Por muitos anos, uma viagem muito popular entre os brasileiros foi dar uma esticadinha para a Argentina. E, para quem gosta de vinhos, o país vizinho traz um atrativo extra: não faltam vinhos de qualidade a preços bem atrativos, bem abaixo daqueles praticados no Brasil.
Por conta disso, não são poucos aqueles que usaram estas viagens para trazer vinhos do país vizinho, aproveitando que a legislação permite a entrada de até 12 litros de bebidas alcóolicas por pessoa (que corresponde a 16 garrafas de vinhos) e/ou uma cota máxima de US$ 500. E com US$ 31 na média por garrafa, dá para comprar e trazer legalmente muita coisa boa.
Mas, por conta da pandemia, isso mudou de forma radical. O fluxo de turismo entre os dois países despencou e, com isso, estas importações legais de vinho. Porém, o vinho argentino segue entrando no Brasil, desta vez de forma crescente por canais ilegais. Desde 2020, aumentaram de forma significativa as apreensões de vinhos contrabandeados entre os dois países.
Contrabando em alta
Somente em março, Argentina e Brasil confiscaram cerca de 80 mil garrafas de vinho argentino, chileno, alemão, italiano e espanhol nas cidades fronteiriças de Bernardo de Irigoyen, Dionisio Cerqueira e Barracão, como parte da Operação Dionísio, que teve como alvo o tráfico de vinhos. Isso repesenta um grande aumento em relação aos anos anteriores: de janeiro a julho de 2020, o Brasil apreendeu 35 mil garrafas, contra 22 mil garrafas em todo o ano de 2019.
E o contrabando leva a outros crimes. Em meados de maio, o advogado Juan María López foi morto a tiros em Bernardo de Irigoyen, cidade fronteiriça do lado argentino. A polícia local encontrou uma série de recibos dentro de um veículo, evidenciando que López estava envolvido no transporte ilegal de garrafas de vinho de Buenos Aires para o Brasil, através de Bernardo de Irigoyen, de acordo com o jornal local El Territorio.
Além da interrupção do fluxo turístico com a Argentina, outro dado parece contribuir para esta tendência. As importações de vinho do Paraguai, outro destino de compras de vinhos por parte de brasileiros, despencaram em 2020. Por fim, no caso da Argentina existe um fator extra: por conta das restrições cambiais locais, existe um mercado paralelo de câmbio, chamado dólar blue. A diferença de mais de 50% em relação às cotações oficiais cria um incentivo extra para os contrabandistas.
Cuidados ao comprar
É muito provável que estas apreensões sejam apenas a ponta do iceberg. Não faltam grupos de WhatsApp oferecendo vinhos argentinos a preços muito atrativos, bem abaixo daqueles praticados no Brasil. Deste modo, é provável que ao menos parte destes produtos tenha origem “desconhecida”, o que aumenta, inclusive, o risco de falsificações.
Embora os contrabandistas tenham cada dia agido de forma mais sofisticada, o consumidor brasileiro pode tomar alguns cuidados básicos. O primeiro, obviamente, é sempre solicitar uma nota fiscal. Se receber uma oferta de vinho argentino, também vale checar é se ele tem um contra-rótulo escrito em português, com as informações que são obrigatórias pela legislação brasileira. Contra-rótulo em espanhol, inglês ou mesmo a ausência do mesmo pode indicar que o vinho foi contrabandeado.
Além da receptação de mercadorias contrabandeadas ser crime, o consumidor corre um risco extra: o de não entrega. Portanto, desconfie de ofertas com preços muito abaixo dos praticados no mercado. Sim, o vinho importado é muito caro no Brasil, por causa de uma série de impostos e margens elevadas, mas o caminho para resolver isso definitivamente não passa por crime e contrabando.
Fontes: Diversas edições de jornais brasileiros; Polícia Federal; Insight Crime
Imagem: Mauro Lima via Unsplash