Praticamente todos os livros de história insistem na tese de que a América foi “descoberta” por Cristóvão Colombo, que desembarcou em 12 de outubro de 1492, onde hoje ficam as Bahamas. Porém, evidências históricas já vinham deixando claro que os primeiros europeus a pôr os pés nas Américas teriam sido os vikings.
Agora parecem existir evidências muito mais sólidas que confirmam a chegada de europeus. Um estudo publicado na revista científica Nature apresenta as evidências definitivas que confirmariam a presença de europeus nas Américas já a partir do ano 1021. Isso significa que os nórdicos teriam chegado às Américas, chamadas por eles de Vinland (Terra das Videiras), quase 500 anos antes do desembarque do navegador genovês.
Europeus na América do Norte
As evidências históricas indicam que o primeiro europeu a chegar à América teria sido Leif Eriksson, em torno do ano 1000. Eriksson, que teria partido e retornado à Groenlândia, não foi o único viking nas Américas. Cerca de sete anos após sua expedição pioneira, um comerciante e aventureiro chamado Thorfinn Karlsefn foi além. Ele partiu da costa oeste da Groenlândia, com três navios e um grupo de vikings para explorar a terra recém-descoberta, que prometia riquezas fabulosas.
Seguindo a rota de Leif Eriksson, Thorfinn navegou ao longo da costa da Groenlândia, atravessou o Estreito de Davis e virou para o sul, após a Ilha Baffin, rumo a Terra Nova e, possivelmente, além. E teria deixado uma marca importante: Snorri, filho de Thorfinn e de sua esposa, Gudrid, é considerado o primeiro bebê europeu nascido na América do Norte.
Sagas e evidências
Os detalhes das viagens nórdicas para Vinland vêm de dois relatos: A Saga de Erik, o Vermelho, e A Saga dos Groenlandeses. Esses contos vikings épicos foram escritos por volta dos anos 1200 ou 1300 d.C, por escribas que relataram as histórias orais de anciãos ou trabalharam a partir de alguma fonte escrita, agora perdida.
Mais do que isso, evidências arqueológicas encontradas na ilha de Terra Nova (que hoje fica na província canadense de Newfoundland and Labrador) provam a presença de vikings nas Américas. O assentamento nórdico em L’Anse aux Meadows foi datado entre 990 e 1.050 d.C., e foi habitado possivelmente por cerca de 30 anos, com capacidade para 30 a 160 pessoas.
Além deste assentamento, arqueólogos e historiadores acreditam que os vikings teriam ido mais ao sul, possivelmente até onde hoje fica a costa do nordeste dos Estados Unidos. E, nestas terras mais ao sul, teriam encontrado videiras em abundância. Daí o nome dado a esta terra, que prometia muita abundância, aos vikings acostumados aos terrenos inóspitos da Islândia e da Groenlândia.
A terra das videiras
A palavra usada para descrever os assentamentos nas duas sagas claramente se relaciona com uvas. Elas seriam abundantes em regiões ao sul, mas não em L’Anse aux Meadows. Isso indica que os vikings teriam mais ao sul, até porque neste assentamento foram encontradas cascas de nozes, possivelmente originárias de regiões mais meridionais.
Deste modo, os vikings teriam tido contato com as videiras e as uvas mencionadas nas sagas. Estudos arqueológicos sugerem que o local de L’Anse aux Meadows não era Vinland em si. Estaria dentro de uma área maior chamada Vinland, que se estendia ao sul de L’Anse aux Meadows até o rio St. Lawrence e New Brunswick.
E esta teoria é corroborada por relatos do cronista alemão Adam de Bremen, que viveu no século XI. Adam mencionou Vinland ao relatar sobre o rei Sweyn II Estridsen da Dinamarca e suas referências à Islândia, à Groenlândia e a outras terras do Atlântico Norte conhecidas pelos escandinavos. Adam diz sobre o rei Sweyn: “Ele falou também de mais uma ilha dos muitos encontrados naquele oceano. Chama-se Vinland porque videiras silvestres produzem excelentes vinhos lá.”
Qual uva?
Embora não haja evidência científica comprovada, especula-se que a uva mencionada pelos cronistas da época seja a Vitis riparia. Esta videira nativa da América do Norte é muito comum na beira de rios (daí o seu nome) e apresenta grande resistência a climas frios e a pragas. Mesmo hoje, ainda é amplamente distribuída na América do Norte, inclusive na costa leste do Canadá.
A Vitis riparia tem a maior gama geográfica de qualquer uma dentre as espécies vitis norte-americanas. Atualmente seu uso mais significativo seja servir de porta-enxerto para a Vitis vinifera, já que é resistente à filoxera, mas também, é usada para elaboração de geleias, sucos e mesmo vinhos mais simples.
Por que os vikings abandonaram Vinland?
Você deve estar se perguntando por que os vikings teriam abandonado terras tão prósperas e férteis, com abundância de videiras e de madeira. As primeiras teorias davam conta de que não havia uma população suficiente para colonizar a região (estima-se que a população total da Groenlândia na época fosse de apenas 2.500 pessoas).
Outra teoria explica o abandono pela reação agressiva da população local, que teria expulsado os vikings, que estariam em menor número. No entanto, uma nova teoria surgiu, levando em consideração evidências científicas. Os vikings teriam abandonado Vinland por conta de uma rápida alteração nas condições climáticas
Mudanças climáticas
Estudos recentes sugerem que o Atlântico Norte, de repente, teria ficado muito frio, até mesmo para os vikings. As grandes viagens de Leif e Thorfinn ocorreram na primeira metade do século XI, durante um período climático no Atlântico Norte chamado de “Aquecimento Medieval”, uma época de verões longos e quentes, com pouca presença de gelo no mar.
A partir do século XII, no entanto, o clima começou a se deteriorar, iniciando um período conhecido como “Pequena Era Glacial”. Tom McGovern, arqueólogo do Hunter College em Nova York, passou mais de 20 anos reconstruindo os passos de um assentamento nórdico na Groenlândia. Em meados do século XIV, a colônia sofreu oito invernos rigorosos seguidos, culminando, em 1355, no que pode ter sido o pior em um século. Com mais gelo, a navegação para Vinland também seria prejudicada.
Deste modo, não faltam teorias para explicar por que os vikings teriam deixado Vinland para trás. Mas uma coisa é certa: eles tiveram contato com videiras (o vinho era um produto escasso e disputado no norte da Europa na época) e somente motivos muito críticos teriam feito com que esta fonte de prazer fosse abandonada.
Fontes: Evidence for European presence in the Americas in AD 1021; A História do Vinho, Hugh Johnson; Brittanica; Smithsonian Magazine