A silenciosa revolução na Rioja

Vinhos tintos em três versões, determinadas em termos do tempo de envelhecimento em carvalho (Crianza, Reserva e Gran Reserva), tendo a Tempranillo como a uva dominante. Em poucas palavras, é assim que a maioria dos apreciadores de vinhos conhece a Rioja. Uma das duas únicas Denominaciones de Origen Calificadas – DOCa (a mais alta na hierarquia da Espanha), é certamente a região vinícola mais conhecida do país ibérico.

Com uma área de cerca de 65 mil hectares de vinhedos, a Rioja produz, em média, 420 milhões de garrafas de vinho ao ano. Para ter uma ideia da dimensão, caso fosse um país independente, a Rioja seria o décimo segundo maior produtor do mundo, acima de países como Nova Zelândia, Áustria ou Hungria. Ou seja, é uma área que consegue aliar qualidade com quantidade. E, com este quadro, será que vale a pena mudar?

Necessidade de novos rumos

Se a Rioja representa uma história de sucesso, dois fenômenos ligaram a luz amarela para esta tradicional região espanhola. Em primeiro lugar, houve uma enorme expansão na produção, que em 40 anos, cresceu mais de 60%. E boa parte deste crescimento se deu em detrimento da qualidade, com uma verdadeira explosão de vinhos de qualidade no mínimo duvidosa.

Outra mudança significativa foi no paladar dos consumidores. Hoje os bebedores de vinho cada dia mais demandam vinhos brancos, rosados e espumantes, buscando vinhos mais leves e frescos. Embora não faltem vinhos de alta gama na Rioja, em geral são vinhos tintos, com presença marcante de madeira e mais estrutura, com excelente capacidade de evolução.

A combinação destes dois fatores levou a um quadro preocupante. Produção em excesso, estoques crescentes, menor rentabilidade e queda nos preços de vinhedos. Além disso, grande parte das vendas de vinhos da Rioja se concentra em produtores de grande porte, não exatamente um exemplo de flexibilidade e agilidade.

A revolução silenciosa

Se a questão de excesso de produção parece difícil de resolver, não há dúvidas que existe uma verdadeira revolução no que diz respeito à adequação dos vinhos da Rioja às preferências dos consumidores atuais. Do lado dos produtores tradicionais, existe uma clara preocupação com a elaboração de vinhos mais frescos e menos extraídos, com uso muito mais contido de barricas novas. Cresce também a produção de vinhos brancos e rosados, além da busca de novas expressões, sobretudo na forma de vinhos os quais a Tempranillo desempenha um papel de menor destaque.

Porém, a maior novidade fica nos rumos tomados pela nova geração de produtores da Rioja. O foco principal fica em vinhos onde frescor e leveza ganham protagonismo. Boa parte destes vinhos foge da tradicional classificação da Rioja, ou seja, não se fala mais de Crianza, Reserva ou Gran Reserva. Vinhos de alta gama são rotulados como Cosecha, algo inconcebível no passado.

Estes produtores mostram uma maior preocupação com a sustentabilidade dos vinhedos e uma postura muito menos intervencionista na vinificação. Seus vinhos são também mais criativos. Em paralelo com os tradicionais cortes tendo a Tempranillo como variedade dominante, cresce a participação de vinhos tintos elaborados a partir de uvas como Garnacha, Graciano, Mazuelo e Maturana Tinta. Isso sem falar de brancos usando não somente a Viura, mas também Garnacha Blanca e Maturana Blanca.

Alguns produtores para ficar de olho

Não faltam produtores desta nova geração da Rioja para ficar de olho, alguns deles já com seus vinhos no Brasil. Entre estes, vale a pena destacar Miguel Merino e Vinos en Voz Baja, que são importados, respectivamente, por Tanyno e Wines4U. Porém, ainda não chegam ao Brasil os vinhos de produtores como Arizcuren, José Gil, Sierra de Toloño, Abeica, Tihom, Finca Allende, Bhilar e dos garagistas do grupo Menudas Bodegas.  Quem se habilita?

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estuda continuamente e segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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