Barolo em guerra: a luta pelo vinhedo Cannubi

Last Updated on 20 de dezembro de 2020 by Wine Fun

Uma tendência inexorável no mundo do vinho é a busca por uma definição mais adequada das melhores áreas de produção. Boa parte destes esforços busca inspiração na legislação francesa, que, desde a classificação dos vinhos de Bordeaux de 1855, vem aprimorando a classificação dos melhores vinhedos franceses.

E a Itália não é exceção, particularmente a partir da década de 1990 e, especificamente, em 2007. Foi quando o Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani, que disciplina as regras de produção das principais denominações da região, incluindo Barolo e Barbaresco, aprovou o conceito de Menzione Geografica Aggiuntiva, ou MGA para a região do Barbaresco, seguido em 2010 para o Barolo.

Denominações geográficas

Este conceito, que pode ser traduzido como “menção geográfica adicional”, significa que um produtor pode agregar à denominação Barolo, por exemplo, um termo indicando de forma mais específica a origem do vinho. Isso ajuda a aumentar a transparência, já que o consumidor tem a possibilidade de saber que tal sub-região ou vinhedo específico provêm as uvas usadas na elaboração do vinho.

O mapeamento dos vinhedos do Barolo, em particular, foi baseado nos trabalhos preliminares realizados pela prefeitura de Barolo desde 1992, que haviam sido solicitados pelo Consorzio di Tutela. Em 1995 e,  posteriormente, em três outras ocasiões, o mapeamento foi aprovado e iria ser incluído na documentação das MGA dos Barolo em 2010.

Controvérsias

Porém, antes mesmo da divulgação das MGA em 2010, começaram as controvérsias. Um dos mais famosos vinhedos do Piemonte é Cannubi, próximo do vilarejo de Barolo e que vem sendo citado desde 1752 como um terroir diferenciado para a produção de excelentes vinhos.

Obviamente, foi proposta a criação de uma MGA para o vinhedo Cannubi, permitindo que os produtores com parcelas deste vinhedo comercializassem seus vinhos produzidos com uvas deste vinhedo como Barolo Cannubi.  E isso representa uma importante diferencial, tanto do ponto de vista comercial como de marketing.

Um vinhedo especial

Aliás, o nome Cannubi é tão respeitado que quatro regiões adjacentes também carregavam o nome Cannubi em suas MGA: Cannubi Boschis, Cannubi Valletta, Cannubi San Lorenzo e Cannubi Muscatel. Se não é um Cannubi (a área central deste grupo de vinhedos) em si, ao menos estas MGA indicam a proximidade de um vinhedo tão cultuado.

Como qualquer outra MGA, quem produzia vinhos com uvas dos vinhedos de Cannubi Boschis, por exemplo, poderia denominar seu vinho como Barolo Cannubi Boschis, mas, obviamente, não como Barolo Cannubi ou Barolo Cannubi Valletta. Tudo bem definido, certo? Transparência em primeiro lugar e vamos em frente.

“Jeitinho” italiano

Mas na Itália muitas coisas não funcionam assim. Ainda em 2010 o produtor Marchesi di Barolo, que controlava uma importante proporção de vinhedos na MGA Cannubi Muscatel, decidiu contestar a divisão proposta, para poder comercializar seus vinhos com a MGA Cannubi. Os argumentos?

O primeiro é que incluir a MGA Cannubi Muscatel em seus rótulos poderia “iludir” os consumidores, que hipoteticamente poderiam acreditar que existe um Barolo feito com a uva Moscatel Branco ou Muscatel. O segundo é que identificaram engarrafamentos desta vinícola do início do século XX somente com a identificação Cannubi, embora as uvas fossem procedentes de Cannubi Muscatel.

Ação e reação

A reação de grande parte dos produtores com parcelas do vinhedo original de Cannubi foi imediata: o uso da MGA Cannubi deve ser exclusivo para quem tem parcelas neste vinhedo, não nos demais.  E deixaram clara a real motivação, na visão deles, por trás da decisão da Marchesi di Barolo de recorrer ao “tapetão”.

Nestes vinhedos existem áreas que não pertencem às vinícolas, mas sim a agricultores locais que arrendam ou vendem as uvas para as vinícolas. Curiosamente, um dos maiores agricultores da época, a família Scarzello, passou a arrendar seus 8 hectares em Cannubi para a vinícola Damilano, que anteriormente eram arrendados para a Marchesi di Barolo.

Do outro lado, para Ernesto Abbona, proprietário da Marchesi di Barolo, Cannubi é uma área territorial unitária e coesa, indicando que já faziam Cannubi em 1904 com esta denominação independente da sub-região, prática que era também utilizada por vinícolas como G.B. Burlotto e Francesco Rinaldi.

Decisão oficial

A surpreendente decisão do Consorzio Tutelar, conseguindo aprovação do Comitato Nazionale Vini para aceitar o pedido da Marchesi di Barolo, despertou a ira de grande parte dos produtores com parcelas do vinhedo Cannubi.

Um grupo composto por Borgogno Fratelli Serio & Battista, Poderi Luigi Einaudi, Giacomo Brezza, Maria Teresa Mascarello, Giuseppe Rinaldi, Luciano Sandrone, Tenuta Carretta, Michelina Fontana e Pietro Scarzello entrou na Justiça. E conseguiu, em março de 2012, no Tribunale Amministrativo Regionale del Lazio (TAR), a anulação do dispositivo que autorizava que os vinhedos Cannubi Boschis, Cannubi San Lorenzo, Cannubi Muscatel Cannubi Valletta passassem a ostentar apenas o nome Cannubi.

Contra ataque

Mas a disputa não havia terminado. A Marchesi di Barolo, agora com o apoio do Ministério de Políticas Agrícolas, apelou ao Conselho de Estado, órgão mais alto da Justiça italiana, que reverteu a decisão anterior e deu ganho de causa à Marchesi di Barolo. Apesar de novos apelos, a decisão final, publicada em 29 de outubro de 2013 , garantiu a decisão de que Cannubi seria uma área unitária.

Com isso, Cannubi passou a contar com 34 hectares, ao invés dos 15 hectares propostos inicialmente. A disputa terminou, mas entre os derrotados não estavam somente alguns produtores, mas também os consumidores, que deixaram de ter o direito de saber exatamente de onde vem as uvas que são usadas para elaborar os vinhos da MGA Cannubi.

Talvez até como uma forma de protesto, alguns produtores continuaram comercializando seu vinhos com a MGA das sub-regiões adjacentes, como Cannubi Boschis, por exemplo. Fim da disputa e buona fortuna, com dizem os italianos.

Imagens: Rudy e Peter Skitterians do Pixabay e Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani.

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