da coluna, o termo “Velho Mundo” será utilizado para se referir a um estilo de consumo de vinho que remete à tradição, ao glamour e a um modo de viver que, à primeira vista, pode parecer um tanto desconectado do ritmo contemporâneo. Mas ele representa, com perfeição, o espírito “raiz” do Velho Mundo: a enogastronomia em alto estilo.

A inspiração para este tema surgiu durante a leitura de Queda de Gigantes, de Ken Follett — o primeiro volume da trilogia O Século. A obra acompanha a trajetória de cinco famílias — americana, alemã, russa, inglesa e gaulesa — cujas vidas se entrelaçam em meio aos períodos turbulentos da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Russa e do movimento sufragista.

Mas, antes que o editor do Winefun pense que enlouqueci e me envie uma mensagem lembrando que o tema aqui é vinho — sob o risco de cancelar a publicação desta coluna e deixar meus sete leitores assíduos na mão —, explico melhor a conexão.

Um jantar de gala para o rei

No núcleo inglês do romance, no início de 1914 o rei George V encomenda a um nobre a organização de um evento em seu castelo. O objetivo é reunir interlocutores privilegiados de diversos países e, assim, obter informações valiosas sobre o complexo cenário internacional, às vésperas da eclosão da 1ª Guerra Mundial. Entre jantares glamorosos, caçadas e concertos, o monarca teria a chance de colher, de maneira informal, percepções diretas da política externa por meio de representantes alemães, americanos, russos e austríacos.

O livro descreve com riqueza de detalhes os preparativos para o banquete — com diversos pratos acompanhados, naturalmente, por grandes vinhos. Um verdadeiro deleite para o leitor, especialmente os enófilos.

Os preparativos para o jantar

O conde Fitzherbert (Fitz) começou reunindo um seleto grupo de vinte convidados para um fim de semana em seu castelo, localizado em uma propriedade rural em Aberowen, no sul do País de Gales. Em seguida, dirigiu-se pessoalmente ao local para coordenar o evento. Escolhido o menu, iniciou-se uma verdadeira operação logística para garantir todos os ingredientes. Itens simples, como uma laranja, tornavam-se raridades durante o inverno em uma região remota como aquela.

Quanto aos vinhos, o desafio não era o acesso a grandes rótulos — e sim a escolha entre eles. Embora não fosse um grande apreciador, o conde herdara uma adega com cerca de 12 mil garrafas. E aqui já se revela um traço marcante do “Velho Mundo”: as adegas são familiares, e o vinho a ser aberto hoje foi comprado pelo pai, ou mesmo pelo avô. Da mesma forma, o vinho adquirido no presente será desfrutado por filhos ou netos. Esse pacto geracional funciona como uma espécie de solera emocional — uma linha contínua, como no Jerez.

O jantar

O cardápio teve início com hors d’oeuvres russes, uma homenagem à origem da esposa do conde, uma princesa russa. A entrada era composta por pequenos blinis com caviar e creme, torradinhas triangulares com peixe defumado, e biscoitos salgados com arenques em conserva — tudo regado a Champagne Perrier-Jouët 1892.

A escolha do rótulo gerou uma discussão entre o conde e seu auxiliar, que também exercia a função de sommelier. Fitz lembrava, com nostalgia, da safra de 1873, que havia provado doze anos antes, em 1902 — segundo ele, o melhor champagne de sua vida. Mas, receoso da evolução do vinho com o tempo, o sommelier sugeriu a safra de 1892. Foi um “tiro certeiro”: suave, maduro e delicioso, como prometido.

Em seguida, foi servida uma sopa — um pot-au-feu — harmonizada com “um ótimo Jerez oloroso de Sanlúcar de Barrameda”, conforme descrito no livro. Talvez um Jerez Amontillado fosse uma escolha mais clássica, mas ainda assim apropriada. Trata-se de um prato tradicional francês, conhecido por sua simplicidade e sabor marcante, que reúne diversos tipos de carne (geralmente bovina, mas podendo incluir outras) com legumes e ervas aromáticas, cozidos lentamente em um caldo que serve como base para a própria preparação.

Na sequência, foi servido linguado, embora o livro não traga maiores detalhes sobre o preparo. A harmonização, no entanto, foi novamente primorosa: um Meursault Charmes “tão maduro que parecia ouro líquido”. A descrição é precisa — um Meursault Charmes com idade mostra mesmo uma cor dourada intensa e textura untuosa. Pena que a safra não tenha sido mencionada.

Chegou, então, a vez dos tintos, servidos ao longo de três pratos principais: medalhões de cordeiro galês, parfait de fígado de ganso e, por fim, codornas com uvas envoltas em massa folhada. O vinho escolhido foi um Château Lafite 1875. A primeira ideia era servir a safra de 1870, mas, após degustá-la, conde e sommelier concluíram que ainda não estava pronta para ser consumida. Ou seja, a 1875 mostrava-se mais evoluída, mais “no ponto”, do que a 1870.

Para minha grande decepção, a sobremesa — composta por um quitute, frutas e petit fours — não foi acompanhada por vinho. Contudo, assim que as damas se retiraram do salão, os lacaios trouxeram caixas de charutos, e um Porto Ferreira 1847 começou a ser decantado. Uma recompensa à altura.

O conceito de “Velho Mundo” vai além do líquido engarrafado

O glamour e a tradição são representados com perfeição na descrição desse jantar. O vinho, aqui, não é apenas uma bebida que acompanha a refeição. Ele é um elemento central, estruturante, de um ritual que pertence a uma classe social e a uma cultura que valoriza o tempo, a memória e o prazer com profundidade. O “Velho Mundo” está nos detalhes — no gesto de servir, na escolha da safra, na espera paciente pela hora certa de abrir uma garrafa. Está no vinho, sim — mas, sobretudo, está em tudo que o cerca.

Em tempos em que o consumo de vinho muitas vezes se resume à rapidez de uma taça no meio da semana, é revigorante lembrar que ele também pode ser parte de algo maior: um ritual de hospitalidade, memória e celebração da vida. O jantar descrito por Ken Follett não é apenas uma cena literária; é um retrato vívido de um tempo em que o vinho ocupava um lugar de honra à mesa — e na cultura.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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