Last Updated on 16 de dezembro de 2020 by Wine Fun
A Sardenha é a segunda maior ilha do Mediterrâneo, menor apenas do que a Sicília. É muitas vezes definida como um “micro continente”. E motivos para isso não faltam. A ilha é caracterizada por uma topografia diversa. Cerca de 68% do território é coberto por colinas e o restante dividido entre montanhas e área de planície. Abriga uma enorme área não habitada, incluindo florestas, penhascos costeiros e uma grande extensão de praias com areia.
Historicamente, a vida da população local se desenvolveu com mais características interioranas do que costeiras. É curioso, e contra intuitivo por ser uma ilha, mas o povo da Sardenha se parece mais com camponeses do que marinheiros. E apesar de ser uma ilha, vale lembrar que o território é extenso. Isso se reflete nos hábitos e naturalmente gastronomia e vinho, este último o nosso tema de interesse.

Um pouco de história
Em função de sua posição estratégica no lado ocidental do Mediterrâneo, a ilha sempre foi alvo de conquistadores. E os vinhedos sempre povoaram a paisagem da região desde os tempos mais remotos. O primeiro registro de ocupação humana é de aproximadamente 1.800 antes de Cristo, sendo o povo “Nuragic”, do qual os atuais sardos são descendentes, os primeiros ocupantes do território.
E por lá passaram vários povos, começando com os fenícios, que elevaram o patamar da viticultura local. Curiosamente os romanos, que vieram depois, causaram um enorme retrocesso para a vitivinicultura, pois o Império definiu a Sardenha como um fornecedor de cereais, limitando o cultivo de vinhedos.
Vários outros estrangeiros dominaram a ilha até a Sardenha juntar-se ao Reino da Itália em 1861. Dentre eles, do ponto de vista do vinho, vale destacar a influência espanhola, que por lá reinou do século treze até o início do século dezoito. E, portanto, não é à toa que, como veremos adiante, a presença marcante de uvas de origem espanhola, bem como métodos de vinificação muito particulares, como alguns processos do Jerez, utilizados na elaboração dos vinhos locais.
As principais uvas da Sardenha
As chamadas castas internacionais têm baixa presença na ilha. Vale destacar que, como algumas variedades de origem espanhola são cultivadas por lá há séculos, elas passaram por um natural processo de adaptação.
Apesar de serem geneticamente idênticas ao das do país ibérico, são consideradas nativas da Sardenha. Como veremos mais adiante, essas castas de origem espanholas são, inclusive, conhecidas por outros nomes.
Uvas Tintas
Cerca de 60% dos vinhedos da ilha são dedicados às uvas tintas. Dentre elas, há três que podem ser consideradas the big dogs, tanto em tamanho da área plantada, como em qualidade:
Cannonau
Sozinha representa 29% de todos vinhedos da Sardenha. É a estrela das tintas. Trata-se da velha e boa Garnacha da Espanha, ou Grenache na França.
Monica
É uma variedade muito antiga e de origem desconhecida. Uma das hipóteses (sem confirmação em fatos) é que ela foi levada pelos espanhóis, a partir de uma variedade extinta após o replantio em função da filoxera na Península Ibérica
Carignano
É idêntica à Mazuelo da Espanha, também conhecida como Carignan na França.
Uvas brancas
Já entre as brancas, também há três variedades de destaque:
Vermentino
Produz desde os vinhos mais simples, até os de grande expressão.
Vernaccia di Oristano
De origem sarda, essa uva produz um vinho usando algumas técnicas da vinificação do Jerez.
Malvasia di Sardegna
Geneticamente idêntica à Malvasia di Lipari, cultivada na Sicília e a Grego Bianco, da Calábria.
Os principais vinhos da Sardenha
Tomando por base o ano de 2016 (na Itália é sempre bom estarmos alertas a isso, mudanças acontecem quanto menos se espera) a ilha contava com uma DOCG e 17 DOC. Os vinhos com apelação (DOCG ou DOC) representam metade do volume e será sobre esses que iremos nos concentrar.
E dessas 18 apelações, há algumas que merecem destaque:
Vermentino di Gallura DOCG
Tem a honra de ser a única DOCG, classificação que teoricamente ocupa o topo da pirâmide de qualidade. E, nesse caso, faz sentido. Gallura é uma subzona localizada no nordeste da ilha, na província de Sassari. O subsolo é composto por granito cinza e rosa. Já o solo é arenoso, pobre e ácido.
Granito é o solo onde a Vermentino se expressa melhor. Os vinhos mais distintos dessa apelação são produzidos no estilo seco e rotulados como Superiore. Caracterizam-se pela mineralidade marcante, fruta intensa e aromas florais. Em boca são ricos, untuosos, encorpados, com elevado teor alcoólico devidamente equilibrado por uma acidez vibrante. É também produzido em outros estilos, como o passito, vendemmia tardiva, frizzante e spumante.
Vernaccia di Oristano DOC
Apesar de ser produzido em pequena quantidade, esse vinho tem uma longa tradição e faz parte do orgulho local. A DOC existe desde 1971. Os vinhos são feitos exclusivamente com a variedade Vernaccia di Oristano. Depois de fermentado, o vinho é envelhecido num processo similar ao do Jerez, o sistema de solera. A diferença é que não é fortificado.
Assim como em Jerez, as barricas são preenchidas com cerca de 80% da capacidade. Com isso forma-se um filme de levedura também conhecida como flor. Assim, o vinho ganha os aromas característicos do Jerez envelhecido no método biológico (Fino e Manzanilla). Há também uma versão Riserva e Superiore e, naturalmente, isso quer dizer maior qualidade.

Malvasia di Bosa DOC
Apesar de pouco conhecida, principalmente em função do baixo volume produzido, esse vinho é considerado uma preciosidade. Na ilha, assim como em algumas regiões da Itália, é reservado para ocasiões especiais, como símbolo de hospitalidade e amizade. A casta Malvasia di Sardegna deve ser usada em pelo menos 95% do blend. O estilo Riserva é o mais prestigiado, especialmente o produzido pelo icônico produtor Colombu (foto abaixo).
Apesar de não ser exigido pelo disciplinare, o vinho é envelhecido sob uma camada de levedura, ao estilo de Jerez e Vernaccia di Oristano. Esse vinho chega a alcançar 16-17% (sem ser fortificado), gerando um vinho com leve oxidação, de cor amarelo ouro, com aromas intensos de fruta seca, mel, especiarias e amêndoas tostadas. Produz também frizzante e passito.

Monica di Sardegna DOC
Essa apelação permite a produção de vinhos com uvas oriundas de toda a ilha e não apenas de uma região específica. A variedade Monica deve representar pelo menos 85% do vinho, porém os melhores usam 100%. O vinho costuma apresentar aromas de frutas negras silvestres, garrigue (vegetação típica do mediterrâneo) e especiarias.
Costuma ser um vinho encorpado e redondo, com uma ótima acidez, álcool de médio para alto e bom corpo, com carga tânica moderada. Possui também uma versão Superiore, que produz vinhos de mais alta gama.
Carignano del Sulcis DOC
Considerados os tintos de maior qualidade e renomados da região. Há quem defenda que a casta Carignano (ou Mazuelo ou Carignan) apresenta sua melhor expressão nessa apelação. Lá encontra as condições ideais de amadurecimento.
Vinhas velhas, combinadas com o solo arenoso e pobre, cultivadas com baixo rendimento caracterizam a produção local. Pela regulação, os vinhos devem ser feitos com pelo menos 85% de Carignano, mas os melhores usam 100%.
Cannonau di Sardegna DOC
Maior apelação de tintos da ilha. Produz vinhos de diferentes padrões de qualidade. Os melhores são oriundos da área designada como Classico. Além de maiores exigências no cultivo da uva e tempo de envelhecimento, requer um mínimo de 90% de Cannonau no blend.
Vermentino di Sardegna DOC
Não poderíamos deixar de mencionar essa apelação, que apesar de não ser a maior em termos de volume, é a mais exportada e conhecida mundo a fora. Produz vinhos mais simples e acessíveis. Os melhores mostram aromas florais, frutas tropicais, toques amendoados e notas minerais.
A Sardenha é uma boa forma de fugir do lugar comum. Apesar da relativa baixa presença de rótulos disponíveis no Brasil, suas principais apelações estão a disposição dos enófilos mais curiosos e que buscam novidades.
Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal