Chardonnay: mudou o perfil dos vinhos com a rainha das uvas brancas?

Não é novidade que o gosto das pessoas muda e, com ele, muda o perfil dos produtos. E o vinho nosso de cada dia não foge desta realidade. Mais recentemente, temos notado que até a rainha mudou! Não se trata da rainha Elisabeth, pois essa não muda nunca, estou falando da rainha das uvas brancas, a Chardonnay. Ela continua sendo a branca mais popular do mundo e está muito perto de se tornar também a mais plantada, superando a decadente Airén.

Um dos principais motivos para este estável crescimento foi o fato de a variedade ser altamente adaptável, o que lhe permite gerar grandes vinhos em quase todos os países do mundo, tanto de clima frio como quente. De origem borgonhesa, ganhou muito destaque em países do novo mundo como EUA, Austrália, Nova Zelândia, Chile, Argentina e até aqui, mesmo no Brasil, além de impulsionar alguns outros países do velho mundo, como a Itália e a Espanha.

Outro motivo deste sucesso foi a versatilidade, o que permite ser utilizada tanto em espumantes como em vinhos tranquilos. Muito bem, mas por que estamos falando em mudança de perfil?

Mudanças de perfil

Muito tempo atrás, quando falávamos em Chardonnay, tínhamos como referência apenas os borgonheses e eles podiam ser divididos em três grupos. De um lado, os “vinhos top” como Chassagne Montrachet, Corton Charlemagne, Batard Montrachet, só para citar alguns, sempre marcados pela elegância e longevidade, seguidos pelos “grandes vinhos” como os minerais Chablis, e os amanteigados e mais untuosos Meursault. Por fim, os “Bourgogne brancos”, em sua maioria frutados e de corpo médio.

A internacionalização desta uva coincidiu com o boom dos vinhos mais estruturados, comandados pelos dólares do paladar norte-americano, logo seguidos pelos outros países do novo mundo. Resultado? A Chardonnay passou a ter como perfil a forte presença de abacaxi maduro, manteiga, e baunilha, enquanto na boca, os vinhos passaram a trazer uma forte presença de terciários e graduação alcoólica elevada.

E as mudanças seguem

Com o passar dos anos, cresceram as críticas a este tipo de vinho, pois os consumidores buscavam vinhos mais leves e fáceis de beber. Os produtores regiram rapidamente, e o que encontramos hoje em dia é que a grande maioria deles tem como estilo a alta mineralidade, aromas mais ácidos (como limão) e frutas brancas, assim como alta acidez, menor graduação alcoólica e redução drástica de uso de madeira.

Para que isto se concretizasse, notamos muitas mudanças, como evitar as colheitas com excesso de maturação, a utilização de vinhedos menos expostos ao sol, menor intervenção no processo produtivo, menor utilização de madeira e, em alguns países, a busca de novas regiões mais frias e de condições mais extremas.

No mês passado, organizei uma degustação de Chardonnay do novo mundo, para a revista Go Where, que deverá ser tema de nossa próxima edição, nela este estilo foi comprovado, tanto para exemplares mais populares como para rótulos mais caros, enfim, grandes vinhos bem mais frescos e fáceis de beber. Aproveite enquanto esta tendência prevalece.

Ex-diretor da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) por dois mandatos, onde também ministrava aulas sobre técnicas de degustação. Editor de vinhos da revista Go Where por 10 anos, publisher da revista Free Time por 3 anos. Já foi jurado de concursos internacionais como CatadorConcours Mondial de Bruxelles. Colaborador e degustador de diversas revistas de vinho, como Vinho Magazine, Vinho & Cia e outras. Editor do blog Tommasi no Vinho.

Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.

Foto: Walter Tommasi, arquivo pessoal

Imagem: pansso via Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *