Last Updated on 23 de novembro de 2020 by Wine Fun
Você sabe como funciona o sistema de classificação de origem mais usado e imitado no mundo do vinho? O sistema francês Appellation d’Origine Controlée (AOC) foi criado pelo Institut National de l’Origine et de la Qualité (anteriormente chamado Institut National des Appellations d’Origine – INAO) em 1935, com a missão de garantir a origem e estabelecer padrões na elaboração de vinhos.
Este sistema acabou criando um padrão para diversos outros países, mas tem duas peculiaridades que pouca gente conhece. Em primeiro lugar não foi o pioneiro, dado que outras regiões já haviam lançado sistemas com o intuito de classificar e proteger seus vinhos. Além disso, não é exclusivo para vinhos, diversos outros produtos de origem agrícola se beneficiam de iniciativas similares.
Objetivos
Em termos gerais, podemos entender melhor os objetivos do sistema AOC usando a definição do próprio INAO. Assim, a denominação de origem seria um sistema que protege um patrimônio cultural e gastronômico. O sistema, segundo a INAO, garante a origem e a singularidade do produto, pois a produção segue especificações rigorosas, estabelecidas através do know-how tradicional e ancestral.
Vale lembrar que o termo AOC foi oficialmente alterado para AOP (Appellation d’Origine Protégée) em 2009. Esta alteração foi feita para alinhar o marco regulatório com as normas internacionais adotadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) para indicação geográfica. No entanto, o termo AOC segue sendo usado de forma quase inalterada.
Para ser reconhecido como parte de uma denominação de origem, um vinho deve cumprir uma série de requisitos. Deve ser originário de uma determinada região ou zona e satisfazer regulamentos de produção específicos. Além disso, deve ter uma reputação oficialmente estabelecida e ter obtido o reconhecimento de denominação de origem do INAO e, posteriormente, reconhecimento pela União Europeia.
História
O sistema AOC foi adotado na década de 1930, numa época em que a viticultura francesa, de forma geral, precisava de uma regulamentação formal. Antes disso, não havia um arcabouço legal em escala nacional para proteger os produtores ou condenar práticas injustas. Um senador da região Gironde, Joseph Capus, como ex-ministro da agricultura e especialista em doenças de videiras, tomou a iniciativa.
Em 30 de julho de 1935 Capus estabeleceu por Decreto-Lei o Comité National des Appellations d’Origine des Vins et Eaux-de-vie, que se tornou o INAO em 1947. Em 15 de maio de 1936, as primeiras leis foram aprovadas e Arbois, Cassis, Châteauneuf-du-Pape, Monbazillac e Tavel tornaram-se os primeiros AOCs da França. Até o fim de 1936, o número de AOCs já superava 80, passando de 160 antes do início da Segunda Guerra Mundial.
O número atual é ainda motivo de muita disputa. Por exemplo, no caso da Borgonha, por muito tempo se afirmou que o número de AOCs superava 100. Porém, o proprio comitê da região assume que o número exato é de 84 (ainda assim cerca de 25% do total da França), os demais sendo Dénominations Géographiques Complementaires (DGCs) dentro da AOC Borgonha.
Nem pioneiro, nem exclusivo
A França não foi o primeiro país a criar um código para a proteção de seus vinhos. Por exemplo, as regiões do Vinho do Porto e a húngara Tokaji lançaram códigos de proteção ainda no século XVIII. Segundo Hugh Johnson e Jancis Robinson, “foi em 1444 que um regulamento local foi introduzido para dizer aos produtores quando eles foram autorizados a começar a colheita” no Chianti Classico, na Toscana. Mesmo dentro da própria França já existiam regulamentações regionais, como no Châteauneuf-du-Pape, por exemplo.
E o sistema de denominações também não é exclusivo para os vinhos. O próprio INAO classifica diversos outros produtos. Por exemplo, na França existem 46 denominações de origens distintas para queijos, com regulamentação do INAO. Este sistema se repete também para outros produtos, entre eles carne ou manteiga.
Diversos níveis
Além do classificação AOC ou AOD (para usar o termo oficial), existem mais dois níveis aceitos para os vinhos franceses. O patamar logo abaixo era chamado de Vin de Pays, mas também em 2009 foi alterada para IGP (Indication Géographique Protegée), com regras menos rigorosas do que na AOC.
O nível de menor regulamentação é aquele anteriormente chamado de Vin de Table, atualmente Vin de France. No entanto, é sempre importante lembrar que um Vin de France não é necessariamente um vinho de menor qualidade, já que muitos produtores de alto calibre preferem ver seus vinhos comercializados nesta categoria. Em grande parte dos casos, é uma reação destes produtores contra as regras impostas pela classificação oficial, vistas como muito restritivas ou antiquadas.
Fontes: INAO; Vins de Bourgogne; The World Atlas of Wine, Hugh Johnson e Jancis Robinson
Excelente conteúdo. Será uma das minhas fontes de pesquisa.
Gilvan Passos
Consultor de vinhos
Muito obrigado Gilvan! Agradecemos também se puder divulgar nosso trabalho