A pérola da Hungria: conheça a história dos vinhos de Tokaj

Last Updated on 15 de setembro de 2024 by Wine Fun

Origem de um dos mais simbólicos vinhos do mundo, a região húngara de Tokaj, por muito tempo chamada no exterior de Tokay, tem uma longa história. Repleta de altos e baixos ao longo de uma trajetória de mais de 1.000 anos, esta região contribuiu de forma pioneira para a criação de um estilo particular de vinhos: os botritizados. Quem já provou estas verdadeiras preciosidades certamente dá o valor que merecem.

Embora o consumo de vinhos doces siga em declínio ao redor do mundo, isso não significa que Tokaj perdeu seu dinamismo. Além de seus preciosos Tokaji Aszú, a região passou a ganhar destaque nas últimas décadas também pela produção de vinhos não botritizados, muitos dos quais elaborados em estilo oxidativo. Mas não há como negar que são os vinhos botritizados o seu grande diferencial, respeitando uma tradição que por séculos fez parte das mesas das principais famílias reais europeias.   

Os primeiros passos

A área que hoje corresponde ao nordeste da Hungria, na margem direita do Danúbio, fez parte do Império Romano por pouco tempo (entre 106 e 271–275 DC). Deste modo, não há evidência de vinificação nesta área na Antiguidade. Isso viria a mudar, porém, a partir do reinado de Estevão da Hungria, entre 1000 e 1038. Foi quando ordens religiosas, como os beneditinos, ganharam espaço, provavelmente trazendo a vinicultura com eles.

O vinho ganhou um impulso extra com o rei Bela IV, no final do século XIII. Após a quase aniquilação da região pelos tártaros, o soberano teria trazido populações de idiomas latinos, entre eles vinhateiros, para a região. Vilarejos locais como Olaszliszka e Bodrogolaszi atestam isso, já que olasz significa italiano no idioma húngaro. E a viticultura fazia parte da rotina, com a primeira menção a vinhedos em Hegyalja fazendo parte de uma escritura de doação do rei Béla IV, nas proximidades de Olaszliszka.

Reza a lenda que foi nesta época que teria começado o cultivo da uva Furmint, a favorita do soberano. A vinicultura seguiu ganhando espaço, com o primeiro registro escrito de Hétszőlő, o vinhedo mais antigo conhecido em Tokaj, datado de 1502. Porém, um fato novo afetou os rumos da vinicultura da Hungria em 1526. Os otomanos derrotaram os húngaros na batalha de Mohács e iniciaram uma ocupação que durou várias décadas.

Um impulso inesperado

O início do século XVI marcou um ponto de virada para a região vinícola de Tokaj. Pesquisas recentes evidenciam que vinhos com uvas botritizadas já eram produzidos nesta época. Além disso, a ameaça de invasão dos turcos em Szerémség (Sírmia), a região vinícola mais importante da Hungria na época, teve um enorme impacto. Grandes proprietários de terras desta região adquiriram espaços em Tokaj e começaram a plantá-los com videiras, além de realocar pessoas qualificadas e equipamentos.

A primeira descrição detalhada do processo de produção dos vinhos botritizados data de 1631, escrita pelo monge Szepi Laczkó Maté. A partir desta época, Tokaj-Hegyalja ganhou projeção por conta da propriedade modelo da família Ráckóczi. Membros da nobreza, consolidaram vinhedos na área do vilarejo de Tokaj, além de adquirir o castelo local, em 1647. Teria sido nas propriedades da família Rázóczi que os vinhos que usam uvas botritizadas ganharam forma, cerca de 120 anos antes que esta técnica fosse adotada no Rheinhau alemão e 200 anos antes de Sauternes.

Crescimento e reputação internacional

Uma fonte de renda significativa para a família Rázóczi, que inclui vários príncipes da Transilvânia na sua árvore genealógica, veio da venda do vinho Tokaji. Em 1703, Ferenc Rákóczi II, membro desta família, liderou uma revolta contra os austríacos que ocupavam a sua Hungria natal. A renda obtida com seus vinhedos teria sido a principal fonte de receitas para financiar a revolta.

Rákócz contou com apoio do rei francês Louis XIV para combater os austríacos. Além de sua rivalidade com os Habsburgos, o soberano francês teria recebido um presente especial de Rázóczi: uma garrafa de vinho Tokaji, já famoso na Europa Oriental, mas ainda desconhecido na França. Relatos indicam que o próprio Louis XIV teria dito que o Tokaji seria o melhor vinho da Europa. Além de seus sabores intensos e sua surpreendente acidez para um vinho tão doce, acreditava-se também nos seus poderes medicinais. O mundo havia descoberto o impacto que o fungo Botrytis Cinerea tinha sobre as uvas, sobretudo nesta região próxima aos rios Bodrog e Tisza, aos pés das montanhas Zemplén.

Apesar da supressão da revolta, a fama dos vinhos de Tokaj mudou de patamar. Se já eram apreciados pelos soberanos da Rússia, Polônia e Prússia, conquistaram um local de destaque também na Europa Ocidental. Os vinhedos dos Rázóczi passaram a contar com uma classificação que os dividiu em quatro categorias, a partir de 1737, de acordo com a qualidade do vinho produzido. Surgia um sistema de hierarquia de vinhedos que teria inspirado tantos outros, entre eles a pirâmide de qualidade que inclui os Premier Crus e Grand Crus da Borgonha.

Ascensão e queda

Por muito tempo, os vinhos de Tokaj figuravam como os melhores de todo o Império Habsburgo. Porém, após uma verdadeira “era de ouro”, o cenário, assim como em outras regiões vinícolas europeias, mudaria completamente na segunda metade do século XIX. A filoxera destruiu a maioria dos vinhedos de Tokaj e poucas décadas depois, o Tratado de Trianon de 1920 causou novos estragos. O gradual replantio dos vinhedos acabou resultando em um foco maior em uvas mais produtivas, em detrimento da qualidade.

O período no qual a Hungria funcionou como uma espécie de satélite da União Soviética somente deteriorou ainda mais o quadro. A criação da República Popular da Hungria em 1949 trouxe consigo a coletivização das terras e estatização dos meios de produção, com o fim das vinícolas existentes. O controle estatal da propriedade, produção e produtos significava que videiras (ou qualquer outra cultura) podiam ser arrancadas e substituídas por qualquer coisa, a qualquer momento.

Foram anos difíceis. A produção era necessariamente vendida a baixo custo para o Estado, enquanto a distribuição se limitava à União Soviética, países satélites e seus aliados. Para os vinhos Tokaji, até por conta de seu longo e exaustivo processo de produção, isso representou um enorme atraso. Em um modelo onde a quantidade era muito mais valorizada do que a qualidade, não havia espaço para vinhos que figurassem entre os melhores do mundo.

A reconstrução

Porém, a era comunista não foi o “fim da linha” para a região de Tokaj. A queda do regime socialista, com as primeiras eleições livres em 1990, representou a volta do país ao cenário internacional, inclusive no mundo do vinho. Diversas propriedades tradicionais foram privatizadas e muitas novas criadas a partir de áreas anteriormente cultivadas. Foi um verdadeiro choque de gestão, trazendo de volta conceitos de gestão abandonados por quase 50 anos.

Em entrevista para a Wine Enthusiast, Zoltán Kovács, diretor de vinhos da Royal Tokaji Wine Company, falou sobre a transição. “Foi necessário reconstruir ou mudar tudo um pouco”. A partir do ano de fundação da empresa, 1990, a Hungria e a União Europeia começaram a subsidiar a indústria do vinho por meio de doações para desenvolver infraestrutura, vinhedos, educação e marketing. “A região vinícola não era uma terra perdida”, disse Kovács. Até hoje a Royal Tokaji usa alguns clones de uva criados durante a era comunista, adequados para o desenvolvimento da botrytis.

Grandes grupos estrangeiros aportaram recursos e expertise, como a seguradora francesa AXA, que adquiriu a Disznókö em 1993, ou a espanhola Vega Sicilia, que criou a Oremus. Outros exemplos, todos na década de 1990, foram a anglo-dinamarquesa-húngara Royal Tokaji Wine Company, a Királydvar de Anthony Wang e o Châteaux Megyer & Pajzos.

O cenário atual

Até a década de 2000, os vinhos botritizados eram praticamente o único personagem de destaque na vinicultura da região de Tokaj. Hoje, porém, isso mudou. Se de um lado estes vinhos voltaram a uma posição de destaque entre os melhores vinhos doces do mundo, esta região tem muito mais o oferecer. São mais de 5.000 hectares de vinhedos, onde se destacam as uvas autóctones Furmint e Hárslevelű, porém em diversos estilos.

Além das uvas colhidas como Azsú (inteiramente botritizadas), cresceu a proporção de uvas onde a botrytis é parcial ou inexistente. Estas uvas brancas dão origem aos vinhos Szamorodni, que podem ser tanto secos como doces. Uma parte deles, inclusive, tem um processo de vinificação que lembra aquele comum em Jerez ou no Jura, onde barricas têm preenchimento parcial e garantem um perfil oxidativo aos vinhos.

Por conta desta diversidade, que inclui também vinhos elaborados no estilo Late Harvest, Tokaj se tornou uma região vinícola dinâmica nas últimas décadas. São centenas de pequenos produtores dividindo espaço com os grandes nomes da região, garantindo vinhos em diversos estilos e diferentes faixas de preço. É uma área que vale a pena conhecer mais de perto, seja presencialmente ou provando seus inúmeros vinhos.      

Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; Wine Enthusiast; Wines of Hungary; Decanter; A Enciclopédia do Vinho, Hugh Johnson; Enciclopedia of Wine, Larrouse; Atlas Mundial do Vinho, Hugh Johnson, Jancis Robinson

Imagem: Wines of Hungary

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