Last Updated on 7 de fevereiro de 2021 by Wine Fun
Uma das matérias mais comentadas esta semana por quem gosta de vinhos foi aquela referente à pesquisa que indicou que o vinho tinto pode ajudar na prevenção da COVID-19. Segundo um estudo realizado por pesquisadores da China Medical University, em Taiwan, os taninos, tão comuns em vinhos tintos, podem ajudar a controlar o aumento da carga viral e contribuir para a prevenção da infecção.
Os taninos, que são considerados como anti-oxidantes e que mostram também propriedades anti-inflamatórias, poderiam bloquear a ação de duas enzimas do vírus. Os estudos, porém, não são conclusivos, pois não foram efetivamente testados os impactos de dietas ricas em taninos sobre pacientes infectados.
Estudo anterior
O que pouca gente sabe é que este estudo não foi o primeiro a buscar associar componentes presentes no vinho com uma menor ação do SARS-Cov-2. No final do ano passado, pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte descobriram que extratos crus de chá verde, cacau e duas variedades da espécie Vitis rotundifolia (uma das uvas americanas) poderiam ter o mesmo efeito.
Os pesquisadores realizaram experimentos in vitro, em laboratório, para descobrir se polifenóis presentes nestas substâncias poderiam ajudar a conter o vírus. A conclusão deste estudo, também não conclusivo, indica que estes compostos seriam capazes de retardar a atividade do SARS-Cov-2 na origem da COVID-19.
Contraste com a realidade
Embora os estudos sejam preliminares e possam indicar um caminho interessante para novas pesquisas, uma comparação rápida entre os países com maior consumo de vinho e aqueles mais afetados pela COVID-19 parece desanimadora. Considerando os doze países com maior consumo per capita de vinho no mundo, oito deles aparecem acima do Brasil também na tabela de mortalidade per capita por conta da COVID-19.
Portugal, o país com maior consumo per capita de vinho em 2017 (58,8 litros de vinho) mostra uma mortalidade decorrente da COVID-19 de 136 por 100.000 habitantes. Isso é bem acima da brasileira, que é de 110 para cada 100.000 habitantes. Da mesma forma, sete outros países desta lista (França, Itália, Bélgica, Hungria, Suécia, Argentina e Espanha) também mostram números piores.
Evidência empírica não ajuda
Dos 12 maiores consumidores per capita de vinho, apenas Suíça, Áustria, Austrália e Alemanha mostram mortalidade inferior à brasileira. Vale lembrar que o consumo per capita de vinho no Brasil é baixíssimo (cerca de 2 litros ao ano por habitante). Isso é muito abaixo do 12º da lista de maiores consumidores, que é a Espanha, com 26,4 litros per capita.
Obviamente, outros fatores ajudam a entender por que aparentemente não existe uma correlação negativa entre consumo de vinho e impacto da COVID-19. Porém, a evidência empírica parece trazer más notícias para quem bebe vinho, ao menos em relação a considerar o consumo de vinho como um potencial fator para reduzir o impacto da COVID-19.
Fontes: Tannic acid suppresses SARS-CoV-2 as a dual inhibitor of the viral main protease and the cellular TMPRSS2 protease, Wang et al; Docking Characterization and in vitro Inhibitory Activity of Flavan-3-ols and Dimeric Proanthocyanidins Against the Main Protease Activity of SARS-Cov-2, Yue Zhu e De-Yu Xie; Vitisphere; OIV; The New York Times
Imagem: fernando zhiminaicela via Pixabay