Confraria pela Cura: vinho gerando impacto social

O Brasil é um país de renda média, mas figura entre os mais desiguais do mundo. A disparidade entre ricos e pobres é gritante, ainda mais em tempos de estagnação econômica. Não é preciso recorrer a longas estatísticas: basta observar a quantidade crescente de pessoas dormindo nas ruas das grandes cidades.

Se o Estado, lento e ineficaz, não consegue responder a essa realidade no curto ou no longo prazo, cabe a nós, cidadãos, encontrar caminhos para ajudar. Uma das formas mais poderosas é apoiar financeiramente causas sociais que gerem impacto real. Essa prática é bastante comum em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Nova Zelândia, Reino Unido e Canadá. Neles, as doações representam entre 0,5% e 1,5% do PIB. Mesmo em nações menos ricas, o hábito de doar é forte: na Indonésia, mais de 90% da população contribui com algo, ainda que pequeno, para causas sociais.

O contraste com o Brasil é grande. Aqui, a caridade corresponde a apenas 0,2% do PIB, e somente 29% das pessoas fazem doações regulares. Está na hora de mudar esse cenário. Foi daí que nasceu uma iniciativa que alia solidariedade a uma de nossas grandes paixões: degustar vinhos de alta gama em boa companhia.

A Confraria pela Cura

No meio deste ano, recebi um convite que aceitei de imediato. Guilherme Giraldi me apresentou o projeto da TUCCA, instituição com mais de 25 anos dedicada a crianças e adolescentes com câncer, e me propôs criar um novo formato para a Confraria pela Cura. A experiência em organizar encontros e confrarias foi a base para desenharmos juntos esse modelo, que une responsabilidade social, grandes vinhos e pessoas dispostas a transformar a realidade.

O conceito é simples: reunir de oito a dez participantes para uma degustação temática em um restaurante selecionado. Cada convidado leva duas garrafas. Uma para ser aberta durante o jantar, seguindo o tema proposto, e outra destinada à doação.

No primeiro encontro, o tema foi Borgonha Tinto Premier Cru. Tivemos oito Pinot Noirs de diferentes áreas da Côte d’Or e duas garrafas de espumante oferecidas pela importadora Zahil, em uma noite memorável no restaurante Jiquitaia, em São Paulo. Mas o verdadeiro destaque, do ponto de vista social, esteve nas garrafas doadas.

Gerando impacto

Foram nove vinhos de altíssimo nível, representando países como Itália, França, Espanha e Portugal. Entre eles, um Barbaresco de Angelo Gaja, duas garrafas de Bordeaux Cru Classé, além de rótulos de produtores icônicos como Pêra-Manca, Vega Sicilia, Antinori e Frédéric Mugnier. Estima-se que o valor de mercado dessas garrafas ultrapasse R$ 30 mil. Todas, assim como as doações dos próximos encontros, serão leiloadas em um evento nos próximos meses, com grande potencial de arrecadação.

Como economista, não pude evitar a reflexão: conseguiríamos que as mesmas pessoas doassem, em dinheiro, valores médios de quase R$ 4 mil cada? Talvez não. Mas o resultado mostra como é possível transformar nossas adegas em instrumentos de solidariedade, sem abrir mão do prazer de compartilhar momentos únicos: grandes Borgonhas, ótima gastronomia e boas conversas entre amigos.

Os próximos passos

Enquanto escrevo esta coluna, o segundo evento já está confirmado (com o tema Barolo de vinhedos únicos) e com vagas esgotadas, a ponto de ser necessário abrir um novo grupo para interessados. O potencial de crescimento é enorme, tanto em arrecadação quanto em adesão. O objetivo é claro: apoiar Sidnei Epelman, fundador da TUCCA, e sua equipe dedicada, para que possam ampliar o atendimento a crianças e adolescentes com câncer.

Quer participar dessa história? Entre em contato comigo pelo site ou pelas minhas redes sociais. Você também pode procurar diretamente o Guilherme Giraldi ou os canais oficiais da TUCCA Confraria pela Cura. Juntos, podemos transformar solidariedade em esperança e impactar a vida de quem mais precisa.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estuda continuamente e segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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