Coulée de Serrant: conheça a denominação de origem do Loire que produz um único vinho

Last Updated on 28 de maio de 2023 by Wine Fun

Poucas são as denominações de origem francesas classificadas como monopole, ou seja, a extensão total de seus vinhedos pertence a apenas um proprietário. Cinco delas estão localizadas na Borgonha (Romanée-Conti, La Tache, La Romanée, La Grand Rue e Clos de Tart) e uma no Rhône (Château-Grillet). A sétima, criada em 2015, é a Coulée de Serrant AOC, que inclui um dos melhores vinhedos do Vale do Loire, cultivado desde 1130.

Desde 1962 de posse da família Joly, este vinhedo de pouco menos de 7 hectares tem uma longa história e muita tradição. Embora não haja referências sobre as uvas plantadas inicialmente, nos últimos séculos a Chenin Blanc tem sido soberana nesta área, que fica na margem direita do Loire e é considerada com um dos melhores terroirs para esta variedade no mundo.

Origens monásticas

Fundada em 1098 na Borgonha, a ordem dos cistercienses trouxe uma influência duradoura sobre a viticultura francesa. Seu maior impacto foi no que diz respeito ao cuidado com os vinhedos e definição do próprio conceito de terroir. E foram estes monges que fundaram uma abadia em Savennières, com vinhedos que incluíam a área atual do Clos de la Coulée de Serrant.  

Os cistercienses, porém, não plantaram somente o que seria chamado de Clos de la Coulée de Serrant. Este vinhedo era apenas uma pequena parte da área cultivada pela ordem na região. O conjunto de vinhedos passou a ser conhecido coletivamente como Roche-aux-Moines (que, em uma tradução literal, significa “Rocha dos Monges”). Não se sabe exatamente, porém, quais variedades os monges cultivaram. Pode ter sido a Chenin Blanc, embora esta variedade só apareça em registros históricos a partir do século XV.

Nos séculos seguintes, parte dos vinhedos passou por diversos proprietários, inclusive os Serrant, que renomearam o vinhedo durante o século XIV. Há registros de posse de parte dos vinhedos pelas ordens religiosas até a Revolução Francesa, quando houve confisco e revenda das terras. O século XIX viu a divisão dos vinhedos de Roche-aux-Moines entre diversos proprietários, com o Clos de la Coulée de Serrant novamente mudando de mãos.

Monopole e as denominações de origem

A chegada da filoxera à região na segunda metade do século XIX representou outro marco importante. A posse do vinhedo passou a novos proprietários, que replantaram boa parte de sua área na década de 1920. Embora a aprovação das primeiras denominações de origem francesas tenha ocorrido na década de 1930, esta parte do Loire ficou para trás.

Foi somente em 1946 que se deu a criação da apelação Anjou-Coteau de la Loire. Savennières, por sua vez, passou a ter denominação própria a partir de 1952. Já a partir deste momento, tanto Coulée de Serrant como Roche-aux-Moines, embora fizessem parte da denominação Savenniéres, tiveram a qualidade de seu terroir reconhecida. Os vinhos de Coulée de Serrant, por exemplo, poderiam ser engarrafados como Savennières-Coulée de Serrant.

A criação da denominação de origem Coulée de Serrant se deu somente em 2011, com aprovação final em agosto de 2015. Dentre as denominações que se originaram a partir da Savernnières AOC, é, de longe, a mais exclusiva. Com 6,87 hectares de vinhedos é menor que Savennières Roche-aux-Moines AOC (19 hectares) e que a “desfalcada” Savennières AOC (350 hectares).

Mapa da denominação de origem Coulée de Serrant

Terroir e parcelas

Sua “independência” em relação à Savennières AOC levou em conta seu terroir diferenciado. Coulée de Serrant fica na margem direita do rio Loire, a nordeste do vilarejo de Savennières e sudeste de Angers. A denominação fica entre os vinhedos da Savennières Roche-Aux-Moines AOC e aqueles da parte nordeste da Savennières AOC. Os vinhedos de Coulée de Serrant se concentram em uma elevação de orientação sul-sudeste, logo acima do Loire. Predominam os solos de xisto vermelho, que fazem parte do Maciço Armoricano.

A denominação Coulée de Serrant, porém, não corresponde exatamente à área do Clos de la Coulée de Serrant. Embora responda pela maioria da área delimitada e ocupe a parte central, com 3,98 hectares, o Clos original é uma das três parcelas que compõem a denominação de origem. Fazem parte da denominação também o Clos du Château, uma parcela de 0,86 hectare, e o lieu-dit Les Plantes, com 2,03 hectares.

Regulamento e único vinho

A única variedade autorizada na Coulée de Serrant AOC é a Chenin Blanc, que pode ser vinificada tanto seca como em estilo mais doce. Porém, Nicolas Joly e sua filha Virginie, que controlam o único produtor na região, optaram somente pelo primeiro estilo. Os rendimentos máximos são de 30 hectolitros por hectare para vinhos secos e 25 hl/ha para vinhos doces, bem abaixo daqueles da Savennières AOC (50 hl/ha e 35 hl/ha, respectivamente).

Por conta das práticas agrícolas adotadas por Nicolas Joly, é a única denominação de origem de cultivo inteiramente biodinâmica na França. Joly passou a cultivar seus vinhedos de forma biodinâmica a partir de 1984, obtendo certificação para todos seus vinhedos, inclusive aqueles em Coulée de Serrant. No total, são produzidos cerca de 150 hectolitros de vinho ao ano, que correponde a cerca de 200 mil garrafas.

Um vinho único

Apenas um vinho é elaborado a partir das uvas cultivadas nesta denominação de origem. O monovarietal Clos de la Coulée de Serrant é, certamente, um dos vinhos brancos mais interessantes da França. Todavia, este Chenin Blanc tem um estilo bastante particular. Joly e sua filha optam por colher as uvas em ponto de maturação avançado, dando origem a um vinho encorpado, denso e de muita estrutura.  

Fontes: Loire Master Level Study Manual, Wine Scholar Guild; The Wine Doctor; Cahier des Charges de L’appellation d’origine Coulée de Serrant; Loire Valley Wine Economic Report, Vins de Loire – appelation Coulée de Serrant

Imagens: Arquivo pessoal

Mapas: Vins du Val de Loire

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