Clima e viticultura: entenda as diferenças e impactos sobre as videiras

Existem diversos fatores que afetam a vinicultura e, consequentemente, o estilo e características dos vinhos. E um dos mais importantes é o clima, que consiste, basicamente, em variáveis como temperatura, incidência de luz solar e disponibilidade de água, sobretudo decorrente da chuva. Mesmo nas zonas mais adequadas para a viticultura, que ficam entre as latitudes 30 e 50, existe uma enorme oscilação destas variáveis, com impacto extremamente relevante sobre os vinhos.

Além destas três variáveis, existem ao menos outras duas que afetam de forma significativa o processo de maturação das uvas, devendo, portanto, ser analisadas de perto. De um lado, como a temperatura varia ao longo do ano, por exemplo entre seus extremos de verão e inverno. Isso é o que chamamos de continentalidade. De outro, as variações durante o dia, ou seja, entre máximas e mínimas dentro de um período de 24 horas, chamado de intervalo diurno.

Três grupos de climas

Como você pode imaginar, existem quase que inúmeras combinações entre estas variáveis. Isso significa que praticamente cada região produtora de vinhos ao redor do mundo tenha um clima único. No entanto, existem diversos padrões que se repetem, o que permite fazer algumas generalizações. Assim, pode-se agrupar o clima em três grupos: climas continentais, marítimos e mediterrâneos.

Não há qualquer dúvida que esta segmentação em três grupos tem um certo viés europeu, já que representa distintas combinações destas variáveis que são comuns no Velho Continente. De uma certa forma, podemos restringir este viés a um país em especial, que contém regiões com estes padrões: a França. É só pensar no clima marítimo de Bordeaux, no continental da Champagne e no Mediterrâneo do Languedoc.

Clima marítimo

Quem vive ou costuma passar períodos mais longos em regiões próximas ao mar já deve ter algumas noções de algumas das propriedades deste clima. No caso de regiões vinícolas com este perfil, ele tem como principais características clima frio a ameno, sem grandes extremos, já que a presença do mar funciona como um moderador. Não há, portanto, diferença tão significativa entre o mês mais frio e o mais quente, ou seja, baixa continentalidade. O regime de chuvas, em geral, é bem distribuído ao longo do ano.

Esta combinação de fatores, sobretudo temperatura média moderada e sem grandes extremos, permite um ciclo vegetativo longo, de forma que as uvas possam seguir maturando até o outono. Porém, existe, na comparação com outros climas, um risco maior de chuvas durante a primavera ou verão. Isso pode, dependendo da época e quantidade, prejudicar a floração, evolução das uvas ou mesmo a saúde das videiras. Além de Bordeaux, regiões como Rias Baixas, Muscadet, Willamette Valley, Auckland, Hawke’s Bay, Margareth River, Uruguai ou Grã-Bretanha também se encaixam nesta definição.

Clima continental

É o clima com maiores diferenças nas temperaturas entre os meses de verão (muito calor) e inverno (bastante frio). Além da alta continentalidade, estas regiões costumam ter verões curtos e secos, com quedas rápidas nas temperaturas a partir do outono. Isso não é favorável para uvas com ciclo vegetativo muito longo. Frequentemente, durante o período de maturação das videiras, os climas continentais mostram grande variação na temperatura diurna. São temperaturas muito quentes durante o dia, porém com drástica queda durante a noite.

Um dos maiores riscos nestas regiões é aquele de geadas de primavera. O impacto é maior em anos quando o final do inverno e início da primavera não são tão rigorosos, permitindo uma brotação precoce das videiras.  Por conta destas características, são áreas mais propícias para variedades com brotação tardia e amadurecimento rápido. Além de Champagne, alguns exemplos são Chablis, Côte des Nuits, Jura, Côte Rotie, Rioja, Central Otago, boa parte da Áustria, Suíça e Alemanha, Tokaj, Sancerre, Valtellina e Okanagan Valley.

Clima mediterrâneo

O clima mediterrâneo leva a uma quase imediata associação ao centro-sul da Itália e sul da França e Espanha, além das ilhas mediterrâneas (Baleares, Sardenha, Córsica, Malta, Sicília e ilhas gregas) e países do Levante (Líbano, Israel). Porém, há diversas áreas fora da Europa com características semelhantes, como a parte costeira da California (incluindo Napa Valley), Chile, África do Sul e Austrália.

Assim como o clima marítimo, mostra baixa continentalidade, com diferença não tão dramática entre o mês mais frio e o mais quente do ano. Neste caso, porém, os verões tendem a ser bastante quentes e secos. Isso coloca a hidratação das videiras e a possibilidade de estresse hídrico como principais riscos.  Em geral, nestas regiões os vinhos tendem a mostrar mais corpo e abundantes notas frutadas, além de taninos mais maduros, maior teor alcóolico e menos acidez.

Definindo faixas de temperatura

Uma outra forma de definir o clima é usar, como referência, uma medida da temperatura média durante a temporada de maturação das uvas. No caso do Hemisfério Norte, isso corresponde ao período entre abril e outubro, já para o Hemisfério Sul é de outubro a abril. De forma geral, podemos dizer que a viticultura pode atingir bons resultados quando a temperatura média fica entre 16 e 22 graus durante a temporada de maturação.

Quando a média fica abaixo de 16,5ºC, falamos de climas frios. Na categoria seguinte, entre 16,5ºC e 18,5ºC, são climas moderados. Para a viticultura, temperaturas médias entre 18,5ºC e 21ºC são ditas quentes, enquanto acima de 21ºC são chamadas de muito quentes. Vale lembrar, porém, que esta definição focada somente na temperatura é incompleta. Ela não leva em consideração fatores fundamentais, entre outros o regime de chuvas (quantidade e distribuição), continentalidade, intervalo diurno e incidência de luz solar.

Fontes: Understanding Wines: Explaining Styles and Quality, WSET; entrevistas com produtores

Imagem: Arquivo pessoal

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