A pera é manca ou cara?

Last Updated on 17 de julho de 2024 by Wine Fun

Pera Manca é um nome no mínimo peculiar. Se é difícil imaginar uma fruta com dificuldades para caminhar, o que dizer do vinho que ganhou manchetes recentemente no Brasil? Consigo entender que um lapso de leitura ou de conhecimento leve alguém a pedir duas garrafas de R$ 1.650 cada em um restaurante de Salvador. Mas dá para entender o vinho custar R$ 1.650?

Falar do preço do vinho no Brasil é um tema recorrente, mas ele faz parte de um contexto mais amplo, e, muitas vezes, nebuloso. Alguém consegue explicar o preço de algo neste país? Por que temos tanta diferença de preço em lojas diversas e em relação ao que custa no exterior? Possivelmente, mais do que em qualquer parte civilizada do mundo, os preços variam demais no Brasil. Não estamos falando somente do vinho, mas também de outros produtos, inclusive a pera.

Não confunda peras com bananas

Se Pera Manca a R$ 1.650 parece pouco razoável, o que dizer da outra pera, aquela não-manca e que consumimos no café-da-manhã ou na sobremesa?  Como produzimos pouco dela no Brasil, boa parte do que chega aqui é importado, geralmente da Argentina. Assim, é sujeita às tais “flutuações do comércio internacional”, incluindo a taxa de câmbio. Esta, aliás certamente anda assustando muita gente, sobretudo por conta das bobagens proferidas por um certo dignatário.

Mas vamos ao que interessa: fui ao supermercado (nada sofisticado, uma rede de nome brasileiro e capital francês) e vi que a pera Willians custa R$ 16,00 o quilo. Esta pera, portanto, não é manca e nem cara, ao menos em termos relativos. Na sua Argentina natal (que assim como Brasil, também vive com recorrentes problemas com dignatários) o quilo custa o equivalente a R$ 28,00. Esta conta é pelo câmbio oficial, que é uma coisa um tanto peculiar, embora não seja manco. O preço dos hermanos, portanto, não é tão diferente da Itália, recentemente visitada por este escriba, onde custa cerca de € 4,50 o quilo (algo como R$ 27).

O Brasil, portanto, é o país das peras não-mancas baratas. Mas não confunda mancas com não-mancas, ou peras com bananas. No caso destas, a carteira é que pode ficar manca. Para minha surpresa, no mesmo supermercado, o quilo da banana era de R$ 14,25, quase o valor da pera. Assim, “preço de banana” não é mais para nós. No supermercado da Itália, esta fruta tão abundante e produzida em países tropicais como o Brasil, custa € 1,95 (R$ 11,50). Vai entender!

E a Pera Manca?

Não é surpresa que a Pera Manca engarrafada e com cerca de 14% de álcool custe mais caro por aqui. Sim, é um produto importado, sujeito ao câmbio, fretes e impostos pouco razoáveis. Se há cerca de 10 anos era um vinho que custava € 30 em seu Portugal de origem, hoje na Europa está na faixa de € 65. Assim, se você for para a terrinha e usar seu cartão de crédito, vai pagar algo na faixa de R$ 390 por garrafa.

Antes de tentar entender o valor no Brasil, um alerta. Pouca gente na Europa paga € 65 por uma garrafa de vinho, ainda mais sendo consumidores jovens, como no caso do restaurante em Salvador. Coisa para milionários ou ricaços, diriam alguns portugueses, só pensando no padrão de consumo de turistas endinheirados provenientes de tantas terras distantes quando visitando Portugal.

Manca e cara

Como explicar R$ 1.650 por aqui? Este vinho chega ao Brasil por uma importadora que não publica o preço em seu site, portanto vamos ter que recorrer ao Uncle Google. Em lojas online brasileiras, garrafas de Pera Manca branco têm preços na faixa de R$ 800, pouco mais que o dobro da Europa. Considerando a insanidade do mercado brasileiro de vinhos, até soa razoável. A maioria das importadoras multiplica os preços por 2,5 ou três vezes.

Para chegar ao preço pago na fatídica noitada em Salvador, a conta é simples. Sem contar o desconto que obteve da importadora, o restaurante decidiu que iria mais que “dobrar a meta”. Colocou um preço lá nas estrelas, apostando que algum endinheirado (ou alguém distraído na hora de ler o menu) fizesse uma bela harmonização com peixes ou frutos de mar. Sim, é um belo vinho. Mas nem se fosse Pera Biônica justificaria o preço.

E assim navega a caravela. Com tantas peras mancas, peras não-mancas e bananas, não há risco de escorbuto, como nas naves que aqui aportavam na época do Descobrimento. Não trocamos mais nossas riquezas por espelhinhos e bugigangas, mas continuamos, sem qualquer sombra de dúvida, sendo os trouxas na hora de pagar a conta.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.

Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *