Enoturismo, a grande vocação dos vinhos de São Paulo e Minas

A técnica da poda invertida, ou dupla poda, promoveu uma revolução nos vinhos produzidos em São Paulo e Minas Gerais, movimento que se propagou em outras regiões do Brasil. A natureza programou o amadurecimento das uvas para acontecer durante o verão. O regime de chuvas observados “nos trópicos”, além das condições climáticas diferentes de um clima temperado durante fase da brotação, floração e frutificação, porém, não contribuem para uma adequada maturação fenólica da uva vinífera.

No entanto, a intervenção humana conseguiu alterar esse quadro. Graças à tecnologia, o ciclo da videira foi invertido. Mudanças no processo de maduração, a dupla poda, aliada ao uso de produtos químicos para auxiliar a planta a “dormir e acordar” num outro momento, tornaram possível uma boa maturação fenólica.

O timing dos vinhos de poda invertido foi perfeito

A produção de vinhos na região de Minas Gerais chegou com a exploração do ciclo do ouro, ainda durante o período do Brasil colonial. A invasão de um grande número de “estrangeiros” criou uma enorme demanda por alimento e, em muito menor escala vinho. Num momento seguinte, a chegada de imigrantes no Sudeste, notadamente os italianos, impulsionou a produção de vinhos para consumo próprio e, em pequena escala, o comercio de produções familiares.

O quadro se manteve até o início da segunda década desse século. Houve aumento de volume, pois a demanda pelo vinho de mesa, aqueles produzidos com uvas não viníferas, cresceu bastante. Em 2018, cerca de 75% do vinho consumido no Brasil era elaborado com uvas não viníferas. Os 25% restantes eram abastecidos com vinhos importados e com a produção nacional, oriunda basicamente dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que forneciam mais de 90% de todo vinho fino do Brasil.

A grande notoriedade de um projeto de produção de vinhos na região de Espírito Santo de Pinhal mudou muita coisa. A inciativa da Vinícola Guaspari, na primeira metade da década de 2010, incentivou vários outros atores interessados na produção de vinhos nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Podemos agrupar essas diferentes iniciativas em três clusters.

1 – Diversificação

O núcleo central onde esse movimento surgiu é um tradicional produtor de café. E café de qualidade, que ao longo do tempo, perdeu competitividade para outras regiões, onde a topografia viabilizou custos menores. Espírito Santo do Pinhal soube se posicionar muito bem nesse contexto, criando uma dinâmica indústria de equipamentos e orientado seu foco para a produção de produtos de qualidade e voltados para a exportação. O fato é que existe uma área importante de terras rurais disponíveis, com preços elevados, numa região nobre, sem vocação para a agricultura de larga escala (soja, pecuária, por exemplo).

2 – Aplicação do excedente de poupança para satisfazer um sonho pessoal

Na coluna de maio de 2023 aqui no WineFun, exploramos esse tema, concluindo que sonho pessoal “não tem preço”. O típico caso do executivo aposentado, ou do empresário que vendeu seu negócio principal, ilustram perfeitamente esse tipo de empreendedor. Mas não é só isso, há projetos de vinícolas sendo viabilizados com a captação de recursos através da cotização de muitos investidores. Sonho não tem preço, mas há sonhos que custam mais caros que outros.

3 – Demanda gigantesca por turismo rural

Os residentes da Grande São Paulo e das regiões de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos, com renda e disposição para consumirem turismo de um bom padrão sofrem nos períodos de pico, como feriados e finais de semana. Apesar de existir uma grande rede de hotéis, pousadas e afins, faltam outras opções típicas de regiões turísticas desenvolvidas, como parques, museus e afins. O turismo rural e, em particular, o enoturismo, são candidatos naturais a preencherem essa demanda. E a demanda é enorme!

Pandemia – o gatilho que faltava

O senso comum sugere e os dados confirmam: o consumo de vinhos no Brasil cresceu durante a pandemia do Covid-19.

Fonte OIV – Organização Internacional do Vinho

Importante observar que esses números precisam ser analisados com atenção. Afinal, quanto terá sido a mudança do mix de vinho de mesa e vinho fino? Não iremos nos alongar nisso por aqui, mas a participação do vinho fino cresceu. A outra questão a avaliar é o mix de importação versus o consumo de vinhos produzidos no Brasil. Tudo isso para dizer que, talvez, o crescimento do consumo de vinhos pode ter sido maior do que mostra o quadro da OIV, reproduzido acima.

Mas o fato é: o consumo de vinhos no Brasil observou um crescimento importante entre 2018 e 2021. Recuou em 2022 (e os dados preliminares sugerem novo recuo em 2023), mas mudou de patamar. O que os dados não mostram, no entanto, é o interesse pelo vinho. Assumimos a premissa que ele cresceu muito após a pandemia.

Nesse cenário, uma enorme população residente nas regiões mencionadas “descobriram” que não precisavam pegar um avião para visitar uma vinícola, seja no Brasil, ou no exterior. Era possível dirigir 100 – 200 km, em ótimas rodovias para viver essa experiência.

Mas ainda estamos nos estágios iniciais

Segundo informações obtidas em visita a uma vinícola, há cerca de 40 projetos em andamento na região de Espírito Santo de Pinhal. Além da Guaspari, há outros empreendimentos que merecem uma visita, como a recém-inaugurada Vinícola Amana, com instalações dignas de uma boa vinícola no exterior, e o Hotel Fazenda Barthô, com um winebar que serve apenas vinhos produzidos na área.

Mas a região é ainda muito precária. Faltam restaurantes e uma estrutura de hotel mais parruda. A escassez de mão-de-obra é gritante. Uma estrutura belíssima para visitação sem um restaurante, por falta de mão-de-obra, é um desperdício. Falta também a integração com outras atrações turísticas, como visita a produtores de café e queijo.

Possíveis próximos passos para o setor

Nesses tempos “bicudos” que vivemos, abordar temas que despertam paixões é difícil. Afinal a paixão não combina com razão. Discussões sobre esses vinhos conseguem despertar reações inexplicáveis. Analisar e apontar pontos a serem melhorados está longe de ser sabotagem. Saber ouvir, e ter humildade para ponderar as ideias colocadas, é uma virtude. Deixando tudo isso de lado, há pontos importantes que os empreendedores que se aventuraram nesse caminho deveriam observar:

1 – Foco no enoturismo e cuidado com discussões perigosas sobre a qualidade do vinho

Num cenário em que o consumidor pede, para não dizer exige, produtos sustentáveis e com baixa intervenção, os vinhos de poda invertida estão na contramão. Difícil imaginar mais intervenção, a ponto muito de chamarem esses vinhos de “tecnológicos”. O uso de um produto químico, banido de vinhedos de boa parte da Europa e Califórnia também é um grande problema.

Sobre o vinho em si, as intervenções necessárias, aliada à baixa escala, fazem o produto ser caro. E a qualidade, apesar de muito boa levando em consideração os desafios para o cultivo da uva, tem limitações. Nesse quesito, não adianta colecionar medalhas em obscuros “campeonatos mundiais de vinho”, onde o custo de inscrição é elevado e/ou os melhores vinhos do mundo não estão presentes.

Entender que o negócio da vinícola é receber clientes e encantá-los evita uma série de discussões inúteis e desgastantes. Na loja de uma vinícola de Espírito Santo de Pinhal, que originalmente produzia apenas café e que continua produzindo, um quilo do café premium era vendido por R$ 160, o dobro de um café parecido e vendido por outros produtores. É razoável esperar que o mesmo aconteça com vinho. Essa é a oportunidade real para quem investir no setor.

2 – Experiência deve vir antes do vinho

Provar o produto in loco num local confortável e mirando uma bela vista de um vinhedo fazem um vinho parecer muito melhor. Isso vale para o vinho e para produtos envolvidos no turismo de experiência. Dessa forma, um turista que sai de São Paulo para visitar uma vinícola já chega encantado. O local, o ambiente, preferencialmente com uma apresentação da vinícola, feita por um sommelier, certamente agregará muito valor.

Inserir o turismo do vinho num projeto maior de turismo rural é a grande oportunidade para posicionar os vinhos da região. Já nos referimos aqui ao gigantesco potencial do turismo rural em regiões próximas a São Paulo e as principais regiões metropolitanas do entorno.

3 – Explorar os diferenciais

Há espaço para empreendimentos ligados ao café, queijo e tantas outros produtos com potencial de atrair o público (cachaça, mel, etc). Prova desse potencial é o caso de um importante vinícola do Chile, que possui um hotel deslumbrante na Cordilheira dos Andes, frequentado principalmente por brasileiros. Ela trabalha em um projeto de empreendimento similar, na área entre Sorocaba e São Paulo. Para tanto, o setor precisa se articular para negociar com o poder público e os atores locais uma política de turismo para a região e a formação de mão de obra qualificada.

Em função do já mencionados motivos para o elevado custo de produção, será difícil posicionar o vinho para competir numa faixa de preço compatível com a qualidade que entrega. A concorrência com os importados é duríssima.

Mas o que os vinhos paulistas e mineiros possuem, e que ninguém mais possui, é o apelo para construir uma experiência única, sem a necessidade de o consumidor pegar um avião e viajar longas distâncias. Estar ao lado do maior contingente populacional do país, e o maior potencial de renda, é uma benção. Desperdiçar isso e querer jogar um outro jogo, sem possuir os atributos necessários é, no mínimo, irracional.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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