De forma geral, os países produtores de vinhos são agregados em dois grupos. De um lado, o chamado “Velho Mundo”, com os países europeus (França, Itália, Portugal, Espanha, Alemanha, Grécia etc) e regiões ao leste do Mediterrâneo, como Líbano, Israel e, obviamente a Georgia, de onde vêm os primeiros indícios de elaboração de vinhos.
Já de outro lado, há o grupo chamado de “Novo Mundo”. Ele inclui os países das Américas (desde o Canadá até Chile e Argentina), Oceania e África do Sul. Em todas estas regiões, foram os colonizadores europeus que introduziram o vinho, principalmente com a utilização de variedades da Vitis vinifera. Outras partes do mundo, porém, ficaram em uma espécie de limbo, como diversas partes da Ásia.
Percepção incorreta
E a China é uma delas. Refletindo a sua posição geográfica favorável (entre as latitudes 30 e 50 graus), a China fechou 2019 como o décimo maior produtor de vinhos do mundo, com cerca de 8,3 milhões de hectolitros produzidos, quase quatro vezes a produção brasileira no mesmo período. Se do ponto de vista de quantidade a China aparece em uma posição de destaque, pouca gente fora de lá teve a oportunidade de provar estes vinhos. E isso tem a ver com a percepção de que a China é uma região sem qualquer tradição na vinificação.
Porém, esta é uma percepção totalmente incorreta. Diversas descobertas arqueológicas mostraram que a China, ao contrário do que muita gente pensa, tem uma longa tradição na produção de vinhos. A elaboração de vinhos na China seria, por exemplo, muito mais antiga que diversos países europeus não banhados pelo Mediterrâneo. Ou seja, o papel da China na história do vinho possivelmente terá que ser reescrito.
Longa tradição
Uma série de descobertas confirma o status da China dentro dos produtores de “Velho Mundo”. Em 1980, um recipiente de cobre selado, preenchido com líquido, foi encontrado em um túmulo na província de Henan. Datado de 1.200 A.C., o líquido foi identificado por pesquisadores chineses como sendo vinho, feito a partir de uvas.
E talvez a vinificação seja ainda mais antiga na China. Sementes de uva foram encontradas em 2001 em um sítio arqueológico localizado em Jiahu, na província de Henan, e foram datadas com cerca de 7.000 a 9.000 anos (durante o período Neolítico). Foram encontradas também cerâmicas, com resíduos incluindo ácido tartárico e tartarato, resíduos específicos da vinificação. As sementes de uva descobertas no mesmo local inferem que as uvas provavelmente eram usadas para a fabricação da bebida.
Caso se confirme esta relação entre as uvas e a cerâmica, esta seria a mais antiga amostra quimicamente provada de uvas sendo usadas para criar uma bebida fermentada. E isso mudaria totalmente a cronologia atualmente aceita para a história do vinho.
Primeiros registros sobre vinho
De acordo com os registros chineses, a produção de bebidas alcóolicas nas áreas central e sul do que hoje é a província de Shanxi remonta ao fim da Dinastia Xia (2.070 -1.600 A.C.). Shao Kang (também conhecido como Du Kang), um dos imperadores da dinastia Xia, teria sido o primeiro vinhateiro conhecido na China. A bebida alcoólica que Shao Kang fazia era uma espécie purê de grãos fermentados, juntamente com diferentes tipos de frutas. Esta mistura provavelmente incluiu uvas, já que Shanxi aparece historicamente como uma das principais áreas de cultivo de uvas da China.
Já o registro mais antigo escrito de uvas na China está no Shi Jing (O Livro da Poesia) compilado por Confúcio. Shi Jing contém 305 poemas desde o início da Dinastia Zhou Ocidental até meados do Período de Primavera e Outono (1.100 a 600 A.C.). Entre os 305 poemas, a palavra “vinho” (Jiu, bebida alcoólica) aparece mais de 60 vezes.
A Vitis vinifera na China
O primeiro registro oficial de variedades da Vitis vinifera nas planícies centrais da China está em uma área próxima ao Rio Amarelo, durante a dinastia Han (200 A.C. a 220 D.C.). Um dos embaixadores do imperador trouxe de uma viagem relatos de itens romanos, como vidros, vinho e uvas que testemunhou ao longo da Rota da Seda, na região do atual Uzbequistão.
Por conta do comércio e do contato com as civilizações ocidentais, se deu a introdução de técnicas de viticultura no Corredor de Hexi (incluindo agora a província de Gansu e região autônoma de Ningxia Hui) e depois a Xian, antes de se mudar para o norte, nordeste e outras regiões da China.
Vinho na história chinesa
E a viticultura prosseguiu na China por vários séculos. Após a conquista por Genghis Khan em 1.211 D.C., seu neto, Kublai Khan, estabeleceu a dinastia Yuan (1.271-1.368 D.C.). E neste período, havia até incentivo extra para a produção de vinhos. O governo Yuan emitiu regulamentos com taxação de 3,3% sobre vinhos de uva, contra 6% sobre destilados de grãos. O objetivo seria estimular o crescimento da indústria vinícola. Mais ou menos na mesma época, o livro “As Viagens de Marco Polo” descreveu vastos vinhedos na província de Shanxi, a sudoeste de Beijing.
A partir da dinastia Ming, porém, o vinho passou a perder importância, devido ao declínio econômico e ao consumo de bebidas de maior teor alcóolico. Um novo renascimento veio no século XIX, quando o empresário Zhang Bishi estabeleceu em 1892 a vinícola Changyu, em Yantai, e introduziu 120 variedades Vitis vinifera na China.
Posteriormente, foram estabelecidas várias vinícolas. Elas incluem a Shang Yi, criada por católicos franceses em 1910, a vinícola Yi Hua criada em 1921, a Chang Bai Shan e a Tong Hua, criadas pelos japoneses em 1936 e 1937, respectivamente. Desde a criação da República Popular da China, a produção de uvas e vinhos na China segue aumentando, sobretudo a partir do final da década de 1950 e início dos anos 1960, com centenas de variedades de uvas de mesa e vinho sendo importadas da Bulgária, Hungria e União Soviética.
Fontes: The worlds of wine: Old, new and ancient, Hi et al; OIV
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