Num mundo cada vez mais globalizado, o vinho torna-se progressivamente mais homogêneo, independentemente de sua origem. Processos de vinificação cada vez mais sofisticados, aliados a técnicas avançadas de cultivo da uva, tornaram possível a produção de vinhos em regiões que seriam inimagináveis há apenas 30 anos — e, muitas vezes, de forma crescente e padronizada. O fenômeno recente dos vinhos da Serra da Mantiqueira (ou colheita de inverno) é um bom exemplo disso. Num lugar inusitado, é possível produzir vinhos mainstream, sem personalidade, que tentam imitar outras regiões.
Nesse contexto, é particularmente interessante observar uma região como a Calábria, localizada no sudoeste da Itália e que ocupa a “ponta” da península em forma de bota do país. A tradição vinícola dessa área remonta à ocupação grega, quando a região foi batizada de Oenotria, a “terra das uvas”. Dotada de uma vocação natural para a produção de vinhos — em um país já amplamente vocacionado para isso —, a Calábria sempre esteve à sombra de outras regiões italianas mais renomadas. Ainda assim, preservou uma produção autêntica, baseada em uvas nativas, em métodos tradicionais e voltada, em sua maior parte, ao consumo local.

Em 2025, a região conquistou sua primeira DOCG. Isso coroou o esforço recente de uma nova geração de produtores que busca conciliar a tradição com a ambição de posicionar a Calábria como uma região vinícola contemporânea, alinhada às novas tendências do mundo do vinho.
Um potencial pouco explorado ao longo da história
Quando os gregos chegaram à região no século VIII a.C., encontraram uma região repleta de videiras selvagens. A partir daí, organizaram os primeiros vinhedos e batizaram o território de Oenotria, termo que sugeria uma terra de grande vocação para a produção de vinhos. No período romano, porém, a região passou a se especializar sobretudo na produção de cereais, relegando o vinho a um papel secundário, destinado basicamente ao consumo local.
Ao longo dos séculos, a Calábria viveu uma história marcada por instabilidade política e econômica. Alcançou maior estabilidade apenas após a reunificação da Itália, na segunda metade do século XIX. Ainda assim, com uma economia essencialmente primária e uma infraestrutura precária, a região permaneceu relativamente isolada do restante do país.
No século XX, um novo e significativo obstáculo se impôs com a ascensão da Ndrangheta, uma das mais poderosas organizações criminosas da Itália. Sua influência afastou investimentos, aprofundou o isolamento regional e contribuiu para o abandono de muitos vinhedos. Nesse contexto, a produção vinícola passou a se concentrar majoritariamente no chamado vino da taglio. Eram vinhos de coloração intensa, encorpados e de elevado teor alcoólico, destinados a cortes e blends em outras regiões.
Uma lenta transformação começou a se desenhar na segunda metade do século XX, especialmente a partir da reforma agrária conduzida por Fausto Gullo, no pós-guerra. Ao desmantelar o antigo sistema latifundiário e redistribuir terras, a reforma deu origem a um novo cenário, vigente até hoje. Ele se baseia em propriedades agrícolas familiares e, consequentemente, em pequenos produtores de vinho.
Geografia e clima
Cerca de 90% do território da Calábria é composto por montanhas e colinas, com as áreas planas concentradas em faixas estreitas entre a serra e o mar. O clima é tipicamente mediterrâneo, marcado por temperaturas elevadas e verões secos, moderado pela influência dos mares Tirreno e Jônico. A presença de ventos como a Tramontana e o Siroco contribui para a ventilação dos vinhedos, reduzindo a incidência de doenças fúngicas e ajudando a moderar as temperaturas.
Os solos são bastante variados, o que favorece diferentes expressões das uvas nativas. A baixa disponibilidade de chuvas impõe condições frequentes de estresse hídrico, mas as variedades indígenas adaptaram-se a esse ambiente ao longo do tempo.
Em 2025, a região produz entre 250 e 300 mil hectolitros de vinho por ano, dos quais cerca de 70% a 75% são tintos. Desse total, aproximadamente 12% enquadram-se nas categorias DOC ou DOCG, refletindo um perfil historicamente voltado a vinhos mais simples. Porém, destaca-se uma produção emergente, de pequena escala, dedicada a rótulos de maior qualidade e valor agregado.
Cirò: vinhedos antigos e a região mais promissora da Calábria
A transição da Calábria de uma produção historicamente voltada a vinhos simples para rótulos de maior qualidade encontra em Cirò seu principal polo de transformação. O aspecto mais relevante desse movimento é que se apoia na valorização da tradição local, por meio do uso de uvas autóctones e da preservação de uma identidade própria. A verdadeira novidade reside no maior rigor aplicado à viticultura e à vinificação.
A DOC Cirò foi estabelecida em 1996 e, à época, autorizou a incorporação das chamadas castas internacionais nos cortes. Esse foi um movimento comum em diversas regiões vitivinícolas do mundo, frequentemente associado à busca por maior aceitação nos mercados internacionais. Embora essa estratégia possa ampliar o alcance comercial, ela também tende a diluir a identidade regional e contribuir para a padronização dos estilos de vinho.
Desde então, um grupo de pequenos produtores passou a trilhar um caminho distinto. Em vez de adaptar os vinhos calabreses ao paladar global dominante, optaram por aprofundar o estudo e a expressão da principal uva local, a Gaglioppo. Em um contexto em que o uso de madeira é amplamente valorizado, a escolha deliberada foi evitá-la. Privilegiam-se vinificações que buscam a máxima pureza e transparência na expressão da variedade.
Entre os produtores que se destacam nesse movimento estão Sergio Arcuri, A’Vita e Tenuta del Conte. Orientados por princípios como a elaboração de vinhos varietais a partir da Gaglioppo, a ausência de passagem por madeira, a mínima intervenção enológica e o foco na expressão do terroir, esses produtores colocam a autenticidade no centro de sua proposta.

Gaglioppo: a uva por trás do renascimento do vinho da Calábria
A Gaglioppo é a principal marca da viticultura calabresa no que diz respeito às uvas tintas. Ela está presente em todas as DOCs da região, com exceção da Greco di Bianco, dedicada a vinhos doces elaborados a partir de uvas brancas. Apesar de possuir casca relativamente fina, a variedade é capaz de originar vinhos de estrutura notável, caracterizados por acidez elevada, taninos firmes e um perfil aromático que evoca flores secas — como rosas e violetas — além de especiarias, ervas mediterrâneas e tabaco.
Visualmente, os vinhos de Gaglioppo frequentemente lembram os produzidos a partir da Nebbiolo, com coloração clara e baixa intensidade de cor. Em termos de estilo, porém, aproximam-se mais de vinhos à base de Sangiovese, como o Brunello di Montalcino, especialmente pelas notas terrosas e pela combinação entre estrutura e frescor. Essa comparação não é apenas sensorial: estudos ampelográficos indicam que a Gaglioppo descende da Sangiovese, resultado de um cruzamento com a Mantonico.
A afinidade com a Sangiovese também se manifesta em aspectos técnicos da vinificação. Ambas apresentam baixos níveis de antocianinas estáveis, o que torna a cor mais suscetível à oxidação. A colheita exige precisão para evitar taninos verdes ou excessivamente rústicos, e fermentações conduzidas a temperaturas muito elevadas podem acelerar processos oxidativos indesejáveis. Quando colhida no ponto ideal e vinificada com controle rigoroso, a Gaglioppo dá origem a vinhos extremamente perfumados, equilibrados e com notável capacidade de envelhecimento.
Assim como a Nebbiolo e a Sangiovese, a Gaglioppo é uma variedade altamente transparente ao terroir. Os exemplares mais complexos, estruturados e longevos costumam ocorrer em encostas com solos predominantemente argilo-calcários. Em solos arenosos, os vinhos tendem a apresentar menor estrutura, maior leveza e notas salinas marcantes. Já nos solos aluviais, a expressão costuma ser mais acessível, com taninos mais macios e um perfil aromático mais especiado.
Independentemente do tipo de solo, é comum encontrar aromas de frutas secas, que evoluem com o tempo para notas de couro e tabaco, mesmo em vinhos criados em concreto ou em tanques inertes. A combinação entre intensidade aromática, acidez vibrante e estrutura tânica confere à Gaglioppo um sólido potencial de evolução em garrafa.
Vale a pena conhecer
A Calábria talvez nunca tenha buscado o protagonismo que outras regiões italianas conquistaram, mas é justamente essa trajetória à margem dos holofotes que hoje se revela sua maior virtude. Em um mundo do vinho cada vez mais homogêneo, a região oferece autenticidade, identidade e uma conexão profunda entre história, território e variedade.
O renascimento impulsionado por pequenos produtores, pela redescoberta da Gaglioppo e pelo respeito ao terroir coloca a Calábria em sintonia com o que há de mais relevante no vinho contemporâneo: menos artifício, mais verdade. Para o consumidor curioso — aquele que busca ir além dos rótulos consagrados —, os vinhos calabreses representam não apenas uma descoberta, mas também um convite a repensar o conceito de qualidade, tradição e originalidade no vinho italiano.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal