Chianti, duas apelações e vinhos diferentes

Chianti é o nome usado para designar tanto uma área geográfica, na região central da Toscana, como também um dos mais conhecidos e exportados vinhos italianos. Porém, a região vinícola do Chianti compreende áreas distintas que, por sua vez, produzem vinhos bastantes diferentes. Para complicar, existem duas apelações que compartilham o mesmo nome: Chianti Classico DOCG e Chianti DOCG. Achou confuso? Bem-vindo à Itália.

O objetivo desse artigo é mostrar a diferença dessas duas apelações e tentar ajudar entender melhor esse estilo. Numa área que produz vinhos tão heterogêneos, o conhecimento é o melhor caminho para fugir de armadilhas.

Colinas da região vinícolas da Toscana

Um pouco de história

O cultivo de uva e produção de vinhos na península itálica tem uma longa tradição. Etruscos no norte e gregos, no sul, deram o pontapé inicial. Quando Roma conquistou toda a região e formou o que ficou conhecido como “o maior império do mundo ocidental”, o vinho foi levado para as inúmeras províncias romanas, abrindo novas frentes para produção e consumo.

Mas a ruína do Império Romano, no século quinto, foi dramática, seguida da invasão de povos nórdicos e início da “era das trevas”, como ficou conhecida a Idade Média. Nesse período, o protagonismo dos vinhos italianos foi perdido e abriu espaço para outras regiões. A península itálica se fechou e foi fragmentada em várias unidades políticas autônomas.

As cidades estado e a Toscana

A partir do século 12, várias povoações da Toscana se organizaram em comunas, criando as chamadas “cidades estado”, unidades políticas independentes. Florença e Siena logo se destacaram como potências poderosas e rivais. E foi nos arredores dessas delas que surgiu o Chianti. Há registro da ligação de famílias poderosas da região com o vinho desde o século 12. Famílias como Ricasoli, Frescobaldi e Antinori se envolveram na produção e comercialização de vinhos desde então.

Em 1716, o Duque da Toscana, Cosimo III, editou um decreto para proteger os vinhos da Toscana. O Bando (decreto) delimitou as fronteiras geográficas de Chianti, Pombino, Carmignano e Vale d’Arno di Sopra. É essa a origem da região conhecida como Chianti Storico, que hoje corresponde à área do Chianti DOCG.

As uvas do Chianti

Nos séculos 17 e 18 os registros indicam que os Chianti eram produzidos predominantemente com a variedade Canaiolo. Na primeira metade do século 19, o Barão Bettino Ricasoli iniciou experimentos com outras uvas, no Castello di Brolio.

Castello di Brolio

Após anos de experimento, o Barão se convenceu que o blend deveria ter como protagonista a Sangiovese. Em 1872 ele formalizou a fórmula com 70% Sangiovese, 15% Canaiolo Nero e 15% de Malvasia.

Ao longo do tempo, porém, os produtores passaram a substituir a Malvasia por uma outra variedade, mais produtiva e de menor qualidade, a Trebbiano. O resultado foi um Chianti mais diluído e que alterou significativamente o vinho.

Os reveses do sucesso comercial

Durante o século 19 e primeira metade do século 20, a demanda pelo Chianti superou a oferta. Vinhos produzidos com as mesmas uvas, mas fora da região delimitada do Chianti Storico eram comercializados como Chianti, ou identificados como vino all’uso di Chianti, ou vinhos “ao estilo de Chianti”

Em 1924, um grupo de 33 produtores da área histórica se reuniu com o objetivo de proteger a marca e elegeram o Gallo Nero como símbolo. Nascia o primeiro consorzio de produtores da Itália.

Gallo Nero, símbolo escolhido em 1924 para representar o Chianti

Em 1932 o governo italiano definiu as fronteiras da apelação Chianti. E para surpresa geral, e revolta dos produtores inseridos na região histórica, a área original foi ampliando e passou a incorporar os terrenos vizinhos.

Apenas em 1996 isso foi corrigido, com o Chianti Classico ganhando uma apelação independente, o Chianti Classico DOCG. O Consorzio imediatamente introduziu regras rígidas de produção e, pela primeira vez, permitiu a produção de vinhos 100% Sangiovese. Em 2006 as variedades brancas, que já não vinham sendo utilizadas, foram definitivamente banidas.

Chianti Classico DOCG

Essa apelação reúne algum dos melhores vinhos da Itália. De forma geral, os vinhos produzidos nos terrenos de maior altitude tendem a serem mais elegantes, com mais intensidade aromática, acidez elevada e boa carga tânica.

São produzidos com um mínimo de 80% de Sangiovese e um máximo de 20% de uma ampla gama de variedades, incluindo nativas da Toscana e as chamadas castas internacionais, como a Cabernet Sauvignon e Merlot. Há três categorias de Chianti Classico, sendo o Gran Selezione o topo da pirâmide em termos de qualidade.

Categorias do Chianti Classico

Chianti DOCG

Essa apelação cobre uma grande área em volta do Chianti Classico. Inclui sete diferente subzonas, que têm o nome adicionado depois da palavra Chianti no rótulo (por exemplo Chianti Colli Senesi DOCG). Quando é produzido com uvas oriundas de diferentes subzonas, leva apenas o nome Chianti DOCG.

Dada a heterogeneidade da área, é fundamental conhecer a origem das uvas. São sete subzonas com estilos e qualidades diversas. Rufina, Colli Senesi e Colli Fiorentini são consideradas as mais distintas. Quanto às variedades, a denominação exige um mínimo de 70% Sangiovese e o restante complementado por uma ampla gama de castas tintas nativas e internacionais.

O mesmo nome e vários estilos

Como apresentado, Chianti é o nome de duas apelações diferentes. A simples adição do nome Classico pode criar uma enorme confusão na cabeça do consumidor desavisado.

Uma rápida consulta nos sites das importadoras no Brasil, sem a pretensão de ser conclusivo, mostrou que é possível encontrar um Chianti vendido pelo preço de R$ 2.010,04 (Vignetto Bella Vista 2011 do Castello di Ama na importadora Mistral), até um outro por R$ 59,99.

Como sempre, o conhecimento é fundamental para orientar boas decisões. E quanto mais confuso, maior a possibilidade de encontrarmos bons achados. O prazer que um bom Chianti pode oferecer certamente compensará o esforço.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

Imagens: Pxsphere; Ricasoli; Consorzio Vino Chianti Classico

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