Garnacha Tinta ou Grenache? Sendo a mesma variedade, é apenas uma questão de semântica. Porém, aqui iremos respeitar sua provável origem e usar o nome espanhol para se referir a ela. Independentemente do nome, é uma uva importante, pois além de ser a base de alguns vinhos muito apreciados, como os Châteauneuf-du-Pape e vários tops do Priorato, tem um volume de produção e presença significativos.
No final do século XX ela chegou a atingir o posto de variedade mais plantada no mundo. Para tal, contribuia o espaço significativo que ela ocupava nos vinhedos franceses e espanhóis. Perdeu posições desde então, tanto pelo crescimento do cultivo de outras variedades, mas também pela substituição de vinhedos (sobretudo na França). Apesar disso, ainda é uma das uvas mais plantadas no mundo. Em 2015, segundo dados da OIV, Organização Mundial da Vinha e do Vinho, ocupava a quinta posição dentre as uvas tintas usadas para vinificação.
Origem e história
Há uma certa controvérsia sobre sua origem, embora estudos indiquem que quase certamente ela seja autóctone na Espanha. Muitas fontes indicam que a origem da Garnacha seria na região de Alicante. De lá teria se espalhado pela Espanha e levada para França e Itália, e, daí, para o resto do mundo.
Assim como a Carignan, também sofreu por seu plantio excessivo por razões estritamente comerciais. Isso criou a injusta e desagradável percepção de uma uva inferior, mais compatível com vinhos com foco maior em quantidade do que em qualidade. Em paparelo, a Garnacha tem também um longo histórico de uso também como uva de corte ou como base de vinhos rosé.
Corte ou varietal?
Em boa parte da Espanha, à exceção da Catalunha, acaba sendo usada como complemento para a Tempranillo, trazendo algumas características aromáticas e frescor. Já em Navarra, seu principal uso é na elaboração de vinhos rosés. O mesmo ocorre em partes da França, sendo a Garnacha a base dos rosés da Provence, por exemplo, ou de vinhos encorpados de sobremesa. como em Banyuls ou Coullioure.
Porém, nas localidades onde seu plantio conta com restrição de rendimentos e ocupando terroirs mais adaptados, como os mencionados anteriormente, acaba se mostrando uma uva de qualidade, não somente de quantidade. E é esta a identidade que diversos produtores e enólogos tem buscado imprimir a esta variedade.
Características
É uma uva que amadurece relativamente cedo e com cultivo bem sucedido em regiões quentes. Tem boa adaptação a diferentes regimes pluviométricos e solos (embora prefira os pedregosos) e se mostra bastante resistente a algumas das pragas e doenças importantes do vinhedo, como acariose e oídio. Tem cachos médios e grãos redondos, de tamanho médio e com coloração escura.
Esta variedade produz vinhos sem tanta cor, trazendo no olfativo uma gama limitada de aromas. Entre eles, destaque para as notas de frutas vermelhas (framboesas e morango), terra queimada e especiarias. Na boca, tende a contribuir com riqueza alcoólica, boa acidez e mostra corpo médio e taninos mais discretos, o que a faz uma uva muita sujeita à oxidação.
Como mencionado anteriormente, é uma variedade bastante eclétil dentro de um blend. Isso não significa, porém, que não possa ser apreciada como varietal. Ela mostra uma boa versatilidade, seja em vinhos mais simples para consumo rápido ou naqueles mais potentes e de maior durabilidade, como no Priorato.
Área plantada e nomes alternativos
Segundo dados da OIV, em 2015 eram 160.845 hectares de Garnacha Tinta plantados ao redor do mundo, concentrados principalmente na França (81.059 hectares, ou 50% do total) e na Espanha (62.069 hectares, 39%). Outros países de destaque eram Itália (sobretudo na Sardenha, onde é chamada de Cannonau), nos Estados Unidos, Argélia e Austrália.
É mais uma destas uvas com muitos nomes. De acordo com a Universidade da California – Davis, são: Abundante, Abundante de Reguengos, Aleante, Aleante di Rivalto, Aleante Poggiarelli, Alekantina, Alicant blau, Alicante, Alicante de Pays, Alicante di Spagna, Alicante Grenache, Alicante noir, Alicante Roussilon, Alicantina, Aragonais, Aragones, Bernacha negra, Bois Jaune, Cannoao, Cannonaddu, Cannonadu Nieddu, Cannonau, Cannonatu, Cannonau Selvaggio, Cannonao, Canonazo, Cannono, Carignane Rosso, Carignan rouge, Carignane rousse, Elegante, Francese, Garnaccho negro, Garnacha, Garnacha Comun, Garnacha del País, Garnacha negra, Garnacha País, Garnacha roja, Garnacho, Garnatxa negra, Garnatxa ni, Garnatxa País, Garnatxa tinta, Girondet, Gironet, Granaccia, Granacha, Granaxa, Granaxo, Grenache a Fleurs Femelles, Grenache Crni, Grenache de Alicante, Grenache de Kaspero, Grenache noir, Grenache rouge, Iladoner, Kek Grenache, Lladoner, Lladoner Aragonase, Lladoner negro, Mencida, Navaro, Navarra, Navarre de la Dordogne, Navarret de la Dordogne, Navarro, Negra, Negru Calvese, Nessuno, Nieddu, Ranconnat, Red Grenache, Redondal, Retagliadu, Rivesaltes, Rivos Altos, Rool Grenache, Rousillon, Rousillon tinto, Roussillon, Rouvaillard, Sans Pareil, Santa Maria de Alcantara, Tentillo, Tinta, Tinta Aragoneza, Tintella, Tintilla, Tinto, Tinto Aragon, Tinto Aragones, Tinto Menudo, Tinto Navalcarnero, Tintore di Spagna, Tintoria, Tocai Rosso, Toledana, Uva di Spagna, Vernaccia di Serrapetrona e Vernaccia nera.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Conselho Regulador da Rioja; foodsandwinesfromspain.com; Conselho Regulador da DO Navarra; Jancis Robinson; Grenache, the grape you know, you just don’t know, The Wine Society